Jogando com as Olimpíadas

2016_Summer_Olympics_logo.svgMeu sobrinho de 27 anos, um brilhante engenheiro que estudou na França e mora há alguns anos na Alemanha, vai voltar para casa em agosto, durante as Olimpíadas, já que se registrou como voluntário e foi aceito para trabalhar como motorista: um profissional de alto nível, com experiência internacional, estará à disposição de alguns atletas sortudos para levá-los a circular por uma das mais belas cidades do mundo.

Assim como ele, milhares de jovens brasileiros se registraram como voluntários, um sonho que começaram a alimentar quando, em 2009, o Brasil foi escolhido para abrigar os Jogos Olímpicos.

Era uma época de muito otimismo no Brasil. O PT estava no governo desde 2002, navegando numa onda (herdada) de estabilidade. Lula era assim, digamos, um tipo de ícone: um homem simples, vindo da classe trabalhadora, que, depois de uma vida de lutas, atingira o mais alto posto público no Brasil — um indiscutível herói da esquerda, reconhecido mundialmente. Obama o adorava, dizia que ele era “o cara”. Uma vitória das boas para um país de terceiro mundo que há pouco tempo estava sendo esmagado pelo peso de uma inflação descontrolada.

Parêntese: este texto foi escrito para a “galera internacional”. Se assim não fosse, estaria cheio de aspas irônicas, mas, como vocês sabem, se a gente quiser ser levada a sério no mundo precisa se comportar. Fim do parêntese.

Tínhamos levado também a Copa do Mundo de 2014, que deu até bem certo, por sinal, apesar dos muitos rumores e da crise política que na época já cobrava seu preço.

Desde então, essa crise piorou substancialmente, e atingiu seu ápice com a aprovação pelo Senado, na semana passada, do processo de impeachment contra Dilma Roussef, atualmente em seu segundo mandato depois de ter sido apontada por Lula para sucedê-lo em 2010, uma escolha desastrosa. Incapaz de governar após sua reeleição em 2014, com sérias suspeitas de contribuições ilegais para sua campanha, Dilma estava há meses praticamente ausente da cena pública, com exceção de seus discursos patéticos e sem sentido, que acabaram por transformá-la em objeto de piadas, algo que a imprensa internacional talvez ignore. Lula, por sua vez, está enfrentando sérias acusações de tráfico de influência, ocultação de patrimônio e falsidade ideológica.

É interessante lembrar que a solução para a nossa galopante inflação veio justamente depois que outro presidente foi impedido, em 1992, pela primeira vez na história brasileira. O impeachment, dizem os especialistas, é um instrumento para garantir a democracia num regime presidencialista, onde não há um primeiro-ministro para ser substituído. Sem isso, afirmam, a democracia poderia facilmente descambar para uma ditadura.

Pessoalmente, já enfrentei inúmeras crises econômicas no Brasil, e penei de verdade. Nos anos 1980, eu era uma empresária e designer bem conhecida, lutando contra uma inflação de 10 por cento. Por semana. Em 1990, logo depois da posse de Collor — o presidente que mais tarde foi impedido —, eu estava trabalhando como curadora de artes na Fundição Progresso, para quem não conhece um importante centro cultural no Rio de Janeiro que, na época, era totalmente dependente de verbas oficiais. E todos os programas culturais foram cancelados, literalmente, da noite para o dia.

Também “naveguei” na onda de estabilidade e progresso que se seguiu ao bem-sucedido “Plano Real”, quando uma moeda estável resolveu finalmente os nossos problemas. Mas apenas temporariamente, já que hoje em dia o Brasil está enfrentando uma forte recessão. Desta vez, devido à corrupção e má administração, pois é, o Brasil não facilita. Então, nesse novo momento, eu tinha decidido me dedicar a escrever e trabalhar como editora. Para quem ainda não sabe, fui a pioneira do livro digital no Brasil, a primeira editora brasileira a publicar um ebook em português na Amazon, muito antes de outras editoras ou outras livrarias online decidirem se arriscar no novo mercado, muito antes de a Amazon decidir abrir sua própria loja no país. Com uma ajudinha da minha parte, gosto de acreditar.

Foi nesse ponto que essa nova crise me apanhou. Eu tinha uma empresa que ia de vento em popa, totalmente operada através da internet; um catálogo com mais de 200 títulos publicados; e a linda casa que Alan e eu projetamos e construímos num paraíso no meio da Mata Atlântica, em Petrópolis. Estava muito preocupada. Nem a Copa do Mundo conseguiu me animar em nada. Tudo que eu queria era vender a nossa casa com algum lucro e me mudar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Não conseguia me imaginar tendo que começar tudo de novo mais uma vez, mais uma vez por conta da incompetência e desonestidade do governo.

Agora que a presidente Dilma já foi impedida, a mídia internacional decidiu comprar a versão dela para os últimos acontecimentos, dando força ao argumento de que foi vítima de um “golpe”. Pois é. Pode até não haver uma acusação direta de corrupção contra ela, ou uma prova indiscutível de que cometeu algum crime. Mas, curiosamente, ao longo dos últimos anos Dona Dilma esteve em posições de poder que coincidiram em tempo e lugar com crimes sendo cometidos, como, por exemplo, em 2007, quando o escândalo de Pasadena transformou a escala de corrupção dentro da Petrobras. Dona Dilma, embora insistindo na teoria de que nada há para manchar sua “impoluta reputação”, era na época a chefe do Conselho da Petrobras, e como tal deveria aprovar qualquer investimento de monta da companhia estatal.

Enfim, não tenho a intenção nesta crônica de fazer uma lista das inúmeras razões pelas quais o Brasil estava certo ao impedi-la, ou enfatizar que todo o processo ocorreu 100% de acordo com as regras e respeitando não só a democracia, como as nossas instituições e a separação de poderes. Para nem mencionar que refletiu a vontade da grande maioria do povo brasileiro, aí incluídos muitos daqueles que votaram nela em 2014.

Devo confessar que não foi surpresa nenhuma para mim ler esta semana no New York Times uma discussão sugerindo que o Brasil deveria no mínimo adiar, provavelmente cancelar os iminentes Jogos Olímpicos. Por razões que não consigo entender, uma campanha contra nossos interesses foi lançada há alguns meses pelo próprio governo, durante a crise de Zika. Uma crise que, por falar nisso, foi em boa parte provocada pela incompetência desse mesmo governo no sentido de eliminar os focos do mosquito com medidas simples, mas efetivas, coisa que já fazemos há anos, desde que surgiram as sazonais epidemias de dengue, que, como todos sabemos, é transmitida pelo mesmo Aedes. A reação foi ruidosa e imediata. Todo  mundo começou a cogitar cancelar os Jogos, sem prestar atenção ao fato de que, no inverno do Rio, os mosquitos diminuem consideravelmente. Dificultando, portanto, a contaminação pelo vírus.

Na série de artigos do NYT o Brasil foi acusado, entre outras coisas, de ser bom em “ocultar os danos e mostrar sua face artificial”, o que, vamos combinar, é no mínimo injusto. Embora a nossa proposta para as Olimpíadas tenha sido ambiciosa, as obras estão sendo executadas, mesmo com toda a dificuldade e agitação política. A crise ainda persiste, mas estamos otimistas. Já estamos do “outro lado” de um dos maiores desafios que o país enfrentou durante a minha vida, e há uma firme disposição de fazer o melhor e dar tudo de nós. Restam ainda incontáveis problemas a serem resolvidos, mas pelo menos não temos mais a sensação de ter uma “gangue” no poder fazendo o que pode para manter seus privilégios, custe o que custar, com o dedicado apoio de um forte esquema de corrupção. Que, por sinal, está sendo desbaratado pela Polícia Federal (não se preocupem: na versão em inglês não chamei o PT de “gangue”, mas sim de “pity party”, um “partido que dá pena”).

Hoje, o Brasil e os brasileiros deveriam, isso sim, ter a seu dispor um amplo e generoso apoio internacional no sentido de fazer tudo o que estiver ao alcance de todos para fazer dessa Olimpíada um sucesso total. Muitos de nossos jovens, como o meu sobrinho, estão a postos. O Rio de Janeiro, que apesar dos pesares continua lindo, está se aprontando para o evento, que, no momento, é nossa melhor e mais imediata aposta para elevar um pouco a nossa moral, tão combalida nos últimos tempos, coitada. E uma campanha da mídia no sentido de prejudicar um projeto tão importante nos faria muito mal.

O fato é que nós, brasileiros, estamos orgulhosos demais da conta da maneira civilizada com que recuperamos o controle do nosso país, deixando intacta sua estrutura democrática. Esperamos que em agosto vocês venham compartilhar com a gente essa satisfação.

Narrativas

lies2Há alguns anos, uma de minhas melhores amigas, que além de escritora era também publicitária, foi contratada para a campanha de um candidato do PT à prefeitura de uma pequena cidade no interior de Minas Gerais.

Depois de um mês de “imersão” no QG da campanha, minha amiga voltou impressionada com o nível de corrupção que tinha testemunhado, e me falou que pretendia escrever um livro a respeito.

Dei o maior apoio. O PT naquela época ainda estava no auge da popularidade, embora já houvessem consistentes rumores de propina e má administração. E embora a gente esperasse que o partido se desse mal nas eleições municipais, não foi o que na verdade ocorreu.

Minha amiga deu um tempo. Depois decidiu adiar seu projeto, que, no final das contas, nunca foi concretizado. Ela acabou mudando de ideia, e aproveitando, mudou de ramo também, e hoje se dedica à construção imobiliária.

Fico pensando em quanta gente boa por aí tomou essa mesma decisão de não falar o que sabia e o que estava vendo, e não culpo esse pessoal de jeito nenhum. Para a nossa geração, denunciar qualquer coisa que tenha a ver com o governo constituiu por um bom tempo algo bastante perigoso, já que crescemos durante a ditadura, os infames “Anos de Chumbo” (chumbo aqui significando bala, mesmo). Embora, é claro, hoje em dia exista no Brasil uma democracia madura e total liberdade de imprensa; é nisso pelo menos que a gente prefere acreditar. Por outro lado, qualquer pessoa medianamente bem-informada sabe que “para que o mal triunfe basta que gente de bem decida não fazer nada”, desculpem aí.

Enfim, o que se pode fazer. As pessoas são livres para escolher.

Hoje, quarta-feira, enquanto estou escrevendo, o Senado se prepara para votar o que será provavelmente o “último suspiro” de Dilma Roussef. Depois de idas e vindas e um bocado de drama, mais parecendo uma novela disfarçada de reality show, a presidente vai ser destituída por 180 dias, provavelmente para sempre. Vamos nos livrar de suas supostas boas intenções e péssimos resultados, que quase acabaram por destruir o país. Isso, para nem mencionar a imposição constante de visões de esquerda, defendendo a ideia de que os partidários do PT são os donos da verdade e da “bondade humana”. Imaginem.

Donos da incompetência e da desonestidade, isso sim. E isso deverá ser provado no final. Na verdade, demos a maior sorte por ainda nos restar um país que poderá se recuperar, com o tempo e um governo em que se possa confiar.

Na contramão da lógica mais comum, já que nosso país não passa de uma “república  de terceiro-mundo sem relevância”, vou me arriscar a afirmar que o Brasil de hoje deveria ser considerado uma espécie de “mapa do tesouro” para resolver o “problema da esquerda”. Tudo bem, eu entendo muito bem que vocês talvez nem saibam qual é esse “problema da esquerda”, ou qualquer coisa nessa linha. Mas basta parar para pensar e analisar com calma o que está acontecendo neste momento na temporada eleitoral nos Estados Unidos, ou nos derradeiros meses do governo Obama, para entender do que se trata.

Esta semana, um artigo chocante publicado no New York Times expôs sem meias palavras para o público em geral a noção de que o povo americano foi e tem sido manipulado para acreditar em fatos que, na verdade, não passam de mentira pura. Vamos combinar que, de um jeito ou de outro, dava para imaginar qualquer coisa rolando nesse sentido, mas a esse ponto? Se a realidade não estivesse tão flagrante, eu me recusaria a acreditar que tal coisa pudesse acontecer nos Estados Unidos, imaginem; mas lá estava, tudo muito claro, explicado nos mínimos detalhes, incluindo a “narrativa” que deveria infalivelmente nos convencer da justa necessidade do Acordo Nuclear com o Irã (não sei se vocês sabem, mas a grande maioria do povo americano era contra esse acordo). No artigo, os jornalistas são tratados com desprezo, como se fossem crianças de escola, meio imbecis. E que dizer do povo em geral? Daqueles que (bem ingenuamente, acredito), confiam nas instituições, nas incensadas ideias dos “fundadores” da América?

Como estrangeira (e iludida), confesso que fiquei espantada. E ainda tem mais.

O Facebook acaba de ser acusado de “manipular” as notícias (aqui nos EUA o Facebook é considerado uma espécie de portal, linkando os sites de noticiário), favorecendo os esquerdistas, ops, liberais, em detrimento dos conservadores. Isso, dizem, para agradar o “chefe”, o que incluiria o fato de ele ser contra Donald Trump.

Tudo bem. Todo mundo tem direito à sua opinião. Mas não à “manipulação da opinião”, não é? O que deveria, a meu ver, abranger tanto a equipe do Facebook como seus usuários, ou estou ficando maluca?

Liberdade de imprensa e amor à verdade não são os únicos valores americanos sendo desafiados ultimamente. Longe de mim pretender parecer “careta” ou preconceituosa, mas o que começou como uma “colorida” campanha de direitos para os gays está agora se degenerando num estado geral de abuso e perversão de fazer corar a Sodoma de Pasolini. Peço desculpas por minha linguagem radical, mas me enchi de vez! O pior é que tudo isso nada mais é do que um mero sinal dos atuais rumos da nossa sociedade. Infelizmente.

Crianças e adolescentes têm sido como nunca antes encorajados a duvidar de seu próprio “gênero”. A moral e a família tradicional têm sido desprezadas, rotuladas como retrógradas, num mundo onde certo e errado nada mais têm de “absolutos”. Muito pelo contrário: tudo hoje em dia é passível de discussão. A “educação” está sendo transformada num campo de batalha, onde ideólogos dedicados jogam pesado, para ganhar. E o prêmio que eles mais ambicionam é a “verdade do futuro”, cada vez menos discutida porque a pluralidade de pensamento tem sido cuidadosamente afastada das universidades, por exemplo, que boicotam as vozes conservadoras. Isso vem acontecendo nos Estados Unidos, mas, pelo que sei, o Brasil não fica muito atrás.

Pessoalmente, detesto teorias de conspiração, mas está ficando cada vez mais claro que estão tentando nos impor uma “agenda esquerdista”, diminuindo cada vez mais o espaço de contestação. Agora mesmo no Brasil, por exemplo, pessoas que tinham se afastado da esquerda porque, afinal de contas, não estava dando para defender a corrupção no PT, já estão voltando a cerrar fileira. Pensamento e verdades estão sendo “processados” em vários cenários, não só na política. Esta semana, por exemplo, li num artigo que Freud teria dito que “é impossível ignorar a que ponto a civilização é construída com base numa renúncia ao instinto”. Para meu profundo desânimo, o autor — de quem gosto bastante, por sinal —, pretendendo atacar uma fala de Trump em defesa do uso de sua intuição, se “esqueceu” de informar ao público leitor de que Freud na verdade não estava falando de política, mas de sexo, dos impulsos sexuais. Para ser exata, da pulsão de morte [Todestrib] como contraposição ao instinto de sobrevivência [Lebenstrieb], descrito como Eros.

Freud nunca disse nada no sentindo de negar a “intuição” que utilizamos na tomada de decisões. Pô, peraí. E, mesmo que tivesse dito, teria sido desmentido, já que a ciência hoje em dia reconhece sem sombra de dúvida a importância da intuição nesse processo.

E por aí vai.

Todo mundo sabe que na antiguidade a História era frequentemente reescrita pelos que se saíam vitoriosos em guerras de vida e morte. Mas nada se compara à atual prática de manipular o próprio pensamento, um estado de coisas no qual, para além de uma muito festejada “democracia da informação”, certas ideias são qualificadas como mais “morais” que outras, e, portanto, as pessoas que as defendem são “melhores” que as outras. Contra quem estamos combatendo, afinal? Indo mais fundo, será que estaríamos melhor arranjados se um desses “lados” terminasse eliminado?

Duvido.

Recentemente, o incêndio que queimou (e continua queimando) um estado inteiro no Canadá tem sido atribuído ao “aquecimento global”, culpando ferozmente a indústria “suja” de extração de petróleo no local. Li no mural de uma amiga canadense que gente que perdeu tudo, e foi forçada a deixar suas casas, está sendo acusada de “atrair a própria desgraça”. Peraí. Trata-se exatamente daquela mesma mania horrorosa, muito popular na Nova Era, de se “culpar o paciente de câncer por sua própria doença”, uma ideia no mínimo muito injusta.

Esses “escrevinhadores de narrativas” são tão descuidados que desprezam a História, e manipulam bancos de dados sem o menor constrangimento. E já que estamos falando de desastres da natureza, o que dizer, por exemplo, da tempestade de poeira ocorrida em maio de 1934 nos Estados Unidos, há exatos 82 anos? De acordo com os registros, “numa maciça tempestade, toneladas de partículas de solo voaram através das “Great Plains” nos Estados Unidos atingindo até Nova York, Boston e Atlanta”. Será que a terrível seca que provocou o fenômeno também se deveu à atividade humana?

Ok. Como escritora, tenho direito a “criar uma narrativa” e jogar à vontade com seus elementos. Trata-se, basicamente, da essência do meu trabalho. Quando junto num mesmo texto fatos diversos, ocorridos em épocas diferentes, estou procurando, definitivamente, manipular as crenças das pessoas, ou criar uma história que torne a realidade mais fácil de entender. Mas faço questão de sempre esclarecer meus métodos, sempre enfatizando a inevitável presença de um exagero que é crucial para o sucesso desse gênero literário intitulado “crônica”. Também costumo insistir no fato de que tudo que escrevo não passa da minha própria opinião, meu jeito de ver e entender as coisas, que, aliás, não imponho a ninguém, a não ser a mim mesma.

Já essas pessoas que descrevi mais acima, encarregadas de nossas “narrativas cotidianas”, podem não ser assim tão inocentes, nem tão bem-intencionadas. Cuidado. Elas querem você.

Donos da bondade

petistasNada que eu já não soubesse, considerando que essa conjuntura de fatos alterou minha vida tão pessoal e profundamente, mas não tinha me dado  conta disso realmente até que li sobre o assunto na coluna de Thomas Friedman no NY Times: “Em 2007, a Apple lançou seu iPhone, dando início à revolução dos aplicativos e smartphones; no final de 2006 o Facebook abriu suas portas para todo mundo, não apenas estudantes, e disparou feito um foguete; o Google lançou o Android, seu sistema operacional, em 2007; (…) e a Amazon lançou o Kindle em 2007”. Como já contei centenas de vezes, a abertura da KBR em 2008 se deveu tanto ao aparecimento do Kindle que a empresa foi inicialmente chamada de KindleBookBr, até que a Amazon nos pediu para mudar. Não custa lembrar que o “K” da KBR continua sendo uma homenagem ao querido Kindle. Já o “BR” nem preciso explicar.

Não é difícil imaginar como essa onda tecnológica deve ter afetado as demais pessoas, principalmente nos Estados Unidos, onde tais “novidades” foram criadas, encorajadas e adotadas num piscar de olhos. Ainda me lembro da discussão por ocasião da primeira eleição de Obama, em 2008, sobre se ele “poderia” ou não continuar usando seu Blackberry como presidente. Dá para imaginar uma discussão desse tipo hoje em dia?

Blackberries já sumiram faz tempo, mas em países de terceiro-mundo a tecnologia ainda é considerada uma inimiga. Como no Brasil (ops, desculpem), onde esta semana um juiz bloqueou o WhatsApp por 72 horas porque a empresa se recusou a fornecer informações às quais nem tinha acesso. Não me espantou nem um pouco descobrir que o tal juiz, vindo de uma cidadezinha nordestina — olha aí a dica para me acusarem de preconceito e discriminação —, não é usuário do WhatsApp e ainda por cima é avesso à tecnologia, pô, peraí, este é na verdade o juiz que liberou o WhatsApp depois de 24 horas de bloqueio… enfim. Fazer o quê.

Não resta dúvida de que, no que diz respeito à comunicação, a revolução tecnológica mudou nossas vidas profundamente. Nos famosos e “revolucionários” anos 1960, se quiséssemos gritar alguns slogans contra o estado de coisas era preciso comparecer ao vivo a qualquer manifestação. Que chatice! Como naquela época não existia nada parecido com “presença virtual”, vou arriscar um palpite sobre o que na verdade caracteriza a “originalidade” da atual campanha eleitoral americana: a furiosa atividade nas redes sociais. Incluindo os controversos “tuítes do Trump”.

Tal fenômeno, obviamente, não se limita aos EUA. No Brasil, por exemplo, as redes sociais estão tendo um papel excepcional na crise política da hora, apesar de o pivô do impeachment ter sido, na verdade, um telefonema grampeado, como nos velhos tempos. Ainda assim, me espanta um bocado perceber como as redes sociais nos permitiram uma visão inusitada, não somente da opinião, mas do fundo da alma, da consciência de cada um. Et voilà, finalmente podemos entender (eu, pelo menos, pude) o desonesto jogo ideológico que nos manipulava há tempos sem que a gente percebesse, e ainda nos manipula.

Hoje, no Brasil, não resta dúvida de que a chamada “esquerda” se metamorfoseou num esquema corrupto que na verdade rouba do povo, com óbvias e prejudiciais consequências para os pobres e necessitados, apesar de a doutrinação do PT querer provar o contrário. Para aliviar o peso de tais graves acusações, só mesmo lançando mão do altamente eficaz humor brasileiro, que é forte o suficiente para desafiar nossa situação deprimente: “Este governo tirou bilhões da pobreza. E os depositou em contas secretas no exterior”. Agora imaginem o meu aperto para traduzir essa piada para o inglês, ai, ai, ai. Trata-se do típico conflito cultural em ação.

Apesar de tudo isso, a esquerda não deve desistir tão fácil. Seus adeptos estão tão convictos de serem os donos da verdade que, a partir de certo ponto, começaram a se descrever como os “donos da bondade”. Ou pelo menos foi o que me disse um amigo, entusiástico partidário de Bernie Sanders, que, em resposta à minha recente (e também deprimente) “saída do armário conservador” definiu a “esquerda” (ou melhor, “os liberais”, como se descrevem nos Estados Unidos) como uma “teoria política baseada na natural bondade humana e na autonomia do indivíduo, favorecendo as liberdades políticas e civis” (grifo meu).

Fico imaginando de onde ele tirou isso, porque, francamente, me recusei a pesquisar no Google. Não aguento mais me confrontar com esse tipo de teorização sem sentido. Vamos combinar: Rousseau (O Contrato Social, 1762) já tinha entendido que não existe essa tal “bondade humana”, descrita pelo autor como um atributo natural “corrompido pela influência perniciosa da sociedade e das instituições humanas”. O que, supostamente, deveria incluir nossas (fracassadas) ideologias.

Um fato curioso é que, enquanto eu escrevia esta crônica em inglês (como é meu novo costume), procurando uma expressão local que caísse tão bem para os meus propósitos como “donos da bondade” (dá pra ver que continuo pensando em português) me deparei com um comercial de comida canina com o slogan “alimentando a bondade”, mostrando que a gente pode, se quiser, dar preferência ao nosso lado bom em determinadas ocasiões. Entre as quais se incluiria, por exemplo, um cachorro sem dono quase sendo atropelado na rua, mas dificilmente um debate político radical. Por sinal, isso não dá aos esquerdistas (ops, “liberais”) — e muito menos aos “direitistas” — o direito de se arvorarem em exclusivos praticantes do bem, mesmo que assim se acreditem. O que, na minha opinião, deveria ser definido como “ilusão”.

De qualquer maneira, agora que Donald Trump se tornou oficialmente o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, vou arriscar um passo à frente e provocar mais uma vez o ódio alheio — em vez de preconceituosa, preconceituosa e meia — declarando o que acredito que está por trás desse tal “movimento”, descrito pelos mais importantes jornais americanos como constituído por uma maioria de homens brancos, trabalhadores braçais sem educação superior e misóginos, isto é, homens que odeiam as mulheres. Trata-se, na minha opinião, de uma “revolução popular”, uma reação à qualidade humana que nos faz avacalhar tudo aquilo que tocamos — me desculpem o pessimismo — nos impulsionando a exagerar na direção do progresso de forma a eliminar os avanços obtidos, sem exceção.

O pêndulo da civilização oscilou, atingiu seu máximo. Estamos todos exaustos desse extremismo em nossos pensamentos (e ações!), um estilo de vida radical que se imiscuiu em nosso dia a dia, quase insuportável hoje em dia. Esse pessoal não dá a mínima para o bem-estar da humanidade em geral, vamos combinar. Só se concentram em seu próprio umbigo, sem se importar com as consequências. E um belo dia isso vai ter que parar, tenho quase certeza de que vocês sabem do que estou falando.

Espero, sinceramente, que esse momento esteja se aproximando, e que possamos finalmente nos despedir para sempre desses donos da verdade, donos da bondade. No Brasil, pelo menos, sei que estamos quase lá. Já vão tarde.

publicado também aqui

Eu apoio Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos

Custei para encontrar uma "imagem positiva" do candidato.
Custei para encontrar uma “imagem positiva” do candidato.

Não adianta tentar simplificar as pessoas. É preciso seguir pistas, não exatamente o que dizem, nem inteiramente o que fazem.
Virgina Woolf

 

Finalmente chegou o dia , e não vejo um jeito mais fácil de fazer esta afirmação: decidi apoiar Donald Trump como candidato à presidência dos Estados Unidos. Sei que para os brasileiros neste momento isso parece irrelevante, mas para o mundo é muito importante, e o mundo não vai acabar com o impeachment de Dilma. Além do mais, estou vivendo aqui, e tenho uma visão mais íntima desses acontecimentos que pode ajudar em certos julgamentos, embora seja apenas, obviamente, a minha modesta opinião.

Sei muito bem que, com esse apoio, arrisco perder mais uma meia dúzia de amigos no Facebook, e talvez alguns clientes. Paciência. Eu aguento.

E não pretendo declarar esse apoio como tem sido feito ultimamente por tanta gente, mostrando apenas o avesso, isto é, as qualidades negativas dos demais candidatos. A verdade é que tenho pleno direito a dizer o que penso, algo que aprendi do jeito mais difícil nestas últimas semanas do caos político brasileiro.

Se as pessoas podem dizer de cara limpa que “seguiram seu coração” quando votaram em Bernie Sanders nas primárias, por que eu não poderia fazer o mesmo, isto é, “seguir o meu coração”? Quem deu a elas esse poder de serem donas da verdade? Donas, pelo menos, da única opinião que conta?

Vamos combinar: em política não existe “verdade absoluta”. É tudo farsa. E o nosso papel nesse jogo de empurra é tentar enxergar o que há por trás da cortina de fumaça que ambos os lados se esmeram em soprar para o nosso lado no dia a dia.

Enquanto escrevo, na quarta-feira, depois das vitórias de Trump nas primárias de terça, pode parecer para alguns que estou apenas optando pelo favorito republicano, considerando que decidi me tornar “republicana” já faz algum tempo, quando comecei a me decepcionar com Obama, depois de torcer por ele tão ardentemente. Ou depois de ter me rendido à constante pressão do Alan, só com a ressalva de que o que ocorreu é que ele realmente me convenceu, com argumentos razoáveis, que faziam bastante sentido.

Não adianta continuar insistindo em ideias fracassadas do tipo “ninguém pode ser eleito presidente dos Estados Unidos sem antes ganhar as primárias de Ohio”. Eu poderia refutar dizendo que “ninguém pode ser eleito presidente dos Estados Unidos apenas ganhando as primárias de Ohio”, como John Kasich, certo? Também não vejo sentido em lembrar a fracassada tentativa de Ted Cruz de resolver esse “enigma” se juntando com Kasich numa dupla de perdedores, podendo assim “fingir” que ele, Cruz (ou pelo menos a nova dupla), venceu as primárias de Ohio e, portanto, merece a presidência de um jeito meio torto. Ou ainda, depois que esse “acordo” acabou furando rapidamente, fazendo de conta que já foi nomeado candidato republicano através da escolha de uma “vice-presidente”, a Carly dois-por-cento, ou “Fiorina cantora”.

Ted Cruz. Que figura assustadora. Mesmo assim, fui comparada a ele numa resposta bastante injusta a um comentário meu num artigo do New York Times. Bem a tempo, a tempo demais para ser considerado algo mais do que uma feliz coincidência — não acredito em coincidências, pero que las hay, las hay — encontrei um artigo na coluna “Modern Love” do Times que enfocava mais ou menos o mesmo assunto da minha crônica da semana, “Amor, duro amor”: a mania, ops, o “movimento” transgênero. Não hesitei um segundo antes de tentar entrar no New York Times pela porta dos fundos, isto é, colocando um link para a minha crônica num comentário ao artigo. Ufa.

Deu certo. Um bando de gente além do par de leitores que  me leem habitualmente foi redirecionada para a minha crônica publicada no Times of Israel. Felizmente, boa parte dos leitores do NYT que comentaram sobre o artigo comungavam comigo em suas opiniões, refletindo uma clara rejeição dessa imposição de valores por parte de uma óbvia minoria, que não sei por que motivo acabou ganhando “foro privilegiado” no “ideário esquerdista”, ou coisa que o valha.

Não somente fui comparada a Ted Cruz, como também “xingada” de “cisgênero” — para quem ainda não foi apresentado ao termo, “gente que opta pelo gênero ou sexo com que foi contemplado ao nascer”, algo altamente ofensivo, ao que parece. Por que eu — ou qualquer pessoa, aliás — deveria se conformar com um destino tão limitador? Por que alguém deveria ser forçado a aceitar que é mulher simplesmente por ter nascido assim? Quando foi que concedemos à natureza esse tremendo poder de decidir, francamente antidemocrático?

Apesar do fato (positivo) de ter precisado aceitar que o papel de “comentadora” é duro de encarar nesta nossa época de extremismos — é preciso desenvolver, literalmente, uma “casca grossa” — fiquei contente ao perceber que nem todo mundo está enlouquecido, ou enlouquecendo. Um número significativo de mulheres tentou explicar, por exemplo, que seus seios (exatamente como os meus!) são um órgão vivo, nutridor, entremeado de vasos sanguíneos e terminais nervosos, muito mais do que um “saco cheio de gel”. Um homem gay compareceu com uma ideia original, afirmando que o “movimento transgênero” é na verdade um retrocesso, indo na contramão de conquistas anteriores que nos conduziram à liberdade sexual e seus resultados alentadores. “O sexo biológico é imutável”, ele disse. “O ‘transgenerismo’ se baseia em ideias retrógradas sobre o que significa ser um homem ou uma mulher”.

Vocês poderiam me perguntar, que diabo isso tudo tem a ver com a candidatura de Donald Trump? Vou explicar. Acredito que o já mencionado “ideário esquerdista” perdeu o rumo. O que começou como uma defesa de direitos humanos fundamentais, alegremente defendidos pela nossa geração na nossa juventude, acabou se degenerando numa espécie de “ditadura das minorias”. E não estou tentando minimizar direitos humanos verdadeiros, cruciais, como a liberdade de expressão, ou mais urgente ainda, o direito à moradia, alimento suficiente e educação como base para uma mínima qualidade de vida. Nem pretendo descrever verdadeiras “minorias”, como os mais pobres, ou pessoas de outras cores (descontando a cor branca), ou, imaginem, “mulheres” — esclarecendo a ironia: de acordo com a natureza, as mulheres devem somar mais ou menos 50% da raça humana — mas, ao contrário, verdadeiras “raridades”. Por que deveríamos aceitar ser limitados, tolhidos, ou mesmo sofrer abuso por parte de tais seres raríssimos, só para satisfazer suas exigências radicais?

Não me levem a mal. Como uma recém-convertida “conservadora”, sou completamente a favor da liberdade para todos. Contanto que não afete a minha própria.

Nada disso significa que, uma vez eleito, Donald Trump vá conseguir, ou ao menos se empenhar em frear essa maluquice. Mas tenho certeza de que Hillary Clinton vai se esforçar para manter a atual tendência, como tem demonstrado em seus discursos. E mesmo que ela não se esforce, o simples fato de se eleger um democrata — ou, como eles gostam de ser chamados, um “liberal” — será um claro sinal de que nós, a maioria, apoiamos esse estado de coisas, essa avassaladora falta de sentido que está prevalecendo hoje em dia.

Enquanto escrevo esta crônica, escuto meio distraída ao discurso de Donald Trump sobre política externa. Nada de novo nessa frente, desculpem aí o possível trocadilho. O que quer que ele diga ou faça neste momento tem apenas um objetivo: eleger-se presidente, angariar votos, ponto final. Mudanças nacionais radicais ou fortes alterações na atuação internacional do país, embora dependam do presidente como já vimos, devem antes de qualquer coisa passar pela Câmara e pelo Senado, certo?

Uma mudança urgente se faz necessária, isso é bem verdade. O que não quer dizer que, mesmo tentando com vontade, a gente consiga atravessar a tal cortina de fumaça que esconde o futuro, descobrindo assim o caminho certo a seguir. Só podemos confiar no nosso senso interno de direção, no sentido moral, um sentido que pode estar profundamente afetado pela intensidade das opiniões que nos atacam vindo de todos os lados da rede social, ecoando todo tipo de intolerância, de preconceito disfarçado, de afirmações impositivas, embora injustamente elaboradas e raramente merecidas. Neste nosso mundo atual, tem razão quem fala mais alto, ou no mínimo tem mais “curtições”.

Vou me limitar a apoiar Donald Trump (claro que estou sendo irônica) por apenas duas razões: a primeira é que, como eu, ele tem a mania de pôr apelido em todo mundo; e a segunda é que ele sempre começa uma revelação dizendo que “não revelo nem sob tortura que…” completando a frase com a revelação em questão, coisa que eu faço com frequência (adaptei obviamente ao linguajar popular brasileiro, ele nunca mencionou a palavra “tortura”, tá bom?). Se eu estiver horrivelmente enganada, vamos saber logo, logo. Ou nunca, caso Hillary seja eleita.

A verdade é que não existe “se”. Estou apenas seguindo os meus instintos e pronto. Não faz sentido para mim ignorá-los neste momento.

Para nem mencionar, obviamente, que a maioria das questões levantadas nestas eleições americanas foram introduzidas por Trump, caso vocês já tenham esquecido, ou nem sequer tenham prestado atenção. Todos os outros candidatos se limitaram a reagir a elas, alguns repetindo que nem papagaios, outros combatendo do jeito que podiam, com raras exceções. Quer dizer: de um jeito ou de outro, Trump já é o “cérebro” por trás do futuro governo, a mente que está dando as cartas. Apesar de Alan tê-lo criticado dizendo que o candidato mal sabe ler um discurso.

E agora que o “grande discurso” terminou, vou ter que dizer que não existe comparação entre o carisma de Trump e o carisma de Obama. O tempo dirá se “carisma” é na verdade aquilo que resulta num mundo melhor. Começamos tão bem com a nossa luta pela justiça e igualdade social, alguns anos atrás. Quando foi então que a gente se perdeu?

Talvez resulte em algo bom se a gente decidir seguir um caminho que não seja tão claro assim, já que tal clareza provou ser falsa, ou pelo menos ineficaz.

Eu certamente me sentiria bem melhor, ficaria bem mais feliz se conseguisse efetivar esse “apoio” de um jeito mais animado, mais convincente, como costuma fazer o “outro lado”. Mas não consigo. O mundo não deixa, já que continuo com tantas dúvidas sobre tantas coisas. Mas não no que diz respeito à presente decisão, que já está tomada. Caso encerrado. Fui.

Amor, duro amor

Eddie Redmayne em "A garota dinamarquesa".
Eddie Redmayne em “A garota dinamarquesa”.

Há exatos quatro anos, no dia 18 de abril, mamãe faleceu depois de uma longa luta contra o alzheimer (sem maiúsculas, por favor).

Ainda estou sofrendo. Ainda recordo, como se fosse hoje, seus ásperos comentários, um provável reflexo de seus medos mais profundos de que eu e meu irmão a detestássemos. Um medo sem sentido: apesar de nossa relação nem sempre ter sido fácil, tanto eu como ele tomamos conta dela com muito carinho até o fim. O que nem sempre acontece, como todo mundo sabe. Uma pessoa que conheço viajou de férias para Nova York poucas horas depois de sua mãe ter tido um grave derrame e ser internada no hospital. Outros creem não ter nenhuma obrigação de cuidar de seus “velhos”, ao ponto de também aconselharem seus conhecidos neste sentido, como li num blog recentemente.

Minha mãe não dava moleza. Mesmo assim, não tenho nenhuma dúvida de seu amor. Mesmo ela amando mais o meu irmão, como sempre acontece nas famílias judias. Brincadeira.

O cérebro tem essa sabida habilidade de nos pregar peças, e graças a isso, no caso de alguma doença ou sob a influência de algum tipo de droga, podemos vir a maltratar as pessoas que mais amamos, e que nos correspondem na mesma medida. Não pretendemos machucá-las, mas machucamos mesmo assim.

E esta semana isso aconteceu comigo, é, mais uma vez. Na verdade, continua acontecendo. Meu marido, acostumado a tomar todo dia uma pílula para dormir, foi submetido sem querer, por conta de um implante dentário, a uma nociva mistura de remédios — “iatrogenia”, me ensinou uma amiga médica. Ele estava muito ansioso, com certo receio da cirurgia, o que dá pra entender. Não apenas sua aparência, mas também sua dentada estava ameaçada, não por causa da idade nem nada disso, mas por conta de uma raiz fraturada e a consequente perda de uma coroa “vencida”, passando da hora de ser substituída. O dente mesmo ele já tinha perdido numa queda de bicicleta quando era criança, mas na nossa idade, sabem como é, esse tipo de coisa perturba de verdade, provocando um alerta, um anúncio assustador de que o “fim está próximo”, podendo ocorrer a qualquer momento. Daí, quando um sedativo poderoso e um analgésico perigoso, ambos receitados pelo dentista, foram adicionados à sua “habitual receita de drogas”, o resultado foi um desastre. Alan entrou numa espécie de surto e ficou três noites sem dormir, falando sozinho, quase delirante, com breves intervalos de consciência. Já testemunhei um punhado de cérebros danificados nesta vida e lidei com eles. Mas fraquejei de verdade quando, antes de entender o que estava acontecendo, comecei a suspeitar de que Alan estivesse com alzheimer como a minha mãe.

Quando descobri a mistura acidental de remédios, tive um sutil momento de alívio. Então, agora, estou na esperança de que ele se recupere depressa, uma esperança que se fortaleceu ontem à tarde, quando ele teve uns lampejos de consciência e conseguiu conversar com o filho. Mas aí, infelizmente, ele abusou dos comprimidos novamente, et voilà, mergulhou na psicose de novo. E é claro que o alvo de sua raiva foi aquela pessoa que ele mais ama (é o que eu espero) e que mais corresponde ao seu amor.

Tenho lidado com coisas demais ultimamente. Além das minhas preocupações de sempre, ainda estou muito abalada pela crise no Brasil, cuja causadora mor, sob o efeito suspeito de drogas poderosas, anda posando de vítima e agindo erraticamente. O velho cérebro aprontando novamente! Não causa nenhuma surpresa o fato de a presidente Dilma reagir desse jeito, totalmente alheia às suas obrigações como “mãe da nação” e demonstrando um total desprezo pelo povo “sob sua proteção”. Quem sabe também seja o caso de sua raiva ser dirigida às pessoas que… etc. etc.

Tenho plena consciência de que, de uma certa maneira, nossa própria dor interior pode fazer com que abracemos com fervor determinadas causas. O que explicaria, por exemplo, o fato de eu estar dedicando tanta energia à política brasileira — e à americana também, por falar nisso —, talvez devido aos meus próprios traumas e medos. Mas será que isso seria possível no caso de mais de cinquenta milhões de brasileiros (56% da população adulta mais ou menos) ao mesmo tempo? Pouca chance!

De volta ao “amor maternal”. Faz bem pouco tempo, como vocês sabem, que comecei a me considerar mãe de alguém, colocando para funcionar os meus instintos maternos. Então enfrentei uma séria dúvida quando meu filho foi aceito como advogado no Marine Corps americano. Deveria cumprimentá-lo por seu sucesso? Seus amigos estavam empolgados, sua noiva toda orgulhosa, mas, honestamente, como mãe dele, embora com algum esforço eu até pudesse também me sentir orgulhosa, a verdade é que eu estava com medo, preocupada com a sua segurança, fazer o quê. Será que eu deveria mentir para ele? Decidi que não era o caso. Falaria simplesmente a verdade, como sempre faço, a minha verdade, pelo menos.

Amor, duro amor. Em inglês existe uma expressão para isso, para este amor que age com dureza no sentido de evitar algum sério problema ou sofrimento para o ser amado: “tough love”, o tipo de amor que fala a verdade, uma verdade que pode doer, e geralmente dói mesmo. Um amor desse tipo é o que anda faltando na nossa civilização conectada, onde todo mundo anda em busca de aprovação e é consenso geral que devemos concedê-la.

Acredito que isso também faça parte da imposição de um “modelo liberal”, como, por exemplo, no caso dos banheiros para os transgêneros. Ando tão incomodada com esse assunto que até já lhe dediquei uma crônica há algumas semanas. Honestamente, quantas pessoas com problemas de gênero podem existir neste mundo? Nos Estados Unidos, onde o movimento adquiriu uma força inaudita? No seu bairro, na sua cidade? A condição existe. Mas é extremamente rara, a ciência já reafirmou isso.

Fiquei muito impressionada com um filme que assisti na semana passada, antes de o mundo que me cerca, nacional e pessoalmente, descarrilhar completamente. “A garota dinamarquesa” conta a história da primeira mulher transgênero (ou homem, sei lá) de que se tem notícia a se submeter a uma cirurgia de “reatribuição de gênero”, ou qualquer coisa nesse sentido. Einar Wegener (magistralmente interpretado por Eddie Redmayne) era (ou parecia ser) um jovem pintor de bem com a vida, um homem casado e apaixonado pela esposa. As coisas começam a degringolar quando essa jovem, que também é pintora, pede para ele posar para uma tela vestido de mulher.

A situação se transforma rapidamente, e de repente, o que era para ser um divertido episódio de “cross-dressing” — em termos mais chulos, “travesti” — acaba levando Wegener a acreditar que ele seria uma mulher “internamente”, e começar a agir como tal. Há uma cena impressionante, na qual o rapaz, habilmente, esconde seu lindo pênis (desculpem, não consegui me controlar) entre as coxas, tentando se comportar “femininamente” em frente ao espelho no camarim de um teatro. O que me irritou de verdade foi que, em vez de tentar evitar que isso acontecesse, sua adorada esposa e um par de amigos fazem questão de apoia-lo explicitamente.

Lili, a “nova mulher” — trata-se de uma história verdadeira, e Lili Elbe é considerada pioneira, uma espécie de ícone do movimento transgênero — decide enfrentar uma série de cirurgias cada vez mais arriscadas (e não testadas) para “corrigir” seu “defeito”. Não apenas o lindo pênis foi morto e sepultado. A coisa vai bem mais longe quando, devido às ambições desmedidas do doutor e da própria Lili, que sonhava em “ser mãe”, o primeiro decide, além de criar uma falsa vagina, tentar transplantar um útero — num verdadeiro e antecipado tributo ao Dr. Mengele.

O paciente morreu.

Não estou nem aí para o fato de que, como afirmaram diversos críticos, faltam vários detalhes e a história fracassa em ser fiel à verdade. O mais doloroso de se ver, contudo, foi que a nova mulher, ao tentar sufocar o homem que (agora) vivia dentro dela, sufoca também seu amor pela arte. Como o fato de ser artista famoso tinha a ver com “ele”, mas não com “ela”, Lili decide ir trabalhar numa loja enquanto aguarda seu longamente planejado suicídio. E isso eu não consegui perdoar.

Lembro ainda o desespero de mamãe quando soube que eu estava namorando um homem gay. Ela gritou comigo, duvidou da minha inteligência, fiquei com tanta raiva dela! Como ela podia ser assim tão insensível, sem o menor respeito pelos meus sentimentos? Duro amor. Ela tinha razão. Sofri um bocado com esse relacionamento.

Agora imaginem quantos pais dedicados e respeitosos têm incentivado o “desconforto de gênero” demonstrado por seus filhos, ministrando a eles drogas pesadas e até mesmo permitindo e providenciando suas cirurgias mutiladoras?

Devo confessar que, como adolescente, eu mesma tive minhas dúvidas quanto ao acerto “do meu sexo”. Cérebro traiçoeiro. Tive uma menstruação tardia. Meus seios praticamente inexistiam quando eu já era “velha demais” para continuar tão chapada. Mais tarde, quando comecei minha carreira de arquiteta e designer de móveis, fui considerada muito “abusada”, ousada demais para “uma mulher”. Cortei um dobrado buscando encontrar em mim uma óbvia feminilidade, tanto assim que até dei um jeito de me tornar “frígida”. Agora imaginem a receita perfeita para o desastre que resultaria de tudo isso, caso naquela época houvesse essa permissividade que tanto festejamos hoje em dia.

Precisei de um bocado de paciência, persistência e capacidade de resistência até encontrar o Alan na internet, depois de vários relacionamentos fracassados e um par de casamentos. Foi quando, finalmente, consegui experimentar um orgasmo de verdade, aos 53 anos de idade. Depois disso, não somente a minha vagina se provou bastante ativa e eficiente, como os meus seios cresceram exponencialmente!

Meus amigos, espero que me desculpem a rudeza “masculina” que ficou evidente nesta crônica. Estou certa de que vocês me entenderão. Hoje em dia, afinal de contas, ninguém hesita nem um segundo antes de exibir suas particularidades sexuais para todo mundo, não é mesmo?

Lembrem-se, por favor: um duro amor é altamente preferível a amor nenhum, ou a um amor distorcido, do tipo que reage e age de acordo com a propaganda “liberal”, fracassando redondamente no seu objetivo de fazer o que é certo, afinal. Um amor duro como este que aqui descrevi pode, de fato e de direito, salvar muitas vidas.

O dia seguinte

Famous-Facebook-Status-21967-statusmind.com— O que você vai fazer amanhã? — Alan me pergunta, às quatro da manhã, na insônia da vez.

Respondo um pouco distraída, sem olhar para ele, enquanto o polegar desliza sobre a tela do celular exibindo as últimas postagens no Facebook. Vou tentar fazer um vídeo para o lançamento do livro de um de nossos autores. Vou trabalhar no projeto da casa. Vou começar efetivamente a tradução do meu romance para o inglês, meu próximo compromisso profissional. Nada. Não vou fazer nada. Vou só ficar ligada.

Estou tão ligada que, devo confessar, não teria saído crônica, não fosse o vício, e o alívio que me traz o ofício… Passei a semana toda participando ativamente do fórum aberto no Facebook, injetando energia, desabafando, para evitar sucumbir à depressão e à letargia.

Tenho vivido nos últimos dias numa espécie de estado de “suspensão animada”, ou melhor, dividida, não só entre dois países, mas entre duas linhas de vida: enquanto de “corpo presente” me ocupo dos compromissos e de algumas urgentes, inadiáveis decisões, minha mente está em boa parte investida na cena política brasileira e nos resultados da votação do impeachment.

Embora esteja a salvo de testemunhar, como me contou uma amiga, a dor das “ruas vazias porque as pessoas estão sem dinheiro até para a passagem de ônibus no fim de semana”, ou de ver ao vivo o descalabro da Esplanada dividida, sinto-me como se estivesse fisicamente no Brasil. Em quase dois anos de “autoexílio” ainda não consigo sentir de verdade que “não estou mais no Kansas”, ops, em Itaipava. Se lá estivesse, em meio a toda a “orgia golpista” estaria curtindo gostosos fins de semana e almoçando na Pizzaria Matilda, aberta recentemente por uma de minhas amigas. É. Pode ser. Por outro lado, estaria tendo bem mais dificuldade de enxergar uma saída, já que provavelmente estaria inserida na “massa desprovida de trabalho e de esperança”, não sei, nunca se sabe.

Meu corpo presente e mais a percentagem disponível da minha mente seguem desenvolvendo o quinto ou sexto projeto de arquitetura da nossa casa em Paris Mountain — aquele desenvolvido profissionalmente pelo muito bem pago arquiteto americano se revelou “inconstruível”, pois é, picaretagem não é propriedade do modus vivendi brasileiro — agora que, finalmente (conto com cuidado para não dar muito azar), encontramos um empreiteiro disposto a nos “ajudar”.

Precisamos de “ajuda”, é isso mesmo! Ajuda para construir nossa casa da forma lógica, limpa, fluida e confortável que nos agrada, o que, de certa maneira, foge totalmente (muitas vezes não consigo descobrir por que) ao padrão local, mais dado a arroubos rococós do que almeja nosso lema bauhausiano, “a forma segue a função”. Já tivemos a obra recusada por uns três ou quatro empreiteiros! Só de olhar nosso projeto! Quem diria que ainda teríamos saudade dos bigodes do nosso empreiteiro brasileiro…

Acredito que, devido à simplicidade que desejamos para o acabamento, todos concluem antecipadamente que o percentual que poderiam eventualmente apurar não satisfaria seus padrões primeiro-mundistas, sei lá. Aqui ninguém quer trabalhar por pouco dinheiro, muito menos por amor ou idealismo, amadorismo, sabem como é. A não ser que, por um descuido do destino, Bernie Sanders acabe eleito, e não, não estou torcendo por ele. Francamente, já tive a minha cota de governismo esquerdista para o que me resta de vida.

Segundo o Alan, todos têm uma hipoteca e uma família para sustentar. O que inclui, obviamente, a violência, ops, insistência da turma do telemarketing. Caramba! Não se pode pedir uma informação online neste país sem que passem a te perseguir pelo telefone! É preciso uma cautela que eu ignorava, para se proteger dos ataques dessas vítimas comissionadas. No outro dia caí na besteira, por exemplo, de informar meus dados numa rede de universidades para obter informações sobre cursos de inglês. Fui incapaz, outro exemplo, de especular para conseguir um seguro automotivo melhor, pois a cada vez que informava meu nome, endereço e telefone (sempre falsos, é claro, mas não contem para ninguém) tinha que repetir tudo em mais de cinco formulários diferentes sem nunca chegar a receber as estimativas, caso insistisse em evitar derramar meus verdadeiros dados.

Mas o pior mesmo foi quando sucumbi à tentação de me inscrever num “prêmio internacional para mulheres de negócio” ou coisa parecida, insistentemente oferecido no Linkedin, pensando em com isso abrir novos caminhos, ingênua, eu. Era cedo de manhã quando recebi o telefonema de Nova York. Uma mulher parecendo muito dedicada me informou que minha solicitação tinha sido “aceita”, mas que, para completar o processo, era necessária uma entrevista de quinze minutos.

— Vai em frente — falei.

Foi como entregar o ouro ao bandido. Vamos ver aonde isso vai chegar, pensei. E enquanto a mulher me usava para seus comissionados fins, eu cá do meu lado a usava para levantar um pouco minha combalida moral de exilada, e toca a contar a “importância” da minha atuação no mercado brasileiro de ebooks e toda essa velha toada que vocês já conhecem de cor e salteado. Ao mesmo tempo, num terceiro nível de pensamento, eu ia relembrando como o Brasil estava mal, tudo que eu pudesse ter feito de bom e real tendo mais uma vez se esvaído e perdido a relevância frente à urgência do presente momento.

Meus “quinze minutos” terminaram abruptamente quando a mulher quis me impingir uma taxa única de módicos 950 dólares em troca de um “selo de honra” vitalício, rapidamente substituída por outra de apenas 560 dólares válida por cinco anos e em seguida, num último movimento desesperado, por cento e poucos dólares para um ano de “experiência”. Quando hesitei — Vou pensar, te retorno a ligação — a mulher perdeu o controle completamente, e quase gritando, bateu o telefone na minha cara, deixando rolar por água abaixo todo o esforço dos últimos quinze minutos para me convencer do “meu próprio valor”, antes de, obviamente, me informar que eu precisaria pagar por isso:

— Mas você não leu o regulamento antes de se inscrever?

Bem que eu tinha tentado. Mas no ansioso, emaranhado formulário, muito bem urdido para obter dados pessoais das futuras vítimas desse tipo de golpe publicitário, não tinha conseguido descobrir de antemão quanto esse “prêmio” me custaria.

Nosso mundo ideal conectado em rede está se tornando uma selva virtual, meus amigos. E isso excede em muito, com armas de insuspeito poder criativo, a virulência política nos dois lados da cena corrupta brasileira. Às vésperas da votação do impeachment, sigo contando voto por voto a cada dez minutos, sem me atrever a sequer pensar na possibilidade de que não passe no congresso, tamanho o alívio que consigo vislumbrar após sua aprovação, não importa que provações ainda tenhamos que enfrentar para manter o curso nos desejados trâmites democráticos.

Hora de apelar para aquele Churchill básico, “a democracia é o pior sistema de governo que existe, com exceção de todos os demais”, pois é, agora imaginem que ainda hoje tem gente nos acusando de “golpistas”, apelando para os mais baixos argumentos e linchamentos morais na tentativa de nos convencer de suas ilibadas noções de justiça social. Ontem mesmo li um desses intelectuais iluminados declarando que “Lula é o maior líder político brasileiro vivo” e que “não existe razão para nos submetermos a um governo ilegítimo”. Ilegítimo, mas respaldado pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal, instituições garantidoras da democracia, para nem mencionar o peso da população.

De minha parte, desenvolvi uma tal ojeriza pelo “maior líder vivo” que enquanto corria ontem à tarde, quando o vi com sua língua presa vociferar no noticiário da BBC, fui obrigada a desviar os olhos, uma reação que só tive em duas ocasiões: a primeira, quando era criança, na cena dos leprosos em “Os dez mandamentos”, quando mamãe me avisou para não olhar; a segunda se repete até hoje, sempre que vejo pessoas se injetarem com heroína — livres associações permitidas.

É isso aí. Em pouco mais de vinte e quatro horas poderemos estar diante de um novo quadro no Brasil, meus amigos, e torço ardentemente por isso. Poderá restar ainda muita sujeira, muita poeira no nosso caminho. Mas pela primeira vez em nossas vidas não a estaremos varrendo para debaixo do tapete, e só isso já tornará mais respirável o nosso ar. Para nem mencionar que, progressivamente, será permitido a cada um de nós voltar a dormir uma noite inteira e retomar o rumo de nossas próprias vidas, rudemente sequestrado pela ousadia criminosa daquele que em breve verá o sol nascer quadrado, se Deus quiser, e ele há de querer. Já está querendo, precisando provar que é mesmo brasileiro.

Bom impeachment para todos nós!

Em defesa de Donald Trump (ou não)

trumpforbEste é um artigo sério, posso garantir. Embora seja bem provável que, como se diz em inglês, esteja “um dia atrasado e faltando um dólar” quando for publicado, isto é, poucos dias depois da “importante” primária de Wisconsin (para a mídia local todas as primárias são importantes, devo acrescentar). Além disso, ninguém está nem aí para o que eu escrevo, muito menos gente “que conta” e aqueles que os apoiam.

A crônica foi motivada por um texto irritante publicado na Tablet Magazine, afirmando que existe uma total carência de artigos sérios em favor de Donald Trump, querendo dizer que o candidato é indefensável, impossível de ser levado a sério por gente consciente e competente. Além do mais, como a grande maioria de outros artigos sobre o assunto, o da Tablet trata todo mundo que apoia Trump como farinha do mesmo saco — um saco transbordante de gente reacionária, racista, analfabeta e ignorante, que, aparentemente, é mais comum nos Estados Unidos do que parecia a princípio, e é aqui que eu entro.

No Brasil — que esta semana, graças à profundidade de suas crises ganhou a primeira página do New York Times —, gente como eu, apesar de no momento estar em grande maioria, está sendo desacreditada publicamente pelos chamados “intelectuais” —escritores, artistas e outras celebridades “formadoras de opinião” partidários do PT, “Partido dos Trabalhadores” nos EUA para evitar conotações negativas, como contei na outra crônica. Seu tom de “donos da verdade” tem soado autoritário a ponto de parecer ofensivo. Ignoram outras ideias e as julgam a priori inválidas e desprezíveis, fechando os olhos para o óbvio comportamento criminoso de seus eternos favoritos. Ou eternamente favorecidos. E cerram fileiras orgulhosamente com este governo e sua falaciosa intenção de ajudar os pobres, numa impositiva justiça de propósitos que, ao que parece, justifica qualquer mentira; entre tantos mitos populares, no momento bastante impopulares na verdade, a mais audaciosa de todas as mentiras é essa afirmação sobre terem melhorado as condições de vida dos brasileiros pobres. Pobres brasileiros! Como estarão se saindo esses pobres salvos da miséria pelo PT? Um olhar mais apurado certamente poderá mostrar.

Não resta dúvida de que o lado certo é o lado dos pobres, dos necessitados, contra a “elite”, os ricos e privilegiados. Mas o que acontece quando justamente aqueles que deveriam e tinham poder para ajudar decidiram usar suas ações piedosas como mero disfarce para encher os próprios bolsos, em detrimento de todos os outros? Onde estaria a tradicional justiça da esquerda nesse caso? E o que dizer se, como está acontecendo no Brasil, tais ações de favorecimento tiverem resultado num país arruinado? Como poderiam os pobres estar usufruindo de uma vida melhor num tal lastimável estado de coisas?

Isso nada tem a ver com a situação nos EUA, claro. Mas na verdade tem. Pessoas sérias às quais não é dada uma voz e que não são publicadas no NYT constituem uma ilha de ideias contestadas, rodeada por todos os lados de barulhentas mentiras “adequadas”.

Donald Trump pode até não mentir. Mas acredito que ele mente. Só que, ao contrário de seus adversários, escolheu um caminho mais perigoso, e, no entanto, surpreendentemente bem-sucedido: em vez de nos enganar com mentiras adequadas, ele conquistou muita gente com suas meias-verdades que parecem sinceras, se conectando a um nível mais íntimo e pessoal se comparado à teórica e mais óbvia equidade do comportamento altruísta, sem falhas, mas flagrantemente falso na maior parte das vezes.

Tome-se a questão do aborto, por exemplo, um dos piores faux pas da campanha de Trump até agora, com o potencial de colocá-lo em rota de autodestruição. Parece muito claro para quem têm olhos e ouvidos que Trump é na verdade a favor do aborto, mas devem ter dito para ele que, se quisesse aparecer bem na fita como conservador e angariar seus preciosos votos, desse jeito não iria rolar. E ele então mudou, sem pensar duas vezes: Só preciso dizer que sou contra o aborto. Não preciso acreditar sinceramente nisso! E acabou pego em flagrante, não por um adversário mais esperto, mas por um repórter mais bem preparado para a situação, digo, para a entrevista.

Dá para desculpar alguém que afirma na TV que, “caso o aborto seja ilegal, deve-se punir as mulheres que o praticam?” Não! Mulheres devem ser tratadas como mimados animaizinhos de estimação, protegidas como uma espécie em extinção. Portanto, no hipotético caso de o aborto ser tornado ilegal nos EUA, o que é bastante improvável, uma mulher não deve jamais ser considerada responsável por suas próprias escolhas ou ações, de jeito nenhum. Afinal de contas, fui informada de que a maioria das mulheres americanas é incapaz de controlar suas próprias possibilidades de reprodução, mais incapaz ainda de se proteger de uma gravidez indesejada através dos muitos métodos hoje em dia à sua disposição. Agora, esta sim, seria a resposta correta: todas as mulheres devem aprender a se proteger. Ponto.

Embora boa parte dos projetos sensacionalistas dos candidatos a presidente seja na verdade inviável, e suas ideias impraticáveis, mesmo assim corremos o risco de rejeição ao criticar aqueles cujo “tom” parece mais justo, palatável, como Bernie Sanders, por exemplo. Uma amiga brasileira, dessas que até hoje professa uma filosofia hippie de vida, estava toda animada com Bernie no outro dia: “Esse candidato é o que melhor se encaixa na nova ordem mundial”, ela me falou. Será que ela sabe mesmo do que está falando?

Eu costumava pensar nos EUA como um país onde a legalidade impera, onde a democracia prospera e o Congresso é uma instituição respeitável. Mas que sei eu: as várias “ordens executivas” de Obama, por exemplo, provam que nem sempre é assim. Portanto, o presidente é realmente importante, e isso me deixa com mais dúvidas ainda com relação a Trump, que não me “parece” nada presidenciável, pelo menos ainda não. Eis o que o candidato declarou numa entrevista no domingo passado: “Posso parecer presidenciável se eu quiser. Vou parecer tão presidenciável que vai ser uma chatice só”. É aí é que mora o perigo: essa rara verdade de ocasião prova somente que ele mente a maior parte do tempo, como todos os demais nessa disputada corrida presidencial!

De qualquer maneira, aqueles que enxergam qualquer coisa positiva na candidatura do Donald Trump e que, por outro lado, veem-se a si próprios como gente do bem (gente do mal não dá a menor pelota para a opinião alheia), acabam tão oprimidos pela propaganda adversária que mal se atrevem a falar ou escrever o que realmente pensam.

Achei bastante curioso um outro artigo publicado no New York Times por um veterano de guerra bastante honesto, sincero, bem-intencionado. O sujeito escreveu um longo parágrafo listando inúmeras razões pelas quais muita gente, incluindo ele mesmo e sua família, deveria apoiar Trump com base no que ele diz em seus comícios, contra a guerra e a favor de uma raiva plenamente justificável, por exemplo. “Trump é um tormento constante para a elite do Partido Republicano, que não consegue admitir as próprias falhas”, o veterano escreveu. E concluiu afirmando que “Donald Trump não está preparado para o cargo mais alto do país”. E por que não? Isso o veterano não diz. Talvez alguém tenha dito isso a ele, ou quem sabe ele sabe muito bem o que deve dizer a fim de ser elogiado, aceito, publicado, o que é sem dúvida importante. Mas, honestamente, ignora os verdadeiros motivos por trás dessa opinião.

Antes de finalmente fazer minha escolha e oferecer meu totalmente dispensável apoio a qualquer candidato nas eleições americanas, o que eu gostaria mesmo é de poder contar com um pouco de calma, ouvir alguma verdade, perceber alguma imparcialidade com um leve toque de bom senso. O que é pedir demais, sei muito bem. Nada disso vai rolar, e no final terei de me virar.

No caso de, Deus me livre, as coisas darem errado, se Donald Trump for eleito presidente e acabar sendo esse novo Hitler que tanta gente está dizendo, aceitarei de boa vontade minha parte da responsabilidade. E vou imediatamente me desculpar no Facebook por colocar no papel tão terríveis pensamentos. Prometo!

 

Preconceito no banheiro

Bem esquisita essa associação, ou será que não?
Bem esquisita essa associação, ou será que não?

Vou começar dizendo que não tenho o menor problema em dividir o banheiro com um ser masculino, desde que ele seja limpo e atencioso e maneje com habilidade o tampo do vaso sanitário, sabem como é. O que, por sorte, é o caso aqui em casa. Caso exista qualquer intenção de num futuro socialmente mais justo unificar os banheiros públicos, eu aconselharia que se estabelecesse uma espécie de multa significativa para evitar tais possíveis delitos, e vamos em frente. Não me incomodaria em nada eliminar esse tipo ultrapassado de preconceito sanitário, que acabou se revelando uma questão tão perturbadora para tanta gente.

Agora, já que escolhemos morar na Carolina do Sul, a apenas 40 minutos de carro da fronteira da Carolina do Norte, acredito que isso pode nos definir como “porcos fascistas de personalidade limítrofe”, ops, desculpem aí, porquinhos. Pouco importa se nos mudamos pra cá porque nosso filho mora em Charleston, que é aqui pertinho, ou porque Greenville é uma cidade em ascensão, com excelente qualidade de vida. O que interessa de verdade é que o governador da Carolina vizinha é um monstro imbecil, um fanático desprezível que odeia gays — sim, escolhi este termo odioso, altamente preconceituoso (ou não?) por um motivo em especial, você pode especular qual, não estou nem aí. Voltando ao governador, cujo nome nem sei, já deve ser de conhecimento geral que ele acaba de aprovar uma lei proibindo os transexuais de usar o banheiro atribuído ao sexo que ambicionam, ou pelo menos foi o que entendi. Mas posso estar enganada, poderia muito bem ser o banheiro contrário, não é? O que não dá para contestar é que se trata de um tema bastante controverso, para todos os envolvidos e também para nós, os excluídos não-LGBT.

A verdade é que qualquer conclusão nessa direção preconceituosa estaria completamente equivocada, já que me considero razoavelmente aberta e disposta a respeitar a individualidade alheia, desde que não afete a minha própria. O que também inclui, é claro, certo nível de tolerância partidária. No meu círculo íntimo da família e amigos, por exemplo, temos de conservadores a partidários de Bernie Sanders (não eu, pelo menos ainda não), passando por vários graus de moderação.

Mas não no Brasil. Se podemos neste momento descrever os EUA como um país altamente polarizado, imaginem então o Brasil, onde pessoas em lados opostos do espectro político têm se aproximado perigosamente das vias de fato. O que, francamente, não é o pior.

Analisemos, por exemplo, três pessoas que no passado eu admirava, uma espécie de “mentores literários”, por assim dizer. Um deles acabou se opondo publicamente ao Estado de Israel baseado unicamente em slogans amplamente divulgados do movimento “boicotista”, o BDS; já o segundo se posicionou fortemente a favor do PT, e aqui um parêntese se faz necessário.

Como vocês bem sabem, eu agora só escrevo em inglês, e por aqui sempre traduzem “PT” por “Worker’s Party”. Mas eu prefiro escrever PT Party mesmo, que soa exatamente como “pity party”, traduzindo livremente, uma “situação lastimável”, não que meus “novos leitores nativos” entendam a insinuação. Fim do parêntese.

Pois o segundo amigo se posicionou fortemente a favor do PT, que agora está lutando para desacreditar provas judiciais da arraigada rede de propinas e outras práticas corruptas que se tornaram regra em nossas instituições governamentais. O que, até o momento, resultou numa crise econômica, política e moral sem precedentes que, segundo o Washington Times, coloca o Brasil “à beira do precipício”, sem solução à vista. Fiquei tão triste com esse posicionamento de meus antigos amigos que ficou difícil abordar o assunto sem cair em depressão, situação mais agravada ainda por meus sentimentos de inadequação e minha incapacidade de reagir com eficiência, isto é, no sentido de mostrar a eles como estão errados.

O que me lembra um sonho que tive há mais de 40 anos, logo após a morte prematura do meu pai. Eu tinha levado um parente ao aeroporto e estava voltando para casa numa estrada reta, desimpedida, quando apareceu de repente um enorme caminhão na contramão. Com uma placa de contramão no lugar do retrovisor. Não por acaso, é a descrição quase exata de como meu pai morreu: num acidente de carro, atingido por um caminhão que vinha na contramão, dirigido por um motorista bêbado. No sonho, fui parada por um policial vestindo um uniforme da Revolução Francesa, que me disse para sair do carro e em seguida me perguntou se “eu tinha uma criança ou uma pessoa doente para cuidar”.  Eu sabia que a resposta era “não”, mas fiquei tão confusa que comecei a chorar e fui incapaz de responder.

De volta à vida real. Curiosamente, meu terceiro amigo publicou esta semana uma descrição de como vem enfrentando seus próprios amigos, que, como os que mencionei acima, exibem um apoio injustificável a este governo e seus autoritários, ops, e suas autoridades, acusadas de corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros crimes graves. Fiquei surpresa e emocionada também, devido ao fato de a situação ser tão semelhante ao meu sonho do passado. No mesmo artigo meu amigo também acusou o ex-presidente Lula de tê-lo empurrado para a direita contra a sua vontade, um crime que ele confessou ser incapaz de perdoar, o meu amigo, digo. Eu tampouco consigo perdoar.

Para aliviar, meu sobrinho de 24 anos me contou no outro dia que, apesar de as discussões políticas serem bastante violentas no Facebook, na vida real as pessoas raramente falam desse assunto, se limitando a beber e se divertir.

Concluindo, não deve ter sido coincidência o fato de inconscientemente eu ter escolhido morar num estado conservador, embora ignorasse completamente esse lado quando compramos o lote em Paris Mountain: o que nos atraiu de verdade foi o belo horizonte, a proximidade com nosso filho e o clima bastante agradável na maior parte do ano. Culpem-me se quiserem.

Sinceramente, mesmo correndo o risco de ser injusta por estar roubando o lema do recente ataque terrorista na Bélgica, uma situação muito mais penosa, moi aussi, je suis cansada dessa m… ops, dessa situação toda. Para nem mencionar que um padre foi supostamente crucificado no califado na Sexta-Feira Santa. Mas pode ser tudo mentira, sei lá.

Cotidianamente, na verdade, gosto bastante da diversidade: tenho que confessar que, ao contrário da massa de americanos, gosto de comer muesli com leite antes de dormir, e daí? Nem vou me arriscar a acusar determinado grupo de imigrantes por bagunçar a lavanderia do nosso condomínio, já que na verdade não os peguei no ato. Ainda. Pode muito bem se tratar de  brasileiros como eu, embora eu nunca tenha encontrado nenhum brasileiro por aqui.

Quanto à minha própria condição de imigrante, vocês podem até dizer que “estou ficando americanizada”: além de escrever em inglês, este ano fui poupada daquela incômoda coceira de primavera que me acometeu no ano passado, meu primeiro em solo estrangeiro.

 

 

Café com leite no Starbucks

20100627coffee-bucksEra domingo de manhã, o primeiro domingo de primavera em Greenville, na Carolina do Sul.

Eu tinha acabado de receber um e-mail com uma resposta ardentemente esperada. Resposta negativa. Fiquei decepcionada.

Ok. Sendo uma adulta, eu não tinha o direito de ficar assim tão desesperada com cada sonho abortado. Tinha um marido com quem me preocupar, portanto convidei o Alan para um café.

Sinceramente. Se eu tivesse a menor intenção de seguir vivendo, ia precisar de uma mudança radical, só não sabia como começar. Talvez saindo para o café da manhã num belo domingo de primavera. Talvez parando de escrever sobre meus repetidos fracassos, ou começando a me concentrar no “meu sucesso”.

Eu poderia com certeza contar como é lindo o início da primavera aqui nos Estados Unidos. Por todo lado se pode ver pinceladas recentes de cor, como se um talentoso pintor tivesse acabado de acordar e posto mãos à obra. “Natureza”, diriam alguns. “Deus”, pregariam outros. Animador, por qualquer lado que se olhe.

Fomos até nossa cafeteria favorita, a cinco minutos de carro do nosso apartamento. “Nosso apartamento”, não “nossa casa”.

— Odeio esse apartamento — Alan acabara de admitir, me lembrando Caetano: “Eu quero é botar fogo nesse apartamento… você não acredita”. Tive que concordar, eu também detesto. Moramos aqui há tempo demais, já passou da hora de a gente se mudar.

A cafeteria estava lotada, tinha meia hora de espera. Era tarde demais para tomar café; ou, por outro lado, a hora certa para as pessoas saindo da missa, que são grande maioria neste canto do mundo, apelidado “cinturão da Bíblia”. Era bem provável que outros restaurantes também estivessem lotados, então adiamos o café por um tempo e fomos até o nosso lote, que nos obrigamos a visitar duas vezes por semana a fim de imaginar como vai ser bom morar lá. O que deve acontecer eventualmente.

Confesso não ter a menor ideia de como alcançar o sucesso. De qualquer forma, há um excesso de receitas eficientes por aí para quem planeja seriamente vir a fazer parte do “clube dos felizardos”, embora eu sinta com bastante convicção que é o fracasso que nos torna humanos, ou nos aproxima de pessoas que são “simplesmente humanas”. O Olimpo é em algum outro lugar, e seus deuses ungidos não agem como o homem do povo. Além do mais, tenho certeza de que existem alguns truques sagrados que eles não desejam compartilhar, apesar dos milhões de dólares gastos e ganhos na publicação de livros sobre o tema.

Mas estou divagando. Voltando de Paris Mountain, decidimos parar no Starbucks perto do supermercado. À primeira vista, por estar localizado num estacionamento, parece mais um café vagabundo num posto de gasolina qualquer. Mas quando entramos, trata-se de um Starbucks, com o mesmo projeto e esquema de cores de todo Starbucks em qualquer lugar no mundo, sem tirar nem pôr. Seria essa uniformidade toda, cuidadosamente planejada, o segredo para o sucesso desse negócio em particular? Devo acrescentar que o café no Starbucks é sempre excelente, embora a comida possa não ser tão boa assim.

O que eu mais detesto no Starbucks é que não importa onde você esteja, seja no Rio, em Paris ou Nova Iorque, é preciso saber exatamente o que fazer para alcançar seu objetivo, e não existe manual de instruções. Então, peguei meu café e o do Alan — ele ficou esperando a comida — e fui direto para o balcão de leite & açúcar, onde descobri que a garrafa térmica de leite estava praticamente vazia. Tentando agir como quem está por dentro, avisei a garota no balcão de café e fui mais longe ainda: levei até lá a garrafa vazia e a deixei bem ao alcance dela antes de procurar um lugar para sentar.

Sobre a mesa havia um exemplar do New York Times, e Alan começou a ler com o maior interesse, algo para mim difícil de entender. A menos de uma hora atrás ele estava criticando duramente o jornal, pela postura política e por todas as “mentiras” que eles publicam todos os dias. Eu não estava a fim de ficar discutindo, tampouco de ficar insistindo no fato de achar o jornal importante. Menos ainda nessa primaveril manhã de domingo, tendo sido rejeitada pela enésima vez.

Precisava urgentemente me distrair dos meus pensamentos negativos, então comecei a observar os clientes, enquanto minha mente simultaneamente viajava para o passado, tentando resumir tudo que conquistei até este momento. Embora, claro, tendo mudado de rota tão violentamente quando saí do Brasil, minhas chances de obter resultados positivos tinham diminuído incrivelmente. Para o resto da vida. Eu nunca seria capaz de me encaixar.

A garrafa térmica de leite continuava lá, em cima do balcão, exatamente onde eu a tinha deixado. Intocada. Alan, todo contente de volta em casa depois de seu próprio autoimposto exílio, foi direto ao ponto, digo, à garrafa certa de leite, e dela eficientemente se serviu, enquanto o melhor que pude fazer foi pedir à pessoa errada para encher a garrafa errada colocada no balcão errado.

Em minhas idas e vindas mentais, comecei a refletir sobre o fenômeno Trump e sobre a multidão que segue atrás do candidato presidencial, qualificada pela mídia como um bando de desajustados, de analfabetos “descartáveis”. Dava para perceber a impecável ironia implícita no fato de que um bem-sucedido bilionário, um possível leitor obstinado dos discursos desenfreados de Hitler — Alan e eu tínhamos conversado sobre isso mais cedo, com base num artigo publicado no Times —, tinha conseguido conquistar surpreendentemente os corações da tal turba despossuída, barulhenta, exigente. Ou seria exatamente por isso, digo, por conta de sua retórica exagerada?

Carinhoso como sempre naquela sombria manhã de primavera, Alan decidiu me consolar dizendo que eu deveria simplesmente me arquivar: não havia a menor chance de eu me tornar uma escritora conhecida no mundo altamente competitivo dos praticantes da língua inglesa, em meio a uma multidão de gente gabaritada, graduada nas universidades de elite. Talvez eu devesse me limitar ao meu português nativo, me contentar com o modesto círculo de admiradores terceiro-mundistas que já conseguira granjear, parar de “cortejar gente que não me aprecia e aprender a valorizar quem o faz”. Em outras palavras, eu deveria facilitar a vida e me dar uma folga, parar de mirar o céu (e começar a encarar meu túmulo, tive vontade de acrescentar).

Tudo bem. Tempo para uma pausa bem-merecida.

— Estou captando a vibração de que você quer ir embora — disse o Alan, pondo de lado o caderno literário do New York Times. Em seguida se levantou, foi até o lixo ao lado da mesa e jogou fora os copos vazios, antes de nos dirigirmos para a saída. A garrafa de leite continuava intocada em cima do balcão de café, e aposto que ali ficaria até que chegasse o faxineiro noturno para limpar o estabelecimento — um empregado estrangeiro, com certeza.

Bafafá em Brasília

safe_image— Estou adorando esse bafafá todo em Brasília — disse uma amiga no Facebook na manhã de terça-feira.

Não curti nem um pouco. Ao contrário, entrei em pânico.

Eu já vinha progressivamente cortando meus laços com o Brasil nas últimas semanas, não sem pagar meu preço — emocional, pelo menos. Como já contei, tinha decidido encerrar as operações da KBR no país e transferir as atividades para os EUA. Era meu último mês de uma vida dupla. Estava planejando fechar todas as contas no dia 31.

Não sei se vocês se lembram, mas nossa mudança para os Estados Unidos só se tornou possível quando, após um ano de tentativas, conseguimos vender nossa linda casa no Vale do Sossego. Depois foi a vez de lutar para transferir o dinheiro — legalmente, claro, com o câmbio oscilando loucamente numa gangorra, para cima e para baixo — para um banco em Greenville, onde planejávamos construir outra casa. Continuamos planejando.

Muitos anos atrás, quando eu ainda tinha “fé”, um amigo astrólogo me disse que eu contava com algum tipo de “proteção divina”, que me impedia de me machucar, ou de exagerar nos meus negócios aventureiros. Não me lembro do meu sonho daquela época, talvez escrever um livro de receitas ou abrir um restaurante vegetariano, sei lá, por um tempo gostei de me imaginar como uma espécie de “gênio alternativo da cozinha”.

Então, basicamente, eu estava a salvo. E, honestamente, não sei o que deu em mim naquela terça-feira terrível.

Talvez, como afirmou uma outra amiga, que também mora aqui há alguns anos, meu medo tenha sido desencadeado por um velho “gene de pânico” herdado de antepassados obrigados a fugir dos pogroms da Europa Oriental de uma hora para outra… embora, sinceramente, apesar de meu pai ter vindo recém-nascido da Polônia para o Brasil em 1929, eu não me lembre de nenhuma história do tipo na nossa família. Enfim, como parte do povo judeu, a gente nunca sabe.

Acho que minha memória, na verdade, não vai tão longe em minha própria história. Conscientemente não sei de nada, mas posso muito bem ter guardado algum tipo de lembrança doída do golpe militar de 1964, delicadamente apelidado de “revolução”. Eu tinha 12 anos naquela época, e após um curto período de tanques nas ruas, tudo voltou ao normal, ou assim eu acreditava. Só na manhã de terça pude imaginar de verdade o medo que meus pais devem ter sentido, ambos na flor de seus trinta anos com dois filhos para criar.

Minha adolescência se desenrolou durante os “anos de chumbo”, mas como cresci com certo grau de conveniente alienação, tive uma vida normal. Eventualmente, a pressão da ditadura diminuiu, e estávamos de volta à democracia. Mesmo tendo que enfrentar as frequentes e radicais crises econômicas que o país atravessou, a vida mudou.

Lembro-me ainda de todas as dificuldades que tive de superar, tentando ser empreendedora e “ligeiramente artística” a vida toda, mas tudo isso já ficou no passado, melhor que continue por lá.

Enfim, quando acordei na manhã de terça com uma terrível dor de cabeça — o segundo ataque de enxaqueca em menos de sete dias — e fui direto para o computador para checar as últimas notícias, dois dias depois da “maior manifestação popular da história contra o governo”, minha intermitente sensação de alarme se revelou completamente justificada: depois de ser indiciado por crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e ocultação de patrimônio na recente onda de escândalos de corrupção, o ex-presidente Lula tinha sido convidado para ocupar a Casa Civil pela próxima-da fila-a-ser-indiciada presidente Dilma, o que oficialmente faria dele uma espécie de primeiro-ministro “não-reconhecido”, transformando Dilma oficialmente no fantoche que ela sempre foi desde o início de seu governo, com ênfase para o segundo mandato. Isso iria, em tese, proteger Lula de ir a julgamento — e, talvez, para a cadeia — como um cidadão normal. Um mandado de prisão já estava em andamento, mas isso não era da missa nem a metade: com esse ato altamente irregular, possivelmente ilegal, Lula seria elevado à posição de líder de fato do Brasil.

De acordo com a mídia, o homem já tinha posto na mesa as suas exigências: o Brasil deveria voltar-se integralmente para as velhas e populistas políticas econômicas e protecionistas, isso mesmo, aquelas mesmas que puseram em marcha a destruição do país; o governo deveria aumentar seus gastos e começar imediatamente a “estimular” a economia, a fim de recuperar seu declinante prestígio junto aos pobres. Ninguém parecia se importar com o fato de que o país estava totalmente falido, com a maior taxa de desemprego em muitos anos, a inflação em ascensão, empresas falindo e lojas fechando. Além disso, não estavam dando a mínima para a vontade do povo, claramente expressa na enorme multidão que tinha protestado contra este governo em todo o país. Há apenas dois dias.

A “ditadura do PT” tinha sido instituída oficialmente. Estávamos perdidos.

Minha última obrigação no Brasil era a declaração de saída do imposto de renda, em seguida à comunicação oficial da saída do país. Eu tinha até pensado em pedir ao meu contador para fazer, como sempre, e havia tempo suficiente, já que faltava mais de um mês para o prazo se esgotar. Mas tendo em vista as últimas notícias, decidi fazer sozinha mesmo. Imediatamente.

Alan já estava meio preocupado com as novas leis de “repatriação de bens”. Eu garanti que não tinha nada a ver, mas a verdade é que, no Brasil, a gente nunca sabe.

Primeiro tentei baixar o software da receita no meu computador novo, mas por algum motivo não consegui. Era preciso instalar o Java, mas ao que parece esse computador de última geração já não aceitava o “script”. Peguei meu Dell antigo, já fora de uso há um bom tempo, mas estava tão ansiosa que dei um jeito de provocar a tela azul da morte. Desta vez, para sempre. Não consegui reiniciar o computador. Aí tentei o computador do Alan, um pouco menos moderno que o meu, e felizmente esse funcionou.

Depois de meia hora de extrema tensão, completei o formulário e enviei a declaração online (cá entre nós, o sistema de declaração de impostos no Brasil é bom à beça, de dar inveja aos americanos, que lutam com o enrolado sistema deles, mais ou menos na mesma época do ano). Salvei e depois imprimi o recibo e pronto. Estava feito.

Enfrentei toda essa “pequena” crise pessoal sem nenhum apoio moral. Alan tinha ido ao dentista e eu estava sozinha em casa. Quando acabei, respirei fundo, calcei o tênis e fui correr na academia do condomínio, de frente para a piscina e para as árvores recém floridas, anunciando a primavera iminente. Eu estava longe, à mercê de uma inevitável saudade ocasional. Mas estava sã e salva.

Enquanto eu terminava de escrever a crônica, a confirmação de Lula como ministro da Casa Civil estava em compasso de espera por conta de outro escândalo, dessa vez se referindo a Aloísio Mercadante. Lula, o chefe indiscutível da quadrilha, o mentor “intelectual” da morte do Brasil, não queria compartilhar as manchetes com criminosos menores, sabem como é.

Hoje, quando publico, a mesma nomeação está sendo submetida a um vaivém na Justiça. O povo protesta, mas Lula e Dilma não estão nem aí, um descaso agora comprovado pela linguagem rude e pensamentos ainda mais rudes exibidos pelas gravações de conversas ao telefone, divulgadas, em meio à crise por eles mesmos provocada, pelo dublê de juiz e salvador da pátria Sérgio Moro, exaltado do nosso lado e execrado do lado oposto como seria de esperar.

Não faz mal. O que resta de tudo isso é a nossa plena consciência do grau de baixeza com que estamos lidando, com que temos lidado todos esses anos sem saber com certeza.

E agora chega.