De volta para o futuro

twitterDe volta aos dias tenebrosos nos quais mamãe estava apenas começando sua longa luta contra o alzheimer (com minúscula, por favor) contando histórias delirantes, versões recentes de seu passado, me lembro de ter me espantado quando descobri que tudo que ela dizia tinha um forte aspecto negativo. Tentei entender. Se ela estava de fato reinventando sua vida, por que não fazê-la melhor do que tinha sido? Ao contrário, fazia questão de afirmar que eu a odiava, que eu e meu irmão nos odiávamos mutuamente; tenho até uma vaga lembrança de ela ter deplorado seu casamento com meu pai, que eu sempre acreditara ter sido perfeito. (Prefiro deixar quieta a memória de meu pai como um homem maravilhoso. Que ele descanse em paz. E ela também.)

Lembrei-me dessas histórias tristes enquanto refletia sobre o estado deplorável em que se encontra a nossa sociedade contemporânea. Por que, quando e como nos tornamos tão negativos? Tão violentos? Parece que uma nuvem negra de pensamentos flutua permanentemente sobre as nossas cabeças; de vez em quando, alguém pega um deles e o materializa. Na falta de motivo melhor, pelo menos para justificar nosso extremo mal-estar com a civilização, algo que Freud detectou já em 1929, ano em que nasceu minha mãe — a coincidência chamou minha atenção.

Comecei a escrever esta crônica pensando em criticar os celulares e a cultura da internet como as armas que na verdade nos ameaçam, possíveis responsáveis pelo problema da violência e da radicalização, mas com que objetivo, eu não saberia dizer. Nossas vidas, a minha incluída, são tão completamente dependentes desses avanços tecnológicos que não vejo um jeito de escapar, ou passar a evitá-los. E por que faríamos isso, afinal? É a natureza humana que se mostra intrinsecamente má. Olhe em volta e você verá como sempre damos um jeito de avacalhar nossas melhores conquistas e criações. A mente doente de mamãe nada mais é do que um bom exemplo dessa tendência. Tudo bem, admito, devo estar com um humor de cão.

Vocês acreditam que a culpa é do islamismo? Acreditam que o islamismo (radical) deve ser tachado de ultrapassado, atrasado, uma cultura medieval que nunca deveria ter saído da gruta da Idade Média onde foi criada?

Eu sim. No entanto, para minha surpresa, estava com Alan no carro quando ouvimos uma entrevista sobre como a lei islâmica, a Sharia, foi na verdade imposta aos países muçulmanos há bem pouco tempo. “Nos anos 1950”, escutamos, “as grandes cidades do Oriente Médio eram cosmopolitas, animadas, suas mulheres vestidas do mesmo jeito que todas as demais mulheres do mundo, uma liberdade total”. Incluindo uma comunidade gay em Alexandria, por exemplo, um fato que o entrevistado corroborou citando a “Série Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell (acrescentei “Série” para soar mais moderna, embora, aparentemente, o Médio Oriente, com a óbvia exceção de Israel, fosse bem mais moderno naquela época). Durrell entendia do assunto, já que foi adido de imprensa da Embaixada Britânica no Cairo e em Alexandria durante a Segunda Guerra.

Então, o que aconteceu, e como? Se eu pesquisasse a fundo certamente descobriria, mas não é esse o meu objetivo. Só quero saber por que, no final das contas, estamos sempre prontos a desistir da esperança e da felicidade. Como é possível que estejamos tão comprometidos com a desgraça e nos deixando contaminar por ela?

Outra coisa interessante é que temos a tendência a acreditar na primeira “versão da verdade” com que nos deparamos, coisa que entendi bem melhor quando comecei a usar o Twitter… na semana passada. Além de nos sentirmos sufocados pela quantidade de tuítes (não acredito que com vocês seja diferente), somos também afogados por um tsunami de mensagens equivocadas que entram direto na nossa psique, de onde dificilmente serão erradicadas. Et voilà, lá vamos nós levados a acreditar em falsas afirmações que nunca deveriam ter visto a luz da tela.

Entendam, não estou insinuando que as pessoas mintam no Twitter, não é isso (a não ser algumas poucas, é claro). São apenas mal informadas, porque acho impossível que qualquer pessoa possa ter uma noção clara de um acontecimento que envolve múltiplos fatores uns cinco segundos depois de ter ocorrido. Parece haver um tipo de concorrência para ver quem tuíta ou retuíta primeiro, e ninguém se incomoda com a exatidão da informação (um exemplo simplista e irrelevante é o fato de terem anunciado a princípio que 50 tinham morrido no ataque em Orlando, quando o real número de mortos foi de apenas 49). “Apressado come cru”, tentei explicar sem sucesso no meu texto em inglês; a tradução mais adequada seria “Só os idiotas se apressam”.

Quem são então esses idiotas?

Um exemplo mais irrelevante ainda, mas crucial para mim, é que nos recusamos (você, por exemplo, que nunca lê o que eu escrevo) a ouvir a verdade quando é dita por alguém que não seja considerado um especialista, com milhões de seguidores nas redes sociais. Foi mais fácil espalhar a ideia de que atletas e visitantes seriam com certeza contaminados pela zika durante as Olimpíadas — por um tempo foi esta a “versão oficial” — do que dar um crédito quando escrevi que não tem mosquito no inverno do Rio, a atual “versão oficial” divulgada pela OMS. OMG!

Tarde demais para muita gente. Infelizmente, os Jogos do Rio estão prejudicados, assim como as aspirações de tantos atletas que treinaram intensamente por quatro anos, para os quais o Rio é a última oportunidade de uma medalha. Azar deles.

Precisamos mudar nosso jeito de reagir, essa é que é a verdade, nossa disposição para aceitar tudo o que lemos na internet. Vamos combinar, só os idiotas aceitam as primeiras versões superficiais dos fatos, e só quem não pensa passa adiante esse tipo de desinformação que nos deixa em estado de alerta.

Não sou exceção. Também passo tudo adiante. Também passo os dias em estado de alerta constante. Mas ando tão cansada de estar sendo o tempo todo provocada que já estou prevendo como isso tudo vai terminar: mais cedo ou mais tarde vou decidir parar.

E aí? Vou fazer o quê? Não faço a menor ideia, meus amigos. Passo a vida na internet como todo mundo, e custo a imaginar uma solução para essa dura realidade, que, por sinal, só tende a piorar. Talvez o único jeito seja tentar controlar o que compartilhamos.

Não devemos acreditar em qualquer coisa que se propaga. Devemos aguardar até que o eco barulhento de tantos compartilhamentos se acalme, de preferência desapareça de nossas telas. Pode ser que depois disso estejamos aptos a debater os verdadeiros problemas, como a bandeira do ISIS nos celulares, possíveis deflagradores de ataques terroristas, como “revelou” Donald Trump — uma excelente metáfora, pensem bem.

Sei muito bem que comparei nesta crônica dois elementos que não têm nada, ou talvez tenham tudo a ver: nossa tendência a piorar as coisas e nossa disposição de compartilhar tudo, mesmo que seja apenas um palpite. Se pudéssemos mudar isso, pode ser que veríamos mais arte, mais beleza, mais amor nas redes sociais, em vez de tiroteios e ataques terroristas. Os autores desses horrores passariam então a ser exceção, limitados à sua insignificância e engasgados com sua própria obscuridade, jamais retuítados e solenemente ignorados. Mas, infelizmente, já fomos longe demais. E agora eles estão entre nós, usando as mesmas ferramentas de comunicação.

Por isso mesmo, é online que devemos declarar nossa guerra, lutar nossas batalhas de retorno ao nosso lado humano, já que o inimigo vive online como a gente. Através do dinâmico espaço das redes sociais, conseguimos finalmente driblar aquele filtro mental que Aldous Huxley descreve tão bem em As portas da percepção, um efetivo instrumento de proteção cerebral que deveríamos valorizar, em vez de desejar que ele desapareça de uma vez.

Saber demais, francamente não tem nos beneficiado em nada. Na verdade, andamos cegos e surdos, sobrecarregados de informação que nada significa e que mal conseguimos processar. No entanto, com a exceção de um Oriente Médio “irremediavelmente” rendido à lei islâmica, não se pode retroceder no tempo, e precisamos seguir em frente. Como? Diga aí quem souber.

E já que ninguém aguenta tanto sofrimento o tempo todo, vou contar uma história engraçada. Lembram que eu escrevi lá em cima sobre a entrevista no rádio? Pois é. Alan e eu estávamos indo visitar uma obra para conferir o trabalho de um empreiteiro que queremos contratar. O mapa estava no carro, e fui guiando o Alan passo por passo, prestando o máximo de atenção, eficiente como sempre, sabem como é. Depois de uns 50 minutos dirigindo, chegamos ao local, só que… não era lá. Havia dois mapas diferentes no carro, e eu tinha escolhido exatamente o mapa errado, dá para acreditar?

Só nos restava respirar fundo, dar meia volta, voltar a Greenville, e depois de atravessar a cidade prosseguir mais outro tanto na direção oposta até chegar ao lugar correto, depois de mais outra hora e meia dirigindo.

Conclusão: é preciso atentar o máximo possível para o mapa que estamos seguindo. Espero sinceramente que encontremos o nosso caminho. Tenho certeza de que vai nos levar para bem longe deste cada vez mais insensato mundo conectado.

Desafios

gorilla_and_baby“É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”, afirmou Hillary Clinton esta semana, em seu “discurso de vitória” como candidata oficial do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Um “passo histórico”, diriam alguns, sendo Hillary a primeira mulher nomeada por um dos (dois) grandes partidos americanos.

Pode até ser um grande passo para nós — imaginem: como imigrante, já me vejo integrada ao “povo americano” —, mas, vamos combinar: do ponto de vista global, fomos deixados muito para trás. Até mesmo o Brasil, terra onde cresci, já teve uma mulher na presidência, e todos sabemos como isso terminou. O que não muda o fato de que Angela Merkel, por exemplo, seja uma grande líder, com seus altos e baixos na briga europeia por um “mundo mais civilizado”. O que, por sinal, não está dando muito certo, para nem mencionar que no mês que vem a Comunidade Europeia estará enfrentando uma séria ameaça à sua existência, com a ideia da saída da Inglaterra e tudo o mais.

O que nos leva a concluir… coisa nenhuma. Apesar de ser muito incrível que as mulheres hoje em dia se sintam livres para se candidatar e até conquistar os postos mais elevados do Planeta, isso não quer dizer que serão mais eficientes, ou iguais, ou piores do que um homem na mesma posição. Há mal e bem, gente boa e gente má em todos os segmentos da raça humana, é isso aí.

Pois é, fiz de tudo para evitar o termo “minoria”, porque, afinal de contas, não faz nenhum sentido chamar de minoria o que constitui por volta de 50% da humanidade, não é mesmo? Isso também precisa mudar.

Voltando ao discurso de Hillary, eu nunca tinha escutado o ditado que ela mencionou (lembrem-se, agora sou estrangeira, sempre meio por fora, algo que Alan não cessa de me cobrar e de por isso me criticar), então fui rapidinho ao Google para me informar, e encontrei uma coisa ou duas.

Embora essa origem seja controversa, descobri que se trata de um provérbio africano, do qual Hillary, que na época era a primeira-dama americana, parece ter se apoderado para usá-lo como título de seu livro publicado em 1996, It Takes a Village (É preciso toda uma aldeia, não encontrei tradução para o português). Mais interessante foi ter encontrado uma “falsa citação”, muito popular, segundo a qual Hillary afirmou certa vez que “a função mais importante do Estado é ensinar, treinar e educar as crianças. Os pais têm papel secundário”.

Será que ela disse isso mesmo? Parece que não. Será que escreveu isso no livro que citei? Parece que não. Mas é fato que ela mencionou o ditado africano em seu discurso de vitória. Por que será? Fiquei intrigada.

Por que cargas d’água nós, mulheres, deveríamos defender qualquer tipo de ação governamental que no fim das contas nos seria prejudicial? Prejudicial para a nossa função de cuidadoras, um papel indispensável para a família humana?

É fato também que a ideia de deixar a tarefa de educar crianças entregue ao “Estado” é parte integrante do ideário socialista, uma ideia que resulta num maior controle dos nossos hábitos e comportamentos. Nos velhos tempos da criação do kibutz, em 1949/ 50, esse “uso da aldeia como cuidadora principal” era uma prática amplamente disseminada, à qual eu mesma fui submetida quando era bebê, já que nasci em Israel logo depois da Declaração da Independência, num kibutz da Galileia. Como se esperava que as mulheres estivessem tão disponíveis para o trabalho quanto os homens (não me lembro de jamais ter escutado nada parecido com “licença-maternidade” naquela época), o cuidado das crianças era confiado (não voluntariamente) a uma mulher específica, numa casa específica, onde todas as crianças viviam juntas. As mães compareciam algumas vezes por dia para amamentar seus filhos. Mas é importante ressaltar que, pelo que sei, tal prática não é mais generalizada hoje em dia.

Devo confessar que tentei atribuir minhas dificuldades nesta vida a esse começo atribulado. Afinal de contas, é de conhecimento geral que os primeiros três anos de uma criança são os mais importantes para o seu desenvolvimento. Apesar de que, no meu caso, “recriei” minha vida tantas vezes e tão completamente que não dá para garantir que esses três anos tenham realmente me moldado. Acabei indo a Israel e tentando entrar em contato com a tal mulher “encarregada”, que alguém descreveu como muito severa, mas também amorosa. Quando perguntei a ela que tipo de criança eu era, eis o que ela me respondeu:

— Você era uma criança normal, como todas as outras. Quando você chorava, eu simplesmente mandava você calar a boca.

Tá certo. Como estou com 64 anos, e a tal “viagem investigativa” foi há mais de 20, pode ser que eu esteja reinterpretando a resposta dela e a misturando aos meus controvertidos sentimentos a respeito da minha criação e de tudo o que vivi esses anos todos.

A verdade é que cresci com uma entranhada sensação de medo e insegurança à qual logo me acostumei, sempre lutando contra a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, acabaria perdendo alguma coisa ou alguma pessoa importante para mim. E sempre reagi tentando ir longe demais, me colocando desafios demais, me enfiando em situações complicadas que, para o meu próprio bem, seria melhor evitar. Simplesmente não consigo fazer de outro jeito.

Minha mãe me contou que quando cheguei ao Brasil, com 15 meses de idade, me recusei a andar por um bom tempo. Mais tarde, já adulta, toda vez que eu olhava para as minhas fotos de bebê eu enxergava um rostinho triste, uma postura corporal que parecia sempre estar rejeitando a proximidade do outro. Isso me perturbava tanto que, como diria um amigo das antigas, acabei “ritualizando” as fotos. Em outras palavras: queimei todas.

Mas por que lembrar agora todas essas sensações?

Não sei exatamente. Como diz o Alan, “as coisas me vêm” quando estou escrevendo ou algo assim, embora eu, na verdade, me recuse a acreditar nisso.

De um jeito ou de outro, foi o que me veio à mente no momento em que escutei Hillary mencionar o tal ditado, então eis a minha resposta: Não é preciso uma aldeia inteira, nem um Estado, e muito menos nenhuma ideologia para se criar uma criança. Descontando a educação formal, que é muito importante, só é preciso um bom par de pais amorosos e bem estruturados — pais biológicos, sempre que for possível — muitos abraços e “eu-te-amos”, palavras carinhosas apoiadas em gestos amorosos, não importando a “teoria de comportamento” em voga.

Não é impossível que uma criança educada num ambiente hostil venha a se tornar um adulto equilibrado, equipado para a felicidade. Já vi crianças diagnosticadas com ADD, ou ADHD ou coisa que o valha (diagnósticos de déficit de atenção) e medicadas de acordo, que mesmo assim se viraram muito bem. Tudo bem.

Por outro lado, fico pensando por que os jovens hoje em dia parecem tão perdidos, tão dispostos a aceitar a violência e crenças duvidosas, tão negativamente inclinados a rejeitar a reflexão e o pensamento profundo, meios criativos para se transcender a dureza da vida — fiquei surpresa e chocada no outro dia quando vi um leitor acusando o autor de um ensaio filosófico de “viver numa bolha”. Como isso irá se refletir quando tiverem seus próprios filhos? Ou, afinal, qual será o resultado de nossa disposição de nos destacar da natureza? Não tem como saber; o jeito é esperar para ver.

Enfim, achei que deveria escrever sobre isso e pronto. E enquanto estava imaginando o que escreveria, topei com um vídeo que se tornou viral mostrando um garoto de seis anos chorando, desesperado, por conta de um outro vídeo que tinha visto na escola e que mostrava como a humanidade está “destruindo as florestas e matando todos os animais”. Ele deu sorte (ou não) de não terem mostrado a mais séria ameaça ao nosso futuro enquanto humanos; e já que mencionamos o assunto, não é esquisito que estejamos tão preocupados em preservar a natureza e os animais enquanto fazemos o possível para excluir a nós mesmos desse ambiente? Enquanto, literalmente, lutamos contra a dádiva da natureza para cada um de nós? Experiências com animais e testes de drogas em cobaias de laboratório são tidos unanimemente como crueldade. Ao mesmo tempo, não temos nenhuma objeção a seres humanos que se sujeitam a todo tipo de tentativa maluca no sentido de alterar seus corpos.

Não dá para entender. Nesse meio tempo, acredito que seja importante, inclusive como posicionamento político, lutar pelo nosso direito de crescer do jeito que nascemos, para preservar o direito de uma criança a uma família amorosa, a salvo de “experimentos sociais”.  Falando nisso, é assim que vejo a atual “loucura de gêneros”, sim, um “experimento”. Apesar de saber, certamente, que essas mesmas ideias acabarão sendo usadas contra mim. Afinal de contas, ninguém tem o direito de nos dizer de que jeito e para o que nascemos, ou de definir o que exatamente constitui uma “família amorosa”.

Para começar, acho importante deixar a “aldeia” de fora quando se trata de nossa vida privada, da nossa individualidade. Liberdade é isso!

E para terminar, acho importante lembrar que a atual “revolução dos costumes” começou há 50 anos com atos de desobediência civil. É espantoso constatar que, neste momento, estejamos implorando, apelando ao Estado para interferir em nossos  mais íntimos dilemas.

Sou retrógrada sim, e daí?

pra-esquerda-pra-direitaHá muitos anos, eu estava almoçando no Shopping Leblon com uma amiga escritora, hoje bem mais famosa e merecidamente apreciada, quando ela me surpreendeu com a declaração de que adorava o funk e tudo que ele significava. O funk era um instrumento importante, minha amiga afirmou, para que as mulheres (especialmente nos bairros mais pobres do Rio, onde o gênero é muito popular) pudessem reafirmar sua independência e energia, e por que não dizer, perseguir a igualdade social.

Fiquei espantada. Para mim, o funk é associado a um estilo musical que enfatiza letra por letra, quer dizer, em cada letra de seus versos, o que as pessoas esta semana estão chamando de “cultura do estupro”, um slogan que se espalhou nas redes sociais com a rapidez de um rastilho de pólvora, adquirindo em seu caminho novas e surpreendentes associações com as ideias de esquerda que ainda lutam para prevalecer no país, apesar da indiscutível legalidade do processo de impeachment.

— Mas as letras são tão violentas — argumentei na época. — Tão prejudiciais para os valores femininos.

Não consegui convencê-la, e honestamente duvido de que conseguirei convencer muitos de vocês de tantas coisas que hoje em dia me espantam, talvez porque eu mesma me espante com frequência com o meu novo, recém adotado “arsenal” de ideias e conceitos morais conservadores.

Antes de prosseguir, deixem-me concluir com alguns pensamentos sobre a cultura do fun… ops, do estupro. Semana passada, uma garota de 16 anos apareceu num vídeo divulgado em algum lugar na internet (eu mesma não assisti). Estava nua, deitada inconsciente numa cama suja, enquanto uma voz masculina em off dizia algo como “Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu?” — a quantidade dos que “amassaram a mina” variando no noticiário de cinco a 33.

Não resta nenhuma dúvida de que um evento desses constitui um pesadelo moral, embora não seja uma raridade nesse tipo de ambiente, onde consumo de drogas, sexo grupal e um tipo específico de rap violento são coisas normais. Mas nesse caso em especial, quero ressaltar a rapidez com que dele se apropriaram os defensores da afastada, que sem demora o associaram a “um governo retrógrado que excluiu as mulheres e está planejando cancelar os programas sociais”, entre outras coisas.

Cheguei a ler o seguinte comentário, se referindo ao presidente interino e à nova Secretária da Mulher que inicialmente se declarou contra o aborto legal: “que desgraça se abateu sobre nós… puta merda… e o canalha ainda manda tirar o “presidenta” (sic) de todas as comunicações oficiais… que machista escroto… caraca!”

Caramba. Contrariando a “cultura da mandioca”, o “canalha” que nos governa tem na verdade demonstrado que ama o português, com mesóclise e tudo. Que atraso! E assim temos vivido, acredito, nestes tempos que poderiam ser definidos como “governados pelas redes sociais”. O que era antes domínio de análises bem-informadas e bem fundamentadas hoje foi tomado pelas opiniões ignorantes e apressadas que podem “colar” ou não, dependendo, não da validade de seu conteúdo, mas do número de seguidores de seu autor. O que termina resultando numa mixórdia descontrolada de fatos e numa forma deturpada de conhecimento amplamente aceita como verdade, numa velocidade correspondente à de sua “viralização”.

Agora voltemos a algo bem mais básico, mais estabelecido e muito mais perigoso que tive que enfrentar nas últimas duas semanas, enquanto editava um livro cujas ideias reiteram enfáticamente tudo o que venho criticando nos últimos tempos e que tanto vem me incomodando, como a ênfase que vem sendo dada a “novas configurações familiares” e vários “tipos de pai”. Sofri mais ainda porque não posso deixar um livro de lado simplesmente devido ao fato de que seu conteúdo me incomoda, muito pelo contrário. Sou pela absoluta liberdade de expressão, o que, por outro lado, inclui a minha própria. E tendo dedicado todo o cuidado à edição do material, me sinto agora no direito de exercer a minha crítica.

Feita essa ressalva, lembro que os textos acadêmicos de que o livro se compõe são, como todos os textos acadêmicos, baseados em outros textos já publicados faz tempo, o que nos leva a concluir que a atual revolução dos gêneros já vem de longa data e está muito mais enraizada na nossa psique “moderna” do que poderíamos supor, coincidindo talvez com a revolução feminista que ocorreu há quase 50 anos. Isso mesmo.

Eu até poderia, em princípio, aceitar arranjos familiares “não-tradicionais”, mas fiquei revoltada com o fato de que, para tornar esse “novo” tipo de liberdade aceitável, a principal estratégia dos referidos autores é destruir o vínculo natural que existe entre uma mãe e o cuidado de seu filho durante o período de lactação. Me desculpem se estou me repetindo, mas nesse contexto específico o instinto maternal é descrito como um “biologismo” prejudicial, uma linha de raciocínio muito perigosa, na minha opinião. Se permitirmos que ela floresça, pode ser que num futuro próximo ela acabe resultando no abandono do velho (e ultrapassado) hábito de gerar crianças através do coito heterossexual, um fato da natureza que, se assim eu puder insinuar, deve deixar muitos revolucionários de gênero bastante irritados. Como assim, deixar que a natureza aja assim, tão despoticamente?

Um detalhe que deixa muito claro um certo tipo de “desvio feminista” é o uso insistente do formato “os(as)” que resulta, simplesmente, num péssimo português. As autoras mulheres, que constituem maioria no campo da Psicologia, parecem tão preocupadas com detalhes gramaticais insignificantes (como, por exemplo, o fato de que em português todas as formas no plural são masculinas, o que qualificam como uma “injustiça”) que através de seus conceitos e afirmações acabam por ignorar o fato de que não apenas estão permitindo, mas estão na verdade incentivando a formação de um contexto social no qual os pontos fortes e o poder natural das mulheres estão sendo simplesmente negados em favor de “outras minorias”. Em outras palavras, certos grupos minoritários estão tentando se apossar das nossas exclusivas características biológicas, tão antigas quanto a própria humanidade, em nome de não sei bem o quê. Isto é, daquilo que nomeiam como “liberdade de gênero”, um conceito de gênero completamente desvinculado das limitações de nossas características sexuais.

Num dos ensaios que editei, a autora cita determinado pesquisador, bem famoso na área, por sinal, que em tese estudou a família humana através dos tempos por meio de imagens, e chegou à conclusão de que essa configuração de família hoje dominante (mas não por muito tempo, esperam ardentemente os “ativistas sociais”) não é determinada pela natureza, referindo-se ao fato de que apenas “recentemente” essa ideia de um núcleo familiar heterossexual e monogâmico nos foi “imposta”. Substituindo, por exemplo, o hábito medieval de “vender crianças para as guildas feudais”; isso, para não mencionar várias formas de poligamia que raramente beneficiavam as mulheres, para não dizer nunca.

Mas claro! É o que se chama “evolução dos costumes”!

O mais triste de tudo isso é que tais teóricos(as) são bastante eficazes em “tomar parte pelo todo”, isto é, em usar o argumento de que se “alguma coisa é verdade para uma parte de determinada situação, então é verdade também para a situação toda”, uma técnica de redação denominada “falácia da composição”. Em outras palavras, são fatos tomados fora de seu contexto original, prática também bastante comum na política.

No caso dessas admiráveis novas feministas, elas estão na verdade correndo o risco de cair em suas próprias armadilhas, e se ainda não caíram, cairão em breve. E a gente cairá junto, se não fizermos algo rapidamente. A humanidade está correndo perigo, meus amigos, e não consigo imaginar de jeito nenhum como alguns humanos felizardos poderão se beneficiar disso. A não ser, é claro, se dermos rédea solta para teorias de conspiração que incluem “um governo global”, a eliminação do dinheiro vivo e coisas do gênero, tudo cuidadosamente planejado para nos libertar do peso de nossa força individual, do nosso poder de escolha.

— Agora é tarde — Alan lamenta. Enquanto eu escrevia esta crônica ele estava assistindo a documentário assustador sobre a DARPA, uma “agência militar americana de pesquisas de segurança máxima”, assunto de um livro que será publicado semana que vem nos Estados Unidos. Alan segue me explicando como a ciência e a pesquisa comportamental já foram longe demais para voltar atrás em experimentos que tentam alterar o cérebro humano, incluindo o uso de “chips cerebrais” em recém-nascidos e outras coisas igualmente assustadoras.

Juntar farinhas tão diferentes todas no mesmo saco pode ser um verdadeiro perigo, um alarmismo totalmente injustificado de minha parte, admito. Mas não é tão diferente dessas técnicas psicológicas que estão sendo empregadas para nos engabelar, com o apoio não disfarçado, mas nem por isso identificado, do poder de doutrinação recentemente acumulado pelas redes sociais.

Do ponto de vista pessoal, tenho me sentido cada vez mais à vontade com meu novo conjunto de crenças retrógradas. E daí? E apesar de não estar incluída entre os 400 escritores famosos, donos do pensamento contemporâneo — isto é, do pensamento da esquerda —, que esta semana assinaram nos Estados Unidos um “manifesto em favor da preservação da ética e da liberdade” e outras palavras de ordem semelhantes, posso garantir que existem outras mentes brilhantes por aí que pensam como eu. Apesar de que, se pensar bem, talvez não sejam tão inclinadas a “assinar manifestos” como os luminares mencionados.

Vou terminar me limitando a citar os significados de “funk” número 2 e número 3 listados no dicionário em inglês, já que a palavra “funk” é um anglicismo: (2) um cheiro forte, normalmente desagradável; e (3) um estado depressivo, mau humor, fossa; encolher-se de medo.

É isso aí, amigos queridos. Com tudo isso que temos enfrentado, estou numa fossa de fazer gosto, e fazendo o máximo para não me encolher de medo. O que significa, simplesmente, seguir vivendo.

Como, aliás, estamos todos fazendo. O que não tem remédio, remediado está, não é mesmo?

 

***

 

Uma nota: depois que a crônica estava pronta, José Eduardo Agualusa avisou no Facebook que eu estava errada, que “presidenta” existe e consta do dicionário. Ele está certo.  De acordo com outro escritor, o especialista em língua portuguesa Sérgio Rodrigues, em artigo publicado na Veja em 2001, “não está errado usar ‘presidenta’ como feminino de presidente, assim como não está errado tomar presidente como palavra de dois gêneros, invariável. Esta é a forma dominante, aquela uma variação emergente”.

publicado também aqui

Enquadramentos

ruin-1211350_1920Era uma tranquila manhã de quarta em Greenville e eu mal podia acreditar nas coisas que meu cérebro estava lendo naquele artigo sobre a “miséria na América” — “uma América crivada de ansiedades”, para ser exata.

— Alan, por que cargas d’água os americanos estão tão revoltados? Acho difícil de entender.

Ele demora um pouco para responder. Está no meio de escrever um email, tentando contemporizar com mais um de nossos promissores empreiteiros, com quem vínhamos trabalhando há mais de um mês em horário quase integral, numa animação só, trocando ideias excitantes sobre o projeto da nossa casa. Que, por sinal, depois de quase dois anos ralando, por alguma razão que me escapa, ainda estamos alterando. No começo fiquei tão empolgada que até pensei que o sujeito era meu amigo, quando, por exemplo, ele nos levou para um passeio de dia inteiro visitando casas que tinha construído já faz um bom tempo — todas lindas, charmosas, do telhado ao banheiro, a típica “arquitetura de revista” que andávamos procurando. Isto é, se tivéssemos dinheiro suficiente.

Faz tempo também que o Alan vem insistindo naquilo que ele chama de “preço correto” para o estilo de casa que estamos planejando — bom design, sem firulas nem frescuras como já devo ter comentado, muito vidro, acabamento bem simples, mas de boa qualidade, enfim, tudo de um jeito Bauhaus de ser, se é que vocês me entendem. Alan repete o tempo todo que as pessoas estão se iludindo, presas a uma noção de custo que vem despencando desde a explosão da “bolha” imobiliária em 2008, ou coisa parecida (peço desculpas por não saber explicar melhor, mas como na época eu não morava nos Estados Unidos, não dá pra saber como tudo realmente se passou).

Daí que, depois desse longo “namoro”, o empreiteiro bonitão — pois é, evitei até aqui revelar esse pequeno detalhe — enfim entregou o tão temido orçamento… praticamente o dobro por metro quadrado do que a gente estava esperando.

Como um “enquadrador” experiente — aqui nos Estados Unidos as construções começam por levantar toda uma estrutura ou moldura de madeira semelhante a um cenário de teatro, e tínhamos decidido fazer assim mesmo, em vez de insistir no concreto e tijolo — o cara tentou nos “enquadrar” direitinho, isto é, pensou que a gente entraria na dele. O caso é que, depois de tanta pesquisa, aprendemos uma coisa ou duas com relação ao negócio da construção, e já não somos tão inocentes quanto no começo: não levamos nem um minuto para perceber que ele na verdade tinha duplicado os orçamentos recebidos de terceiros, et voilà, sobrou pouco para extrapolar e concluir, sem meias palavras, que ele estava tentando nos explorar, para meu profundo desapontamento. Fiquei deprimida por uma semana.

É bem verdade que desde a obra da nossa casa no Brasil a gente tinha se convencido de que todo empreiteiro é um pouco ladrão, me desculpem aí a generalização. Outro generoso profissional que consultamos, imaginem, ofereceu que passássemos para ele a posse do lote e da casa para que ele tomasse um empréstimo em nosso lugar, e assim que tivéssemos crédito poderíamos comprá-la de volta, rsrs. O problema é que eu nunca disse a ele que não tínhamos crédito… Ousado, o rapaz: me lembrou um filme que assisti há algum tempo no qual a protagonista contrata um matador de aluguel para assassiná-la e assim livrá-la e à sua família de uma dívida impagável… o que, felizmente, não é o nosso caso.

Como tenho escrito demais sobre política ultimamente — pior, política americana, um assunto que pouco interessa aos meus leitores brasileiros — algumas amigas andaram me pedindo que eu escrevesse sobre a minha rotina nos Estados Unidos. O que, por sinal, não iria agradá-las nem um pouco, já que desde que me mudei para cá mudei também tão radicalmente de opinião a ponto de estar apoiando a candidatura a presidente de vocês-sabem-quem.

— Trinta e dois por cento dos jovens adultos neste país ainda moram com seus pais — diz o Alan, que está vendo TV no outro canto da sala.

Ele prossegue me explicando que o desemprego na verdade está em torno de 10, 15%, que as estatísticas só contam gente que ainda está procurando emprego, deixando de lado quem já desistiu ou encontrou algum outro jeito temporário de se virar; e lamenta que o atual governo esteja investindo demais em instituições e gastos sociais, em vez de estimular a economia e fazer o país crescer, um estilo de governar mais para o “socialista”.

— E é por isso que tem tanta gente apoiando o Donald Trump.

Tomando os outros por mim, acho meio difícil para os brasileiros entenderem realmente o que se passa nos Estados Unidos. No Brasil só se tem acesso à interpretação meio tendenciosa de alguns jornalistas locais, que, por sua vez, se baseiam numa opinião também tendenciosa de algum colega estrangeiro, muitas vezes através de traduções malfeitas. Telefone sem fio, sabem como é. Estamos sendo “enquadrados” a cada dia que passa, meus amigos.

Em Psicologia, o termo “enquadrar” é definido como o “processo de definir um contexto ou questões em torno de um problema ou acontecimento de maneira a influenciar como esse contexto ou questão é visto e avaliado”. Então, enquanto eu estava me aborrecendo com a questão do “enquadramento” da casa estava ao mesmo tempo me defrontando, no livro que estou editando, com algumas descrições bastante claras de como a “questão de gênero” vem sendo engendrada na nossa sociedade por muito mais tempo do que ousaríamos imaginar.

Confesso que fiquei muito desanimada. Uma crença bastante tendenciosa envolvendo a “injustiça” de uma divisão “super simplificada” da raça humana em homens e mulheres vinha sendo ensinada nas universidades como verdade comprovada, estabelecida há mais de uma geração por livros didáticos aceitos e aprovados. Portanto, não se trata, absolutamente, de uma ideia meio estapafúrdia relacionada ao uso dos banheiros que apareceu nos Estados Unidos na semana passada, como a princípio pode ter parecido, pelo menos para a “massa ignara”, na qual eu mesma me incluo.

Tendo como base a óbvia injustiça de uma sociedade paternalista, que “enquadrou” as mulheres por boa parte da nossa história civilizada, e também o indubitável sucesso do movimento feminista dos anos 1960, a maioria dos acadêmicos está tentando (e conseguindo) impor a todo mundo uma estrutura de pensamento segundo a qual a família tradicional é não apenas preconceituosa, como também prejudicial à sociedade. Seu vocabulário, usando algumas palavras-chave especialmente inventadas e proibindo outras, resulta em pérolas como “a maternidade não é inata, mas construída pela sociedade”. Isto, baseando-se no fato de que “nem todas as mulheres desejam ter filhos”.

Pô, peraí. Que raio de lógica seria essa? Um bom exemplo é essa campanha de “direitos civis” a favor da legalização do “poliamor” no Brasil. Tudo bem. Para mim, trata-se nada mais, nada menos de “poligamia” com um nome repaginado, entenderam?

Como um exemplar típico da minha geração orgulhosamente revolucionária, na qual as mulheres lutaram com tanta dedicação pelo direito de serem iguais aos homens, tudo o que tenho a declarar é o seguinte: tendo optado por não ter filhos e focar minha atenção em outro tipo de assunto, vejo a maternidade, na verdade, como algo que vem sendo “destruído pela sociedade”, e tenho certeza de que em algum momento vamos nos arrepender dessa coisa toda. Para mim, no entanto, será tarde demais.

No meio de toda essa doideira de diversidade que tenta hoje em dia nos confundir e sufocar, torna-se quase inevitável concluir que mulheres e homens, no final das contas, não poderiam ser mais diferentes. E por favor, não se apressem a concluir que tal diferença inclui “todas as possíveis variações entre um extremo e outro”, ok?

Taí. Quer me parecer que temos optado por basear nossos ideais numa tendência atual enganosa e frágil, que fica martelando o tempo todo os seus pontos de vista. Como eu disse, estamos sendo enquadrados, meus amigos. Caiam fora enquanto é tempo.

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Jogando com as Olimpíadas

2016_Summer_Olympics_logo.svgMeu sobrinho de 27 anos, um brilhante engenheiro que estudou na França e mora há alguns anos na Alemanha, vai voltar para casa em agosto, durante as Olimpíadas, já que se registrou como voluntário e foi aceito para trabalhar como motorista: um profissional de alto nível, com experiência internacional, estará à disposição de alguns atletas sortudos para levá-los a circular por uma das mais belas cidades do mundo.

Assim como ele, milhares de jovens brasileiros se registraram como voluntários, um sonho que começaram a alimentar quando, em 2009, o Brasil foi escolhido para abrigar os Jogos Olímpicos.

Era uma época de muito otimismo no Brasil. O PT estava no governo desde 2002, navegando numa onda (herdada) de estabilidade. Lula era assim, digamos, um tipo de ícone: um homem simples, vindo da classe trabalhadora, que, depois de uma vida de lutas, atingira o mais alto posto público no Brasil — um indiscutível herói da esquerda, reconhecido mundialmente. Obama o adorava, dizia que ele era “o cara”. Uma vitória das boas para um país de terceiro mundo que há pouco tempo estava sendo esmagado pelo peso de uma inflação descontrolada.

Parêntese: este texto foi escrito para a “galera internacional”. Se assim não fosse, estaria cheio de aspas irônicas, mas, como vocês sabem, se a gente quiser ser levada a sério no mundo precisa se comportar. Fim do parêntese.

Tínhamos levado também a Copa do Mundo de 2014, que deu até bem certo, por sinal, apesar dos muitos rumores e da crise política que na época já cobrava seu preço.

Desde então, essa crise piorou substancialmente, e atingiu seu ápice com a aprovação pelo Senado, na semana passada, do processo de impeachment contra Dilma Roussef, atualmente em seu segundo mandato depois de ter sido apontada por Lula para sucedê-lo em 2010, uma escolha desastrosa. Incapaz de governar após sua reeleição em 2014, com sérias suspeitas de contribuições ilegais para sua campanha, Dilma estava há meses praticamente ausente da cena pública, com exceção de seus discursos patéticos e sem sentido, que acabaram por transformá-la em objeto de piadas, algo que a imprensa internacional talvez ignore. Lula, por sua vez, está enfrentando sérias acusações de tráfico de influência, ocultação de patrimônio e falsidade ideológica.

É interessante lembrar que a solução para a nossa galopante inflação veio justamente depois que outro presidente foi impedido, em 1992, pela primeira vez na história brasileira. O impeachment, dizem os especialistas, é um instrumento para garantir a democracia num regime presidencialista, onde não há um primeiro-ministro para ser substituído. Sem isso, afirmam, a democracia poderia facilmente descambar para uma ditadura.

Pessoalmente, já enfrentei inúmeras crises econômicas no Brasil, e penei de verdade. Nos anos 1980, eu era uma empresária e designer bem conhecida, lutando contra uma inflação de 10 por cento. Por semana. Em 1990, logo depois da posse de Collor — o presidente que mais tarde foi impedido —, eu estava trabalhando como curadora de artes na Fundição Progresso, para quem não conhece um importante centro cultural no Rio de Janeiro que, na época, era totalmente dependente de verbas oficiais. E todos os programas culturais foram cancelados, literalmente, da noite para o dia.

Também “naveguei” na onda de estabilidade e progresso que se seguiu ao bem-sucedido “Plano Real”, quando uma moeda estável resolveu finalmente os nossos problemas. Mas apenas temporariamente, já que hoje em dia o Brasil está enfrentando uma forte recessão. Desta vez, devido à corrupção e má administração, pois é, o Brasil não facilita. Então, nesse novo momento, eu tinha decidido me dedicar a escrever e trabalhar como editora. Para quem ainda não sabe, fui a pioneira do livro digital no Brasil, a primeira editora brasileira a publicar um ebook em português na Amazon, muito antes de outras editoras ou outras livrarias online decidirem se arriscar no novo mercado, muito antes de a Amazon decidir abrir sua própria loja no país. Com uma ajudinha da minha parte, gosto de acreditar.

Foi nesse ponto que essa nova crise me apanhou. Eu tinha uma empresa que ia de vento em popa, totalmente operada através da internet; um catálogo com mais de 200 títulos publicados; e a linda casa que Alan e eu projetamos e construímos num paraíso no meio da Mata Atlântica, em Petrópolis. Estava muito preocupada. Nem a Copa do Mundo conseguiu me animar em nada. Tudo que eu queria era vender a nossa casa com algum lucro e me mudar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Não conseguia me imaginar tendo que começar tudo de novo mais uma vez, mais uma vez por conta da incompetência e desonestidade do governo.

Agora que a presidente Dilma já foi impedida, a mídia internacional decidiu comprar a versão dela para os últimos acontecimentos, dando força ao argumento de que foi vítima de um “golpe”. Pois é. Pode até não haver uma acusação direta de corrupção contra ela, ou uma prova indiscutível de que cometeu algum crime. Mas, curiosamente, ao longo dos últimos anos Dona Dilma esteve em posições de poder que coincidiram em tempo e lugar com crimes sendo cometidos, como, por exemplo, em 2007, quando o escândalo de Pasadena transformou a escala de corrupção dentro da Petrobras. Dona Dilma, embora insistindo na teoria de que nada há para manchar sua “impoluta reputação”, era na época a chefe do Conselho da Petrobras, e como tal deveria aprovar qualquer investimento de monta da companhia estatal.

Enfim, não tenho a intenção nesta crônica de fazer uma lista das inúmeras razões pelas quais o Brasil estava certo ao impedi-la, ou enfatizar que todo o processo ocorreu 100% de acordo com as regras e respeitando não só a democracia, como as nossas instituições e a separação de poderes. Para nem mencionar que refletiu a vontade da grande maioria do povo brasileiro, aí incluídos muitos daqueles que votaram nela em 2014.

Devo confessar que não foi surpresa nenhuma para mim ler esta semana no New York Times uma discussão sugerindo que o Brasil deveria no mínimo adiar, provavelmente cancelar os iminentes Jogos Olímpicos. Por razões que não consigo entender, uma campanha contra nossos interesses foi lançada há alguns meses pelo próprio governo, durante a crise de Zika. Uma crise que, por falar nisso, foi em boa parte provocada pela incompetência desse mesmo governo no sentido de eliminar os focos do mosquito com medidas simples, mas efetivas, coisa que já fazemos há anos, desde que surgiram as sazonais epidemias de dengue, que, como todos sabemos, é transmitida pelo mesmo Aedes. A reação foi ruidosa e imediata. Todo  mundo começou a cogitar cancelar os Jogos, sem prestar atenção ao fato de que, no inverno do Rio, os mosquitos diminuem consideravelmente. Dificultando, portanto, a contaminação pelo vírus.

Na série de artigos do NYT o Brasil foi acusado, entre outras coisas, de ser bom em “ocultar os danos e mostrar sua face artificial”, o que, vamos combinar, é no mínimo injusto. Embora a nossa proposta para as Olimpíadas tenha sido ambiciosa, as obras estão sendo executadas, mesmo com toda a dificuldade e agitação política. A crise ainda persiste, mas estamos otimistas. Já estamos do “outro lado” de um dos maiores desafios que o país enfrentou durante a minha vida, e há uma firme disposição de fazer o melhor e dar tudo de nós. Restam ainda incontáveis problemas a serem resolvidos, mas pelo menos não temos mais a sensação de ter uma “gangue” no poder fazendo o que pode para manter seus privilégios, custe o que custar, com o dedicado apoio de um forte esquema de corrupção. Que, por sinal, está sendo desbaratado pela Polícia Federal (não se preocupem: na versão em inglês não chamei o PT de “gangue”, mas sim de “pity party”, um “partido que dá pena”).

Hoje, o Brasil e os brasileiros deveriam, isso sim, ter a seu dispor um amplo e generoso apoio internacional no sentido de fazer tudo o que estiver ao alcance de todos para fazer dessa Olimpíada um sucesso total. Muitos de nossos jovens, como o meu sobrinho, estão a postos. O Rio de Janeiro, que apesar dos pesares continua lindo, está se aprontando para o evento, que, no momento, é nossa melhor e mais imediata aposta para elevar um pouco a nossa moral, tão combalida nos últimos tempos, coitada. E uma campanha da mídia no sentido de prejudicar um projeto tão importante nos faria muito mal.

O fato é que nós, brasileiros, estamos orgulhosos demais da conta da maneira civilizada com que recuperamos o controle do nosso país, deixando intacta sua estrutura democrática. Esperamos que em agosto vocês venham compartilhar com a gente essa satisfação.

Narrativas

lies2Há alguns anos, uma de minhas melhores amigas, que além de escritora era também publicitária, foi contratada para a campanha de um candidato do PT à prefeitura de uma pequena cidade no interior de Minas Gerais.

Depois de um mês de “imersão” no QG da campanha, minha amiga voltou impressionada com o nível de corrupção que tinha testemunhado, e me falou que pretendia escrever um livro a respeito.

Dei o maior apoio. O PT naquela época ainda estava no auge da popularidade, embora já houvessem consistentes rumores de propina e má administração. E embora a gente esperasse que o partido se desse mal nas eleições municipais, não foi o que na verdade ocorreu.

Minha amiga deu um tempo. Depois decidiu adiar seu projeto, que, no final das contas, nunca foi concretizado. Ela acabou mudando de ideia, e aproveitando, mudou de ramo também, e hoje se dedica à construção imobiliária.

Fico pensando em quanta gente boa por aí tomou essa mesma decisão de não falar o que sabia e o que estava vendo, e não culpo esse pessoal de jeito nenhum. Para a nossa geração, denunciar qualquer coisa que tenha a ver com o governo constituiu por um bom tempo algo bastante perigoso, já que crescemos durante a ditadura, os infames “Anos de Chumbo” (chumbo aqui significando bala, mesmo). Embora, é claro, hoje em dia exista no Brasil uma democracia madura e total liberdade de imprensa; é nisso pelo menos que a gente prefere acreditar. Por outro lado, qualquer pessoa medianamente bem-informada sabe que “para que o mal triunfe basta que gente de bem decida não fazer nada”, desculpem aí.

Enfim, o que se pode fazer. As pessoas são livres para escolher.

Hoje, quarta-feira, enquanto estou escrevendo, o Senado se prepara para votar o que será provavelmente o “último suspiro” de Dilma Roussef. Depois de idas e vindas e um bocado de drama, mais parecendo uma novela disfarçada de reality show, a presidente vai ser destituída por 180 dias, provavelmente para sempre. Vamos nos livrar de suas supostas boas intenções e péssimos resultados, que quase acabaram por destruir o país. Isso, para nem mencionar a imposição constante de visões de esquerda, defendendo a ideia de que os partidários do PT são os donos da verdade e da “bondade humana”. Imaginem.

Donos da incompetência e da desonestidade, isso sim. E isso deverá ser provado no final. Na verdade, demos a maior sorte por ainda nos restar um país que poderá se recuperar, com o tempo e um governo em que se possa confiar.

Na contramão da lógica mais comum, já que nosso país não passa de uma “república  de terceiro-mundo sem relevância”, vou me arriscar a afirmar que o Brasil de hoje deveria ser considerado uma espécie de “mapa do tesouro” para resolver o “problema da esquerda”. Tudo bem, eu entendo muito bem que vocês talvez nem saibam qual é esse “problema da esquerda”, ou qualquer coisa nessa linha. Mas basta parar para pensar e analisar com calma o que está acontecendo neste momento na temporada eleitoral nos Estados Unidos, ou nos derradeiros meses do governo Obama, para entender do que se trata.

Esta semana, um artigo chocante publicado no New York Times expôs sem meias palavras para o público em geral a noção de que o povo americano foi e tem sido manipulado para acreditar em fatos que, na verdade, não passam de mentira pura. Vamos combinar que, de um jeito ou de outro, dava para imaginar qualquer coisa rolando nesse sentido, mas a esse ponto? Se a realidade não estivesse tão flagrante, eu me recusaria a acreditar que tal coisa pudesse acontecer nos Estados Unidos, imaginem; mas lá estava, tudo muito claro, explicado nos mínimos detalhes, incluindo a “narrativa” que deveria infalivelmente nos convencer da justa necessidade do Acordo Nuclear com o Irã (não sei se vocês sabem, mas a grande maioria do povo americano era contra esse acordo). No artigo, os jornalistas são tratados com desprezo, como se fossem crianças de escola, meio imbecis. E que dizer do povo em geral? Daqueles que (bem ingenuamente, acredito), confiam nas instituições, nas incensadas ideias dos “fundadores” da América?

Como estrangeira (e iludida), confesso que fiquei espantada. E ainda tem mais.

O Facebook acaba de ser acusado de “manipular” as notícias (aqui nos EUA o Facebook é considerado uma espécie de portal, linkando os sites de noticiário), favorecendo os esquerdistas, ops, liberais, em detrimento dos conservadores. Isso, dizem, para agradar o “chefe”, o que incluiria o fato de ele ser contra Donald Trump.

Tudo bem. Todo mundo tem direito à sua opinião. Mas não à “manipulação da opinião”, não é? O que deveria, a meu ver, abranger tanto a equipe do Facebook como seus usuários, ou estou ficando maluca?

Liberdade de imprensa e amor à verdade não são os únicos valores americanos sendo desafiados ultimamente. Longe de mim pretender parecer “careta” ou preconceituosa, mas o que começou como uma “colorida” campanha de direitos para os gays está agora se degenerando num estado geral de abuso e perversão de fazer corar a Sodoma de Pasolini. Peço desculpas por minha linguagem radical, mas me enchi de vez! O pior é que tudo isso nada mais é do que um mero sinal dos atuais rumos da nossa sociedade. Infelizmente.

Crianças e adolescentes têm sido como nunca antes encorajados a duvidar de seu próprio “gênero”. A moral e a família tradicional têm sido desprezadas, rotuladas como retrógradas, num mundo onde certo e errado nada mais têm de “absolutos”. Muito pelo contrário: tudo hoje em dia é passível de discussão. A “educação” está sendo transformada num campo de batalha, onde ideólogos dedicados jogam pesado, para ganhar. E o prêmio que eles mais ambicionam é a “verdade do futuro”, cada vez menos discutida porque a pluralidade de pensamento tem sido cuidadosamente afastada das universidades, por exemplo, que boicotam as vozes conservadoras. Isso vem acontecendo nos Estados Unidos, mas, pelo que sei, o Brasil não fica muito atrás.

Pessoalmente, detesto teorias de conspiração, mas está ficando cada vez mais claro que estão tentando nos impor uma “agenda esquerdista”, diminuindo cada vez mais o espaço de contestação. Agora mesmo no Brasil, por exemplo, pessoas que tinham se afastado da esquerda porque, afinal de contas, não estava dando para defender a corrupção no PT, já estão voltando a cerrar fileira. Pensamento e verdades estão sendo “processados” em vários cenários, não só na política. Esta semana, por exemplo, li num artigo que Freud teria dito que “é impossível ignorar a que ponto a civilização é construída com base numa renúncia ao instinto”. Para meu profundo desânimo, o autor — de quem gosto bastante, por sinal —, pretendendo atacar uma fala de Trump em defesa do uso de sua intuição, se “esqueceu” de informar ao público leitor de que Freud na verdade não estava falando de política, mas de sexo, dos impulsos sexuais. Para ser exata, da pulsão de morte [Todestrib] como contraposição ao instinto de sobrevivência [Lebenstrieb], descrito como Eros.

Freud nunca disse nada no sentindo de negar a “intuição” que utilizamos na tomada de decisões. Pô, peraí. E, mesmo que tivesse dito, teria sido desmentido, já que a ciência hoje em dia reconhece sem sombra de dúvida a importância da intuição nesse processo.

E por aí vai.

Todo mundo sabe que na antiguidade a História era frequentemente reescrita pelos que se saíam vitoriosos em guerras de vida e morte. Mas nada se compara à atual prática de manipular o próprio pensamento, um estado de coisas no qual, para além de uma muito festejada “democracia da informação”, certas ideias são qualificadas como mais “morais” que outras, e, portanto, as pessoas que as defendem são “melhores” que as outras. Contra quem estamos combatendo, afinal? Indo mais fundo, será que estaríamos melhor arranjados se um desses “lados” terminasse eliminado?

Duvido.

Recentemente, o incêndio que queimou (e continua queimando) um estado inteiro no Canadá tem sido atribuído ao “aquecimento global”, culpando ferozmente a indústria “suja” de extração de petróleo no local. Li no mural de uma amiga canadense que gente que perdeu tudo, e foi forçada a deixar suas casas, está sendo acusada de “atrair a própria desgraça”. Peraí. Trata-se exatamente daquela mesma mania horrorosa, muito popular na Nova Era, de se “culpar o paciente de câncer por sua própria doença”, uma ideia no mínimo muito injusta.

Esses “escrevinhadores de narrativas” são tão descuidados que desprezam a História, e manipulam bancos de dados sem o menor constrangimento. E já que estamos falando de desastres da natureza, o que dizer, por exemplo, da tempestade de poeira ocorrida em maio de 1934 nos Estados Unidos, há exatos 82 anos? De acordo com os registros, “numa maciça tempestade, toneladas de partículas de solo voaram através das “Great Plains” nos Estados Unidos atingindo até Nova York, Boston e Atlanta”. Será que a terrível seca que provocou o fenômeno também se deveu à atividade humana?

Ok. Como escritora, tenho direito a “criar uma narrativa” e jogar à vontade com seus elementos. Trata-se, basicamente, da essência do meu trabalho. Quando junto num mesmo texto fatos diversos, ocorridos em épocas diferentes, estou procurando, definitivamente, manipular as crenças das pessoas, ou criar uma história que torne a realidade mais fácil de entender. Mas faço questão de sempre esclarecer meus métodos, sempre enfatizando a inevitável presença de um exagero que é crucial para o sucesso desse gênero literário intitulado “crônica”. Também costumo insistir no fato de que tudo que escrevo não passa da minha própria opinião, meu jeito de ver e entender as coisas, que, aliás, não imponho a ninguém, a não ser a mim mesma.

Já essas pessoas que descrevi mais acima, encarregadas de nossas “narrativas cotidianas”, podem não ser assim tão inocentes, nem tão bem-intencionadas. Cuidado. Elas querem você.

Donos da bondade

petistasNada que eu já não soubesse, considerando que essa conjuntura de fatos alterou minha vida tão pessoal e profundamente, mas não tinha me dado  conta disso realmente até que li sobre o assunto na coluna de Thomas Friedman no NY Times: “Em 2007, a Apple lançou seu iPhone, dando início à revolução dos aplicativos e smartphones; no final de 2006 o Facebook abriu suas portas para todo mundo, não apenas estudantes, e disparou feito um foguete; o Google lançou o Android, seu sistema operacional, em 2007; (…) e a Amazon lançou o Kindle em 2007”. Como já contei centenas de vezes, a abertura da KBR em 2008 se deveu tanto ao aparecimento do Kindle que a empresa foi inicialmente chamada de KindleBookBr, até que a Amazon nos pediu para mudar. Não custa lembrar que o “K” da KBR continua sendo uma homenagem ao querido Kindle. Já o “BR” nem preciso explicar.

Não é difícil imaginar como essa onda tecnológica deve ter afetado as demais pessoas, principalmente nos Estados Unidos, onde tais “novidades” foram criadas, encorajadas e adotadas num piscar de olhos. Ainda me lembro da discussão por ocasião da primeira eleição de Obama, em 2008, sobre se ele “poderia” ou não continuar usando seu Blackberry como presidente. Dá para imaginar uma discussão desse tipo hoje em dia?

Blackberries já sumiram faz tempo, mas em países de terceiro-mundo a tecnologia ainda é considerada uma inimiga. Como no Brasil (ops, desculpem), onde esta semana um juiz bloqueou o WhatsApp por 72 horas porque a empresa se recusou a fornecer informações às quais nem tinha acesso. Não me espantou nem um pouco descobrir que o tal juiz, vindo de uma cidadezinha nordestina — olha aí a dica para me acusarem de preconceito e discriminação —, não é usuário do WhatsApp e ainda por cima é avesso à tecnologia, pô, peraí, este é na verdade o juiz que liberou o WhatsApp depois de 24 horas de bloqueio… enfim. Fazer o quê.

Não resta dúvida de que, no que diz respeito à comunicação, a revolução tecnológica mudou nossas vidas profundamente. Nos famosos e “revolucionários” anos 1960, se quiséssemos gritar alguns slogans contra o estado de coisas era preciso comparecer ao vivo a qualquer manifestação. Que chatice! Como naquela época não existia nada parecido com “presença virtual”, vou arriscar um palpite sobre o que na verdade caracteriza a “originalidade” da atual campanha eleitoral americana: a furiosa atividade nas redes sociais. Incluindo os controversos “tuítes do Trump”.

Tal fenômeno, obviamente, não se limita aos EUA. No Brasil, por exemplo, as redes sociais estão tendo um papel excepcional na crise política da hora, apesar de o pivô do impeachment ter sido, na verdade, um telefonema grampeado, como nos velhos tempos. Ainda assim, me espanta um bocado perceber como as redes sociais nos permitiram uma visão inusitada, não somente da opinião, mas do fundo da alma, da consciência de cada um. Et voilà, finalmente podemos entender (eu, pelo menos, pude) o desonesto jogo ideológico que nos manipulava há tempos sem que a gente percebesse, e ainda nos manipula.

Hoje, no Brasil, não resta dúvida de que a chamada “esquerda” se metamorfoseou num esquema corrupto que na verdade rouba do povo, com óbvias e prejudiciais consequências para os pobres e necessitados, apesar de a doutrinação do PT querer provar o contrário. Para aliviar o peso de tais graves acusações, só mesmo lançando mão do altamente eficaz humor brasileiro, que é forte o suficiente para desafiar nossa situação deprimente: “Este governo tirou bilhões da pobreza. E os depositou em contas secretas no exterior”. Agora imaginem o meu aperto para traduzir essa piada para o inglês, ai, ai, ai. Trata-se do típico conflito cultural em ação.

Apesar de tudo isso, a esquerda não deve desistir tão fácil. Seus adeptos estão tão convictos de serem os donos da verdade que, a partir de certo ponto, começaram a se descrever como os “donos da bondade”. Ou pelo menos foi o que me disse um amigo, entusiástico partidário de Bernie Sanders, que, em resposta à minha recente (e também deprimente) “saída do armário conservador” definiu a “esquerda” (ou melhor, “os liberais”, como se descrevem nos Estados Unidos) como uma “teoria política baseada na natural bondade humana e na autonomia do indivíduo, favorecendo as liberdades políticas e civis” (grifo meu).

Fico imaginando de onde ele tirou isso, porque, francamente, me recusei a pesquisar no Google. Não aguento mais me confrontar com esse tipo de teorização sem sentido. Vamos combinar: Rousseau (O Contrato Social, 1762) já tinha entendido que não existe essa tal “bondade humana”, descrita pelo autor como um atributo natural “corrompido pela influência perniciosa da sociedade e das instituições humanas”. O que, supostamente, deveria incluir nossas (fracassadas) ideologias.

Um fato curioso é que, enquanto eu escrevia esta crônica em inglês (como é meu novo costume), procurando uma expressão local que caísse tão bem para os meus propósitos como “donos da bondade” (dá pra ver que continuo pensando em português) me deparei com um comercial de comida canina com o slogan “alimentando a bondade”, mostrando que a gente pode, se quiser, dar preferência ao nosso lado bom em determinadas ocasiões. Entre as quais se incluiria, por exemplo, um cachorro sem dono quase sendo atropelado na rua, mas dificilmente um debate político radical. Por sinal, isso não dá aos esquerdistas (ops, “liberais”) — e muito menos aos “direitistas” — o direito de se arvorarem em exclusivos praticantes do bem, mesmo que assim se acreditem. O que, na minha opinião, deveria ser definido como “ilusão”.

De qualquer maneira, agora que Donald Trump se tornou oficialmente o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, vou arriscar um passo à frente e provocar mais uma vez o ódio alheio — em vez de preconceituosa, preconceituosa e meia — declarando o que acredito que está por trás desse tal “movimento”, descrito pelos mais importantes jornais americanos como constituído por uma maioria de homens brancos, trabalhadores braçais sem educação superior e misóginos, isto é, homens que odeiam as mulheres. Trata-se, na minha opinião, de uma “revolução popular”, uma reação à qualidade humana que nos faz avacalhar tudo aquilo que tocamos — me desculpem o pessimismo — nos impulsionando a exagerar na direção do progresso de forma a eliminar os avanços obtidos, sem exceção.

O pêndulo da civilização oscilou, atingiu seu máximo. Estamos todos exaustos desse extremismo em nossos pensamentos (e ações!), um estilo de vida radical que se imiscuiu em nosso dia a dia, quase insuportável hoje em dia. Esse pessoal não dá a mínima para o bem-estar da humanidade em geral, vamos combinar. Só se concentram em seu próprio umbigo, sem se importar com as consequências. E um belo dia isso vai ter que parar, tenho quase certeza de que vocês sabem do que estou falando.

Espero, sinceramente, que esse momento esteja se aproximando, e que possamos finalmente nos despedir para sempre desses donos da verdade, donos da bondade. No Brasil, pelo menos, sei que estamos quase lá. Já vão tarde.

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Eu apoio Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos

Custei para encontrar uma "imagem positiva" do candidato.
Custei para encontrar uma “imagem positiva” do candidato.

Não adianta tentar simplificar as pessoas. É preciso seguir pistas, não exatamente o que dizem, nem inteiramente o que fazem.
Virgina Woolf

 

Finalmente chegou o dia , e não vejo um jeito mais fácil de fazer esta afirmação: decidi apoiar Donald Trump como candidato à presidência dos Estados Unidos. Sei que para os brasileiros neste momento isso parece irrelevante, mas para o mundo é muito importante, e o mundo não vai acabar com o impeachment de Dilma. Além do mais, estou vivendo aqui, e tenho uma visão mais íntima desses acontecimentos que pode ajudar em certos julgamentos, embora seja apenas, obviamente, a minha modesta opinião.

Sei muito bem que, com esse apoio, arrisco perder mais uma meia dúzia de amigos no Facebook, e talvez alguns clientes. Paciência. Eu aguento.

E não pretendo declarar esse apoio como tem sido feito ultimamente por tanta gente, mostrando apenas o avesso, isto é, as qualidades negativas dos demais candidatos. A verdade é que tenho pleno direito a dizer o que penso, algo que aprendi do jeito mais difícil nestas últimas semanas do caos político brasileiro.

Se as pessoas podem dizer de cara limpa que “seguiram seu coração” quando votaram em Bernie Sanders nas primárias, por que eu não poderia fazer o mesmo, isto é, “seguir o meu coração”? Quem deu a elas esse poder de serem donas da verdade? Donas, pelo menos, da única opinião que conta?

Vamos combinar: em política não existe “verdade absoluta”. É tudo farsa. E o nosso papel nesse jogo de empurra é tentar enxergar o que há por trás da cortina de fumaça que ambos os lados se esmeram em soprar para o nosso lado no dia a dia.

Enquanto escrevo, na quarta-feira, depois das vitórias de Trump nas primárias de terça, pode parecer para alguns que estou apenas optando pelo favorito republicano, considerando que decidi me tornar “republicana” já faz algum tempo, quando comecei a me decepcionar com Obama, depois de torcer por ele tão ardentemente. Ou depois de ter me rendido à constante pressão do Alan, só com a ressalva de que o que ocorreu é que ele realmente me convenceu, com argumentos razoáveis, que faziam bastante sentido.

Não adianta continuar insistindo em ideias fracassadas do tipo “ninguém pode ser eleito presidente dos Estados Unidos sem antes ganhar as primárias de Ohio”. Eu poderia refutar dizendo que “ninguém pode ser eleito presidente dos Estados Unidos apenas ganhando as primárias de Ohio”, como John Kasich, certo? Também não vejo sentido em lembrar a fracassada tentativa de Ted Cruz de resolver esse “enigma” se juntando com Kasich numa dupla de perdedores, podendo assim “fingir” que ele, Cruz (ou pelo menos a nova dupla), venceu as primárias de Ohio e, portanto, merece a presidência de um jeito meio torto. Ou ainda, depois que esse “acordo” acabou furando rapidamente, fazendo de conta que já foi nomeado candidato republicano através da escolha de uma “vice-presidente”, a Carly dois-por-cento, ou “Fiorina cantora”.

Ted Cruz. Que figura assustadora. Mesmo assim, fui comparada a ele numa resposta bastante injusta a um comentário meu num artigo do New York Times. Bem a tempo, a tempo demais para ser considerado algo mais do que uma feliz coincidência — não acredito em coincidências, pero que las hay, las hay — encontrei um artigo na coluna “Modern Love” do Times que enfocava mais ou menos o mesmo assunto da minha crônica da semana, “Amor, duro amor”: a mania, ops, o “movimento” transgênero. Não hesitei um segundo antes de tentar entrar no New York Times pela porta dos fundos, isto é, colocando um link para a minha crônica num comentário ao artigo. Ufa.

Deu certo. Um bando de gente além do par de leitores que  me leem habitualmente foi redirecionada para a minha crônica publicada no Times of Israel. Felizmente, boa parte dos leitores do NYT que comentaram sobre o artigo comungavam comigo em suas opiniões, refletindo uma clara rejeição dessa imposição de valores por parte de uma óbvia minoria, que não sei por que motivo acabou ganhando “foro privilegiado” no “ideário esquerdista”, ou coisa que o valha.

Não somente fui comparada a Ted Cruz, como também “xingada” de “cisgênero” — para quem ainda não foi apresentado ao termo, “gente que opta pelo gênero ou sexo com que foi contemplado ao nascer”, algo altamente ofensivo, ao que parece. Por que eu — ou qualquer pessoa, aliás — deveria se conformar com um destino tão limitador? Por que alguém deveria ser forçado a aceitar que é mulher simplesmente por ter nascido assim? Quando foi que concedemos à natureza esse tremendo poder de decidir, francamente antidemocrático?

Apesar do fato (positivo) de ter precisado aceitar que o papel de “comentadora” é duro de encarar nesta nossa época de extremismos — é preciso desenvolver, literalmente, uma “casca grossa” — fiquei contente ao perceber que nem todo mundo está enlouquecido, ou enlouquecendo. Um número significativo de mulheres tentou explicar, por exemplo, que seus seios (exatamente como os meus!) são um órgão vivo, nutridor, entremeado de vasos sanguíneos e terminais nervosos, muito mais do que um “saco cheio de gel”. Um homem gay compareceu com uma ideia original, afirmando que o “movimento transgênero” é na verdade um retrocesso, indo na contramão de conquistas anteriores que nos conduziram à liberdade sexual e seus resultados alentadores. “O sexo biológico é imutável”, ele disse. “O ‘transgenerismo’ se baseia em ideias retrógradas sobre o que significa ser um homem ou uma mulher”.

Vocês poderiam me perguntar, que diabo isso tudo tem a ver com a candidatura de Donald Trump? Vou explicar. Acredito que o já mencionado “ideário esquerdista” perdeu o rumo. O que começou como uma defesa de direitos humanos fundamentais, alegremente defendidos pela nossa geração na nossa juventude, acabou se degenerando numa espécie de “ditadura das minorias”. E não estou tentando minimizar direitos humanos verdadeiros, cruciais, como a liberdade de expressão, ou mais urgente ainda, o direito à moradia, alimento suficiente e educação como base para uma mínima qualidade de vida. Nem pretendo descrever verdadeiras “minorias”, como os mais pobres, ou pessoas de outras cores (descontando a cor branca), ou, imaginem, “mulheres” — esclarecendo a ironia: de acordo com a natureza, as mulheres devem somar mais ou menos 50% da raça humana — mas, ao contrário, verdadeiras “raridades”. Por que deveríamos aceitar ser limitados, tolhidos, ou mesmo sofrer abuso por parte de tais seres raríssimos, só para satisfazer suas exigências radicais?

Não me levem a mal. Como uma recém-convertida “conservadora”, sou completamente a favor da liberdade para todos. Contanto que não afete a minha própria.

Nada disso significa que, uma vez eleito, Donald Trump vá conseguir, ou ao menos se empenhar em frear essa maluquice. Mas tenho certeza de que Hillary Clinton vai se esforçar para manter a atual tendência, como tem demonstrado em seus discursos. E mesmo que ela não se esforce, o simples fato de se eleger um democrata — ou, como eles gostam de ser chamados, um “liberal” — será um claro sinal de que nós, a maioria, apoiamos esse estado de coisas, essa avassaladora falta de sentido que está prevalecendo hoje em dia.

Enquanto escrevo esta crônica, escuto meio distraída ao discurso de Donald Trump sobre política externa. Nada de novo nessa frente, desculpem aí o possível trocadilho. O que quer que ele diga ou faça neste momento tem apenas um objetivo: eleger-se presidente, angariar votos, ponto final. Mudanças nacionais radicais ou fortes alterações na atuação internacional do país, embora dependam do presidente como já vimos, devem antes de qualquer coisa passar pela Câmara e pelo Senado, certo?

Uma mudança urgente se faz necessária, isso é bem verdade. O que não quer dizer que, mesmo tentando com vontade, a gente consiga atravessar a tal cortina de fumaça que esconde o futuro, descobrindo assim o caminho certo a seguir. Só podemos confiar no nosso senso interno de direção, no sentido moral, um sentido que pode estar profundamente afetado pela intensidade das opiniões que nos atacam vindo de todos os lados da rede social, ecoando todo tipo de intolerância, de preconceito disfarçado, de afirmações impositivas, embora injustamente elaboradas e raramente merecidas. Neste nosso mundo atual, tem razão quem fala mais alto, ou no mínimo tem mais “curtições”.

Vou me limitar a apoiar Donald Trump (claro que estou sendo irônica) por apenas duas razões: a primeira é que, como eu, ele tem a mania de pôr apelido em todo mundo; e a segunda é que ele sempre começa uma revelação dizendo que “não revelo nem sob tortura que…” completando a frase com a revelação em questão, coisa que eu faço com frequência (adaptei obviamente ao linguajar popular brasileiro, ele nunca mencionou a palavra “tortura”, tá bom?). Se eu estiver horrivelmente enganada, vamos saber logo, logo. Ou nunca, caso Hillary seja eleita.

A verdade é que não existe “se”. Estou apenas seguindo os meus instintos e pronto. Não faz sentido para mim ignorá-los neste momento.

Para nem mencionar, obviamente, que a maioria das questões levantadas nestas eleições americanas foram introduzidas por Trump, caso vocês já tenham esquecido, ou nem sequer tenham prestado atenção. Todos os outros candidatos se limitaram a reagir a elas, alguns repetindo que nem papagaios, outros combatendo do jeito que podiam, com raras exceções. Quer dizer: de um jeito ou de outro, Trump já é o “cérebro” por trás do futuro governo, a mente que está dando as cartas. Apesar de Alan tê-lo criticado dizendo que o candidato mal sabe ler um discurso.

E agora que o “grande discurso” terminou, vou ter que dizer que não existe comparação entre o carisma de Trump e o carisma de Obama. O tempo dirá se “carisma” é na verdade aquilo que resulta num mundo melhor. Começamos tão bem com a nossa luta pela justiça e igualdade social, alguns anos atrás. Quando foi então que a gente se perdeu?

Talvez resulte em algo bom se a gente decidir seguir um caminho que não seja tão claro assim, já que tal clareza provou ser falsa, ou pelo menos ineficaz.

Eu certamente me sentiria bem melhor, ficaria bem mais feliz se conseguisse efetivar esse “apoio” de um jeito mais animado, mais convincente, como costuma fazer o “outro lado”. Mas não consigo. O mundo não deixa, já que continuo com tantas dúvidas sobre tantas coisas. Mas não no que diz respeito à presente decisão, que já está tomada. Caso encerrado. Fui.

Amor, duro amor

Eddie Redmayne em "A garota dinamarquesa".
Eddie Redmayne em “A garota dinamarquesa”.

Há exatos quatro anos, no dia 18 de abril, mamãe faleceu depois de uma longa luta contra o alzheimer (sem maiúsculas, por favor).

Ainda estou sofrendo. Ainda recordo, como se fosse hoje, seus ásperos comentários, um provável reflexo de seus medos mais profundos de que eu e meu irmão a detestássemos. Um medo sem sentido: apesar de nossa relação nem sempre ter sido fácil, tanto eu como ele tomamos conta dela com muito carinho até o fim. O que nem sempre acontece, como todo mundo sabe. Uma pessoa que conheço viajou de férias para Nova York poucas horas depois de sua mãe ter tido um grave derrame e ser internada no hospital. Outros creem não ter nenhuma obrigação de cuidar de seus “velhos”, ao ponto de também aconselharem seus conhecidos neste sentido, como li num blog recentemente.

Minha mãe não dava moleza. Mesmo assim, não tenho nenhuma dúvida de seu amor. Mesmo ela amando mais o meu irmão, como sempre acontece nas famílias judias. Brincadeira.

O cérebro tem essa sabida habilidade de nos pregar peças, e graças a isso, no caso de alguma doença ou sob a influência de algum tipo de droga, podemos vir a maltratar as pessoas que mais amamos, e que nos correspondem na mesma medida. Não pretendemos machucá-las, mas machucamos mesmo assim.

E esta semana isso aconteceu comigo, é, mais uma vez. Na verdade, continua acontecendo. Meu marido, acostumado a tomar todo dia uma pílula para dormir, foi submetido sem querer, por conta de um implante dentário, a uma nociva mistura de remédios — “iatrogenia”, me ensinou uma amiga médica. Ele estava muito ansioso, com certo receio da cirurgia, o que dá pra entender. Não apenas sua aparência, mas também sua dentada estava ameaçada, não por causa da idade nem nada disso, mas por conta de uma raiz fraturada e a consequente perda de uma coroa “vencida”, passando da hora de ser substituída. O dente mesmo ele já tinha perdido numa queda de bicicleta quando era criança, mas na nossa idade, sabem como é, esse tipo de coisa perturba de verdade, provocando um alerta, um anúncio assustador de que o “fim está próximo”, podendo ocorrer a qualquer momento. Daí, quando um sedativo poderoso e um analgésico perigoso, ambos receitados pelo dentista, foram adicionados à sua “habitual receita de drogas”, o resultado foi um desastre. Alan entrou numa espécie de surto e ficou três noites sem dormir, falando sozinho, quase delirante, com breves intervalos de consciência. Já testemunhei um punhado de cérebros danificados nesta vida e lidei com eles. Mas fraquejei de verdade quando, antes de entender o que estava acontecendo, comecei a suspeitar de que Alan estivesse com alzheimer como a minha mãe.

Quando descobri a mistura acidental de remédios, tive um sutil momento de alívio. Então, agora, estou na esperança de que ele se recupere depressa, uma esperança que se fortaleceu ontem à tarde, quando ele teve uns lampejos de consciência e conseguiu conversar com o filho. Mas aí, infelizmente, ele abusou dos comprimidos novamente, et voilà, mergulhou na psicose de novo. E é claro que o alvo de sua raiva foi aquela pessoa que ele mais ama (é o que eu espero) e que mais corresponde ao seu amor.

Tenho lidado com coisas demais ultimamente. Além das minhas preocupações de sempre, ainda estou muito abalada pela crise no Brasil, cuja causadora mor, sob o efeito suspeito de drogas poderosas, anda posando de vítima e agindo erraticamente. O velho cérebro aprontando novamente! Não causa nenhuma surpresa o fato de a presidente Dilma reagir desse jeito, totalmente alheia às suas obrigações como “mãe da nação” e demonstrando um total desprezo pelo povo “sob sua proteção”. Quem sabe também seja o caso de sua raiva ser dirigida às pessoas que… etc. etc.

Tenho plena consciência de que, de uma certa maneira, nossa própria dor interior pode fazer com que abracemos com fervor determinadas causas. O que explicaria, por exemplo, o fato de eu estar dedicando tanta energia à política brasileira — e à americana também, por falar nisso —, talvez devido aos meus próprios traumas e medos. Mas será que isso seria possível no caso de mais de cinquenta milhões de brasileiros (56% da população adulta mais ou menos) ao mesmo tempo? Pouca chance!

De volta ao “amor maternal”. Faz bem pouco tempo, como vocês sabem, que comecei a me considerar mãe de alguém, colocando para funcionar os meus instintos maternos. Então enfrentei uma séria dúvida quando meu filho foi aceito como advogado no Marine Corps americano. Deveria cumprimentá-lo por seu sucesso? Seus amigos estavam empolgados, sua noiva toda orgulhosa, mas, honestamente, como mãe dele, embora com algum esforço eu até pudesse também me sentir orgulhosa, a verdade é que eu estava com medo, preocupada com a sua segurança, fazer o quê. Será que eu deveria mentir para ele? Decidi que não era o caso. Falaria simplesmente a verdade, como sempre faço, a minha verdade, pelo menos.

Amor, duro amor. Em inglês existe uma expressão para isso, para este amor que age com dureza no sentido de evitar algum sério problema ou sofrimento para o ser amado: “tough love”, o tipo de amor que fala a verdade, uma verdade que pode doer, e geralmente dói mesmo. Um amor desse tipo é o que anda faltando na nossa civilização conectada, onde todo mundo anda em busca de aprovação e é consenso geral que devemos concedê-la.

Acredito que isso também faça parte da imposição de um “modelo liberal”, como, por exemplo, no caso dos banheiros para os transgêneros. Ando tão incomodada com esse assunto que até já lhe dediquei uma crônica há algumas semanas. Honestamente, quantas pessoas com problemas de gênero podem existir neste mundo? Nos Estados Unidos, onde o movimento adquiriu uma força inaudita? No seu bairro, na sua cidade? A condição existe. Mas é extremamente rara, a ciência já reafirmou isso.

Fiquei muito impressionada com um filme que assisti na semana passada, antes de o mundo que me cerca, nacional e pessoalmente, descarrilhar completamente. “A garota dinamarquesa” conta a história da primeira mulher transgênero (ou homem, sei lá) de que se tem notícia a se submeter a uma cirurgia de “reatribuição de gênero”, ou qualquer coisa nesse sentido. Einar Wegener (magistralmente interpretado por Eddie Redmayne) era (ou parecia ser) um jovem pintor de bem com a vida, um homem casado e apaixonado pela esposa. As coisas começam a degringolar quando essa jovem, que também é pintora, pede para ele posar para uma tela vestido de mulher.

A situação se transforma rapidamente, e de repente, o que era para ser um divertido episódio de “cross-dressing” — em termos mais chulos, “travesti” — acaba levando Wegener a acreditar que ele seria uma mulher “internamente”, e começar a agir como tal. Há uma cena impressionante, na qual o rapaz, habilmente, esconde seu lindo pênis (desculpem, não consegui me controlar) entre as coxas, tentando se comportar “femininamente” em frente ao espelho no camarim de um teatro. O que me irritou de verdade foi que, em vez de tentar evitar que isso acontecesse, sua adorada esposa e um par de amigos fazem questão de apoia-lo explicitamente.

Lili, a “nova mulher” — trata-se de uma história verdadeira, e Lili Elbe é considerada pioneira, uma espécie de ícone do movimento transgênero — decide enfrentar uma série de cirurgias cada vez mais arriscadas (e não testadas) para “corrigir” seu “defeito”. Não apenas o lindo pênis foi morto e sepultado. A coisa vai bem mais longe quando, devido às ambições desmedidas do doutor e da própria Lili, que sonhava em “ser mãe”, o primeiro decide, além de criar uma falsa vagina, tentar transplantar um útero — num verdadeiro e antecipado tributo ao Dr. Mengele.

O paciente morreu.

Não estou nem aí para o fato de que, como afirmaram diversos críticos, faltam vários detalhes e a história fracassa em ser fiel à verdade. O mais doloroso de se ver, contudo, foi que a nova mulher, ao tentar sufocar o homem que (agora) vivia dentro dela, sufoca também seu amor pela arte. Como o fato de ser artista famoso tinha a ver com “ele”, mas não com “ela”, Lili decide ir trabalhar numa loja enquanto aguarda seu longamente planejado suicídio. E isso eu não consegui perdoar.

Lembro ainda o desespero de mamãe quando soube que eu estava namorando um homem gay. Ela gritou comigo, duvidou da minha inteligência, fiquei com tanta raiva dela! Como ela podia ser assim tão insensível, sem o menor respeito pelos meus sentimentos? Duro amor. Ela tinha razão. Sofri um bocado com esse relacionamento.

Agora imaginem quantos pais dedicados e respeitosos têm incentivado o “desconforto de gênero” demonstrado por seus filhos, ministrando a eles drogas pesadas e até mesmo permitindo e providenciando suas cirurgias mutiladoras?

Devo confessar que, como adolescente, eu mesma tive minhas dúvidas quanto ao acerto “do meu sexo”. Cérebro traiçoeiro. Tive uma menstruação tardia. Meus seios praticamente inexistiam quando eu já era “velha demais” para continuar tão chapada. Mais tarde, quando comecei minha carreira de arquiteta e designer de móveis, fui considerada muito “abusada”, ousada demais para “uma mulher”. Cortei um dobrado buscando encontrar em mim uma óbvia feminilidade, tanto assim que até dei um jeito de me tornar “frígida”. Agora imaginem a receita perfeita para o desastre que resultaria de tudo isso, caso naquela época houvesse essa permissividade que tanto festejamos hoje em dia.

Precisei de um bocado de paciência, persistência e capacidade de resistência até encontrar o Alan na internet, depois de vários relacionamentos fracassados e um par de casamentos. Foi quando, finalmente, consegui experimentar um orgasmo de verdade, aos 53 anos de idade. Depois disso, não somente a minha vagina se provou bastante ativa e eficiente, como os meus seios cresceram exponencialmente!

Meus amigos, espero que me desculpem a rudeza “masculina” que ficou evidente nesta crônica. Estou certa de que vocês me entenderão. Hoje em dia, afinal de contas, ninguém hesita nem um segundo antes de exibir suas particularidades sexuais para todo mundo, não é mesmo?

Lembrem-se, por favor: um duro amor é altamente preferível a amor nenhum, ou a um amor distorcido, do tipo que reage e age de acordo com a propaganda “liberal”, fracassando redondamente no seu objetivo de fazer o que é certo, afinal. Um amor duro como este que aqui descrevi pode, de fato e de direito, salvar muitas vidas.

O dia seguinte

Famous-Facebook-Status-21967-statusmind.com— O que você vai fazer amanhã? — Alan me pergunta, às quatro da manhã, na insônia da vez.

Respondo um pouco distraída, sem olhar para ele, enquanto o polegar desliza sobre a tela do celular exibindo as últimas postagens no Facebook. Vou tentar fazer um vídeo para o lançamento do livro de um de nossos autores. Vou trabalhar no projeto da casa. Vou começar efetivamente a tradução do meu romance para o inglês, meu próximo compromisso profissional. Nada. Não vou fazer nada. Vou só ficar ligada.

Estou tão ligada que, devo confessar, não teria saído crônica, não fosse o vício, e o alívio que me traz o ofício… Passei a semana toda participando ativamente do fórum aberto no Facebook, injetando energia, desabafando, para evitar sucumbir à depressão e à letargia.

Tenho vivido nos últimos dias numa espécie de estado de “suspensão animada”, ou melhor, dividida, não só entre dois países, mas entre duas linhas de vida: enquanto de “corpo presente” me ocupo dos compromissos e de algumas urgentes, inadiáveis decisões, minha mente está em boa parte investida na cena política brasileira e nos resultados da votação do impeachment.

Embora esteja a salvo de testemunhar, como me contou uma amiga, a dor das “ruas vazias porque as pessoas estão sem dinheiro até para a passagem de ônibus no fim de semana”, ou de ver ao vivo o descalabro da Esplanada dividida, sinto-me como se estivesse fisicamente no Brasil. Em quase dois anos de “autoexílio” ainda não consigo sentir de verdade que “não estou mais no Kansas”, ops, em Itaipava. Se lá estivesse, em meio a toda a “orgia golpista” estaria curtindo gostosos fins de semana e almoçando na Pizzaria Matilda, aberta recentemente por uma de minhas amigas. É. Pode ser. Por outro lado, estaria tendo bem mais dificuldade de enxergar uma saída, já que provavelmente estaria inserida na “massa desprovida de trabalho e de esperança”, não sei, nunca se sabe.

Meu corpo presente e mais a percentagem disponível da minha mente seguem desenvolvendo o quinto ou sexto projeto de arquitetura da nossa casa em Paris Mountain — aquele desenvolvido profissionalmente pelo muito bem pago arquiteto americano se revelou “inconstruível”, pois é, picaretagem não é propriedade do modus vivendi brasileiro — agora que, finalmente (conto com cuidado para não dar muito azar), encontramos um empreiteiro disposto a nos “ajudar”.

Precisamos de “ajuda”, é isso mesmo! Ajuda para construir nossa casa da forma lógica, limpa, fluida e confortável que nos agrada, o que, de certa maneira, foge totalmente (muitas vezes não consigo descobrir por que) ao padrão local, mais dado a arroubos rococós do que almeja nosso lema bauhausiano, “a forma segue a função”. Já tivemos a obra recusada por uns três ou quatro empreiteiros! Só de olhar nosso projeto! Quem diria que ainda teríamos saudade dos bigodes do nosso empreiteiro brasileiro…

Acredito que, devido à simplicidade que desejamos para o acabamento, todos concluem antecipadamente que o percentual que poderiam eventualmente apurar não satisfaria seus padrões primeiro-mundistas, sei lá. Aqui ninguém quer trabalhar por pouco dinheiro, muito menos por amor ou idealismo, amadorismo, sabem como é. A não ser que, por um descuido do destino, Bernie Sanders acabe eleito, e não, não estou torcendo por ele. Francamente, já tive a minha cota de governismo esquerdista para o que me resta de vida.

Segundo o Alan, todos têm uma hipoteca e uma família para sustentar. O que inclui, obviamente, a violência, ops, insistência da turma do telemarketing. Caramba! Não se pode pedir uma informação online neste país sem que passem a te perseguir pelo telefone! É preciso uma cautela que eu ignorava, para se proteger dos ataques dessas vítimas comissionadas. No outro dia caí na besteira, por exemplo, de informar meus dados numa rede de universidades para obter informações sobre cursos de inglês. Fui incapaz, outro exemplo, de especular para conseguir um seguro automotivo melhor, pois a cada vez que informava meu nome, endereço e telefone (sempre falsos, é claro, mas não contem para ninguém) tinha que repetir tudo em mais de cinco formulários diferentes sem nunca chegar a receber as estimativas, caso insistisse em evitar derramar meus verdadeiros dados.

Mas o pior mesmo foi quando sucumbi à tentação de me inscrever num “prêmio internacional para mulheres de negócio” ou coisa parecida, insistentemente oferecido no Linkedin, pensando em com isso abrir novos caminhos, ingênua, eu. Era cedo de manhã quando recebi o telefonema de Nova York. Uma mulher parecendo muito dedicada me informou que minha solicitação tinha sido “aceita”, mas que, para completar o processo, era necessária uma entrevista de quinze minutos.

— Vai em frente — falei.

Foi como entregar o ouro ao bandido. Vamos ver aonde isso vai chegar, pensei. E enquanto a mulher me usava para seus comissionados fins, eu cá do meu lado a usava para levantar um pouco minha combalida moral de exilada, e toca a contar a “importância” da minha atuação no mercado brasileiro de ebooks e toda essa velha toada que vocês já conhecem de cor e salteado. Ao mesmo tempo, num terceiro nível de pensamento, eu ia relembrando como o Brasil estava mal, tudo que eu pudesse ter feito de bom e real tendo mais uma vez se esvaído e perdido a relevância frente à urgência do presente momento.

Meus “quinze minutos” terminaram abruptamente quando a mulher quis me impingir uma taxa única de módicos 950 dólares em troca de um “selo de honra” vitalício, rapidamente substituída por outra de apenas 560 dólares válida por cinco anos e em seguida, num último movimento desesperado, por cento e poucos dólares para um ano de “experiência”. Quando hesitei — Vou pensar, te retorno a ligação — a mulher perdeu o controle completamente, e quase gritando, bateu o telefone na minha cara, deixando rolar por água abaixo todo o esforço dos últimos quinze minutos para me convencer do “meu próprio valor”, antes de, obviamente, me informar que eu precisaria pagar por isso:

— Mas você não leu o regulamento antes de se inscrever?

Bem que eu tinha tentado. Mas no ansioso, emaranhado formulário, muito bem urdido para obter dados pessoais das futuras vítimas desse tipo de golpe publicitário, não tinha conseguido descobrir de antemão quanto esse “prêmio” me custaria.

Nosso mundo ideal conectado em rede está se tornando uma selva virtual, meus amigos. E isso excede em muito, com armas de insuspeito poder criativo, a virulência política nos dois lados da cena corrupta brasileira. Às vésperas da votação do impeachment, sigo contando voto por voto a cada dez minutos, sem me atrever a sequer pensar na possibilidade de que não passe no congresso, tamanho o alívio que consigo vislumbrar após sua aprovação, não importa que provações ainda tenhamos que enfrentar para manter o curso nos desejados trâmites democráticos.

Hora de apelar para aquele Churchill básico, “a democracia é o pior sistema de governo que existe, com exceção de todos os demais”, pois é, agora imaginem que ainda hoje tem gente nos acusando de “golpistas”, apelando para os mais baixos argumentos e linchamentos morais na tentativa de nos convencer de suas ilibadas noções de justiça social. Ontem mesmo li um desses intelectuais iluminados declarando que “Lula é o maior líder político brasileiro vivo” e que “não existe razão para nos submetermos a um governo ilegítimo”. Ilegítimo, mas respaldado pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal, instituições garantidoras da democracia, para nem mencionar o peso da população.

De minha parte, desenvolvi uma tal ojeriza pelo “maior líder vivo” que enquanto corria ontem à tarde, quando o vi com sua língua presa vociferar no noticiário da BBC, fui obrigada a desviar os olhos, uma reação que só tive em duas ocasiões: a primeira, quando era criança, na cena dos leprosos em “Os dez mandamentos”, quando mamãe me avisou para não olhar; a segunda se repete até hoje, sempre que vejo pessoas se injetarem com heroína — livres associações permitidas.

É isso aí. Em pouco mais de vinte e quatro horas poderemos estar diante de um novo quadro no Brasil, meus amigos, e torço ardentemente por isso. Poderá restar ainda muita sujeira, muita poeira no nosso caminho. Mas pela primeira vez em nossas vidas não a estaremos varrendo para debaixo do tapete, e só isso já tornará mais respirável o nosso ar. Para nem mencionar que, progressivamente, será permitido a cada um de nós voltar a dormir uma noite inteira e retomar o rumo de nossas próprias vidas, rudemente sequestrado pela ousadia criminosa daquele que em breve verá o sol nascer quadrado, se Deus quiser, e ele há de querer. Já está querendo, precisando provar que é mesmo brasileiro.

Bom impeachment para todos nós!