Legado

California delegates react during the second day session of the Republican National Convention in Cleveland, Tuesday, July 19, 2016. (AP Photo/Carolyn Kaster)
Convenção Nacional Republicana em Cleveland, 19 de julho. (Photo AP/ Carolyn Kaster)

Eu estava cortando um dobrado para aceitar todas as análises da mídia afirmando que o assassino de Nice não era jihadista: pareciam tão falsas quanto a descoberta de que eram igualmente falsas as armas e granadas encontradas em seu caminhão — “O caminhão ‘de sorvete’ de Mohamed” que já virou lenda: 84 mortos, ceifados, esmagados pelo matador desalmado.

Agora me digam, que diferença faz? Com seu ato indiscutivelmente criminoso o sujeito fortaleceu a jihad de qualquer maneira, e atos como este seguem inspirando os mentalmente perturbados no mundo inteiro. Será que alguém, em algum lugar, ainda tem dúvidas de que este estado de coisas cada vez mais violento com que temos sido confrontados nos últimos dois anos, depois do estabelecimento do assim chamado “califado” no Oriente Médio, é a motivação básica por trás desses atos tenebrosos?

Pior, acredito que a violência no mundo, jihadista ou não, está próxima de atingir uma massa crítica; e aí, meus amigos, será muito mais difícil encontrar uma solução. Para nem mencionar os terríveis assassinatos de policiais nos Estados Unidos nestas duas semanas, nossa “última tendência” em território nacional (já estou falando como uma americana, não é?).

Comecei esta crônica com a firme intenção de culpar o Nobel-da-paz-precoce Barack Obama por todo o mal existente no mundo, recente ou não, incluindo a crescente divisão racial nos Estados Unidos. Mas alguma coisa na declaração dele a respeito das mortes de Baton Rouge, Louisiana, me fez mudar de ideia, devo confessar. Parafraseando o grande Luís de Camões: “um valor mais alto se alevanta”.

Então, citando o Presidente Obama (vamos combinar, se fosse para levar a sério todas as belas palavras que ele profere regularmente, teríamos que reconhecê-lo como o maior político da terra, de todos os tempos, homem ou mulher): “Essa retórica inflamada não nos ajuda em nada. Nem muito menos acusações infundadas jogadas a esmo para amealhar vantagem política ou reafirmar determinado programa. Precisamos medir nossas palavras e abrir os nossos corações. Todos nós”.

Bacana. De verdade. É isso mesmo.

Mas não é o que tenho visto. Esta semana tivemos a Convenção Nacional Republicana, e a retórica inflamada concentrada em destruir Donald Trump andou tão violenta que fui obrigada a deixar o Twitter de lado por uns dias. Não que o Twitter se incomode, ou se preocupe de fato e de direito com o que lá se publica: o “ativista supremacista branco gay” Milo Yiannopoulos (nem sei se nesta ordem, mas é tanta qualificação sem sentido que achei melhor colocar tudo entre aspas para me proteger de qualquer objetivo escondido) acaba de ser banido do Twitter para sempre, por exemplo. É isso mesmo: para sempre. Isso, apesar de tanta violência e preconceito e racismo e antissemitismo e ataques à força policial e etc. e tal, tuitados e retuitados à vontade todos os dias. Para nem mencionar, é claro, o anti e o nuncatrumpismo generalizado. Fico pensando se na semana que vem, quando teremos a super aguardada Convenção Nacional Democrata, veremos estas mesmas mentes brilhantes antitrumpistas se revelarem como justas, equilibradas, imparciais e maravilhosas cabeças pro-clintonianas. De qualquer maneira, provavelmente não estarei por lá para conferir.

Essa tal “campanha” tem sido tão bem-sucedida que, apesar de nos EUA ainda existir um lugar (democrático) para pessoas que apoiam o Partido Republicano, o mesmo não se pode dizer do restante do mundo, o Brasil incluído, onde Trump é rejeitado tão radicalmente como Obama foi aceito em 2008, e com base nas mesmas premissas: coisa nenhuma. Deve ser tudo por conta dos cabelos diferentes, como se diz por aí.

Acho engraçado que toda esta acachapante fúria contra Trump (tem que chame de “assassinato de caráter”) — que, por sinal agora inclui os filhos, netos, bisnetos e demais futuros descendentes da família Trump para todo o sempre —, além de fazer questão de negar a realidade, se ocupe primordialmente de insignificâncias, como a questão da “tendência dos Trump a plagiar discursos”.

Eu vi. Ninguém me contou.

Bastava ligar a TV na transmissão ao vivo da Convenção para ver o entusiasmo, a torcida empolgada, a oratória eloquente exibida pela antigamente-considerada-estranha Tiffany Trump, filha mais nova do candidato, ou pela atraente previamente-considerada-burra Melania Trump (a droga do corretor xenófobo do Word corrigiu automaticamente para Melanie e eu custei a perceber), ou o articulado e inteligente, antes-visto-como-mimado Donald Jr. (que por sinal, agora ficamos sabendo, dirige um trator tão bem quanto seus carros de luxo) — tá bem, peço desculpas por ficar parecendo uma fã incondicional do Clã Trump, coisa que não sou. Para nem mencionar outros competidores espertos na arena política americana, como Chris Christie, governador de New Jersey, que em seu discurso encenou um julgamento de Hillary ao vivo, abordando os seus “malfeitos” antes de jogá-la aos leões famintos-de-palavras, ou melhor, republicanos raivosos: “Hillary na cadeia! Hillary na cadeia!”

E aí, com um simples toque suave no controle remoto, a gente se conectava numa realidade completamente diferente. Na qual, documentada pelos canais de “oposição”, para a máxima curtição dos democratas, a Convenção era descrita como um fracasso retumbante, tediosa, equivocada, comprovando sem sombra de dúvidas a total incompetência do partido, descrito por eles como “em frangalhos”, uma vergonha irremediável para seus pobres constituintes que tinham agora comprovada a sua burrice e limitação intelectual. Qualquer semelhança com os ataques dos petistas não é mera coincidência.

Pô. Peraí. Cada um dos dois partidos abrange mais ou menos 50% do eleitorado americano.

Como uma coroa mal-humorada, antes-sem-filhos-agora-mãe-orgulhosa-de-dois-rapagões, confesso que me comovi com a energia amorosa, a sincera admiração filial exibida por Don Jr., que, como delegado de Nova York, deu ao pai os delegados necessários para ganhar a nomeação, atingindo o “número mágico” que tantos especialistas garantiram por tanto tempo que o desprezível Donald Trump jamais alcançaria. O Júnior estava orgulhoso de verdade, dava para ver, podem acreditar.

No final das contas, o que pude ver foi uma celebração familiar, digo, uma celebração da família como o mais significativo valor americano. Agora, é claro que alguns “programas” não têm o menor interesse em apoiar um campo contemporâneo tão controverso e cheio de preconceitos, com seus “adeptos” tendo despendido tempo e energia demais advogando o exato oposto disso, isto é, a veracidade discutível dessa instituição tão ultrapassada como a família tradicional, antigamente conhecida como uma super simplificada célula doméstica composta de mãe-pai-e-filhos. Dá para entender. Eles têm pavor de perder suas conquistas, que tornaram nosso planeta tão melhor e mais seguro para todo mundo — uma ameaça identificada hoje em dia como “risco de regressão social”.

Agora, falando sério, tenho uma confissão a fazer: estou tão amedrontada com o atual estado de coisas em nossa sociedade, pela perda da nossa segurança e pela lamentável, porém consistente sensação de desesperança com relação ao nosso futuro como espécie, que considero esta a verdadeira razão de estar torcendo por Trump, já que não posso votar. Algo precisa mudar.

Tenho consciência de que esses meus comentários retrógrados poderão surpreender muita gente. Acredito honestamente que muito pouca gente associa esse estado de violência e divisão social aos loucos incentivos na direção da eliminação de qualquer coisa que possa remotamente soar como “tradição”. E isso inclui, certamente, a tendência mundial de recuperação dos valores nacionais, fronteiras, “separação” dos demais. Dito de outra forma: “isolacionismo”.

Preciso ser bem clara quanto a isso: o fato de ver qualquer outra pessoa como diferente de mim — e de ver esta diferença como enriquecedora, e não limitante, apesar de nem sempre estar disposta a abrir meu espaço pessoal para determinada pessoa em determinado momento — não faz de mim uma pessoa horrível, uma xenófoba hidrófoba. O que considero um pesadelo legítimo é a possibilidade de um mundo pasteurizado, no qual, apesar da retórica em favor da diversidade, o que se busca de verdade é a homogeneidade dos humanos: todo mundo tem obrigação de aceitar os mesmos valores e abaixar a cabeça para uma teórica “liderança global”.

A questão é confusa, admito. Eu jamais poderia declarar minha admiração por uma Lei Islâmica radical, ou, para ser bem gráfica, o hábito de “circuncisar” as mulheres extirpando-lhes o clitóris, o que pode até satisfazer certas culturas ao redor do mundo. Mas isso precisa parar. Agora. Já. Além do que, há algo de flagrantemente equivocado no jeito como temos tentado obter essa aceitação, e não está funcionando, simples assim.

É claro que acreditar que a eleição de Trump vá resolver todos esses sérios problemas constitui um óbvio salto de fé que atinge as raias do absurdo. Não acredito em nada disso. Mas de algum jeito, em algum lugar, ainda que muito sutilmente, algo precisa acontecer para dar um basta nessas tendências mundiais na direção de uma contemporaneidade que, francamente, só tem nos prejudicado.

E é isso que eu queria dizer. Nas próximas duas ou três semanas, enquanto a corrida política americana se reorganiza para atingir “o próximo estágio”, vou me dar um tempo. Chegou a vez na minha mesa de edição de um projeto muito pessoal que venho acalentando, e para o qual venho me preparando há mais de seis anos, e espero que o mundo me dê alguma tranquilidade para que eu possa me dedicar a isso. Ninguém está nem aí para o que escrevo mesmo, e um pouco de distância do ciclo frenético da mídia só pode fazer bem a uma pensadora conectada em potencial.

No final das contas, amor e beleza precisam começar dentro de casa. E do coração.

Estes olhos viram a glória

O enforcamento de John Brown visto pelo artista afrodescendente Jacob Lawrence.
O enforcamento de John Brown visto pelo artista afrodescendente Jacob Lawrence.

“Obrigado(a)[1] pela oportunidade de ler e editar sua amostra muito divertida, divertida até mesmo para alguém que é praticamente ignorante das maquinações políticas em curso aqui neste momento”, dizia a deliciosa mensagem de um(a) editor(a) em potencial com relação à minha crônica da semana passada. Ando pesquisando o mercado para aumentar a equipe da KBR internacional colocando na reta o meu próprio… texto, ou vocês pensaram que eu ia dizer outra coisa? E, devo confessar, submeter meu trabalho de autora a profissionais americanos competentes é uma experiência no mínimo delicada, que poderia ser melhor descrita como “medo de rejeição”.

Como uma autora não-nativa em inglês, devo admitir, venho também procurando um jeito de quebrar a barreira da insani… ops, desculpem, da mentalidade americana. E se vocês estão pensando que estou tentando parecer engraçadinha, acertaram em cheio. Tenho enfrentado cá do meu lado uma pressão quase insuportável, podem acreditar.

Por falar nisso, o editor supramencionado também acertou em cheio: apesar de eu estar cortando um dobrado para soar divertida em inglês — o que, francamente, não me custa nada em português — sou quase completamente ignorante no que se refere às maquinações políticas atuantes neste momento nos Estados Unidos. Cá entre nós, como poderia ser diferente? Ainda que eu não consiga resistir à tentação de escrever sobre esse assunto, tanto assim que depois de quase dois anos de “imersão” na vivência americana tal ignorância se transformou no meu tema principal, algo com que convivo intima e diariamente, para dizer o mínimo.

Foi uma semana crucial para mim. Imaginem que cheguei até mesmo a viralizar no Twitter — “até” sendo a palavra-chave desta crônica —, uma coisa inacreditável. “Viralizei” é modo de dizer, claro, mas acho que dá para entender a importância que ter seus tuítes curtidos e retuitados mais de 50 vezes pode adquirir para uma simples estrangeira pretensiosa como eu.

Bem que eu deveria ter imaginado que meu “agudo senso de observação” não poderia ter simplesmente desaparecido só porque viajei alguns milhares de quilômetros, embora eu venha sendo consistentemente encorajada a me perceber como uma pessoa inferior, de segunda classe, dotada de algum tipo de consciência estrangeira defeituosa e irreparável.

E tudo isso começa em casa, é claro. Entendo muito bem que estou bem longe de entender este país, cuja história, tradições e sutilezas linguísticas praticamente continuo desconhecendo. O idioma inglês, só para dar um exemplo, conta com mais de um milhão de palavras, para nem mencionar que não existem regras para soletrá-las, é tudo estabelecido de forma “aleatória”.

Parafraseando Obama em seu pronunciamento em Dallas, no início desta semana louca, ser imigrante no primeiro mundo é uma experiência que “evoca a humildade”. E humilde eu me sinto, pior, me sinto esmagada, verdadeiramente humilhada quase o tempo inteiro. Meu marido americano, por exemplo, um sujeito de muito brilho e pouca compaixão, faz questão de enfatizar as minhas falhas, o que, francamente, costuma me tirar do sério. Diariamente. Morro de raiva dele. Morro de raiva de mim mesma, mas sacudo a poeira e dou a volta por cima, fazer o quê.

Por todo lado que se olhe, nestas últimas semanas, impera uma sensação perigosa de medo, de raiva, de revolta, justificada ou não. Cá do meu canto acredito firmemente que toda essa febre reativa que nos contamina na rede social apenas reflete um vazio, uma carência em nossas vidas pessoais — na minha, pelo menos, ou talvez tudo isso não passe de mera sensação. Enfim, tive um gostinho desse estado de coisas esta semana no Twitter: basta a pessoa se expor um pouquinho para tocar um nervo exposto na multidão.

Mantidas as devidas proporções, não sou nenhuma exceção. Mas, vamos combinar, embora até já tenha tentado, ainda não matei ninguém (percebam que esta crônica foi escrita antes do atentado de Nice, tragédia da semana que vem), meu “calcanhar de Aquiles” neste momento sendo a obra da nossa casa em Paris Mountain. Como vocês bem sabem, além de escritora e editora sou também arquiteta formada — formada no Brasil, o que logo de cara me qualifica como “incompetente”, sabem como é. Então perco totalmente o controle quando o Alan tenta me convencer de que “não sei me comunicar com os americanos”, e quanto mais o tempo passa, e a obra atrasa, vou ficando cada vez mais irritada, frustrada, dada a impulsos cada vez mais violentos. No último fim de semana, por exemplo, quando ele me disse que eu “não podia ir à reunião no terreno porque só iria atrapalhar”… virei bicho, fiquei fora de mim. Gritei com ele, chorei, solucei, e aí atirei nele a faca de manteiga por cima da mesa do café. Acertei na testa do pobre coitado!

Quem seria essa mulher maluca? De onde viria toda essa violência? Aquela bruxa não podia ser eu, uma dama sofisticada, culta e super bem-educada. Fiquei com uma vergonha danada, um provável efeito colateral de tanta humildade sendo empurrada o tempo todo para cima do meu orgulhoso self despedaçado, se é que vocês me entendem (“pô, Noga, para de usar essas expressões superbatidas, não aguento mais isso”, reclama o meu marido internalizado, usando um tom francamente entediado).

Enquanto isso, eu cá do meu lado me esforçando ao máximo para fazer este texto progredir, travamos o seguinte diálogo, Alan e eu, ele como sempre tentando me distrair com seu costumeiro excesso acachapante de informações que me derruba toda vez que eu expresso alguma dúvida quanto ao uso do inglês, ufa, apesar de eu reclamar dizendo que preciso me concentrar:

— O que estou dizendo é obra de gênio, o que você está escrevendo é puro ego.

CQD. Que cretino! Que idiota!

Agora de volta ao meu sucesso recente: meus 15 segundos de fama no Twitter (e mais alguns novos seguidores) deslancharam finalmente quando publiquei um comentário maldoso — “você está cheia de ódio”, alguém tuitou — sobre o errático comportamento do presidente Bush na cerimônia de Dallas, um evento fúnebre onde dançar não parecia ser nem um pouco permitido. Bush estava se esforçando ao máximo para convencer Laura e Michelle a dançar com ele, mas não estava dando nada certo. Não se tratava ali daquele tipo de procissão típica de um enterro jazzístico, ou de um emocionante filme de Akira Kurosawa, e a lúgubre seriedade exibida em torno do ex-presidente deixava isso bastante claro.

“Fico só imaginando se Bush estava bêbado na cerimônia fúnebre em Dallas”, tuitei sem hesitar. “Ele estava dançando ao som de ‘glória, glória, aleluia’!”

Et voilà, minha ignorância patriótica emanou cintilante dos meus 140 caracteres brilhantes, que imediatamente se voltaram contra mim: “@nogasklar (o ‘imigrante estúpida e ignorante’ ficou apenas na sugestão), trata-se do ‘Hino de Batalha da República’”.

Vamos combinar: a rotina diária de uma exilada recém-chegada é uma ilha de conquistas irrelevantes cercada de reações humilhantes por todos os lados, não importa se se trata do supermercado, ou de uma conversa sem jeito com o seu empreiteiro, ou, pior ainda, de escrever em inglês sendo não-nativa. Então fui ao Google humildemente, para chegar à interessante conclusão de que a mesma canção era igualmente conhecida como “Estes olhos viram a glória”, também tendo enfrentado umas duas ou três paródias maldosas, sendo uma delas bastante racista, a “Canção de John Brown”, na qual um negro é pendurado e enforcado durante a guerra civil. Tudo bem, melhor mesmo parar por aqui. E neste ponto, inspirada pelo comentário de um outro seguidor no Twitter — que, por sua vez, me acusou de estar bêbada também —, cometi um trocadilho intraduzível envolvendo “porre e perjúrio”.

Achei engraçado os conservadores que me leram no Twitter terem chegado rapidamente à conclusão de que eu era esquerdista, uma convicta obamista, determinada a fazer pouco do último presidente republicano custasse o que custasse. Enfim, deixa estar para ver como é que fica.

No final das contas, acabei aprendendo uma coisa ou duas sobre a incrível sociedade americana, desta vez sem nenhuma ironia: na noite daquele mesmo dia, assisti na TV a um documentário sobre a Casa Branca que evocou de verdade a humildade, não somente por conta da coragem e da importância que se pode depreender da história americana, mas também da indiscutível capacidade que tem este país de se mostrar (ou “se vender”?) para o resto do mundo, algo que, infelizmente, tem estado meio esquecido nesta assim chamada “Era Obama”.

Vida longa ao sonho americano, porque o mundo inteiro estaria pior sem ele.

[1] Não se trata aqui da fórmula “politicamente correta” de expressar feminismo, Deus me livre e guarde, mas, simplesmente, do fato de que o editor que escreveu isso é anônimo, trabalha num portal de edição, portanto não dá pra saber se a figura é homem ou mulher.

publicado também aqui:kbr-k.fw

Gente de segunda classe

obama-clinton-campaignPalavras? Música? Não: é o que há por detrás.
James Joyce, Ulysses

 

Esta semana, um amigo me disse assim, na lata, que se “eu quisesse influenciar o eleitor americano, primeiro precisaria conhecer o eleitor americano” (grifamos). Ele acabou de publicar um livro com este mesmo objetivo, mas, pô, peraí. Não tenho a menor pretensão de “influenciar” americano nenhum, como poderia? Até agora tenho cortado um dobrado para minimamente entender o “American Way of Life” — que extrapolando um pouco eu definiria como “loucura americana” — e me daria por perfeitamente satisfeita se minha (muitas vezes chocada) reação ao que acontece nos EUA provocasse algum espanto. Ou algum interesse pelo que escrevo.

Bem que eu pensei em intitular essa crônica “Cidadãos de segunda classe”, mas, vamos combinar, estou longe de chegar a esse ponto. Sou bem menos que uma cidadã nos Estados Unidos, algo que poderá mudar ou não no espaço de uns dois anos. Quer dizer, se eu me “comportar” direitinho a estudar a História americana, aprender quantas estrelas tem a bandeira e por aí vai, além de, é claro, aprender a falar inglês direito.

História? Inglês? De que diabo estou falando, afinal?

Hoje, pelo menos, acredito que muitos americanos estão tão confusos quanto eu por conta da prova definitiva de que existem em torno de 300 milhões de “pessoas de segunda classe” nos Estados Unidos, isso mesmo. Se os Clintons são gente de primeira classe e estão acima da lei (o que, ironicamente, me lembra um dos slogans de Donald Trump, supostamente também adotado pela “supremacia branca”: “América em primeiro lugar”), então todo o resto, com a exceção de Obama e alguns de seus “asseclas”, é na verdade gente de segunda classe: eu, você e qualquer um que a gente puder lembrar assim de repente. O que inclui até Donald Trump, o infeliz bilionário que achou que estava podendo, e até ousou sonhar para si um futuro político.

Abrindo um parêntese: já pensaram como vai ficar a “Marca Trump” depois que ele for derrotado nas próximas eleições? Coitado. Vai acabar numa situação pior do que a minha.

Todos esses pensamentos me vieram à cabeça quando assisti ao pronunciamento de James Comey, diretor do FBI, referente à exaustiva investigação sobre os e-mails de Hillary Clinton, a mesma exata questão que já faz um tempão Bernie Sanders considerou desprovida de interesse. Vai daí que Hillary não vai mais ser indiciada, e lá se vai o sonho dourado dos conservadores (e de alguns independentes) nesta eleição presidencial americana.

— Não se precipite — Alan me aconselhou. — Vamos dar um tempo e ver o que rola.

E ele pode muito bem estar com a razão. O depoimento de Comey acabou saindo tão parecido com uma condenação que até o New York Times o descreveu como um “anúncio de ataque por encomenda”. Que Donald Trump, por sinal, rapidamente metabolizou num vídeo viral.

Tá certo. Certas coisas são difíceis de se negar. O lado bom disso tudo para a Sra. Clinton, afirmou o jornal, é que “este não é um ano eleitoral como os outros”, claro que não. Alguém fora do espectro político tradicional ousou desafiar os poderes estabelecidos — e a Sra. Clinton — embora esta pessoa, vamos combinar, não esteja se dando tão bem assim. Além do mais, as pessoas esquecem rápido. Tudo depende de quanto dinheiro for investido no tal anúncio de ataque e na velocidade com que Donald Trump conseguir finalmente “agir como um presidente”, o que não deve ocorrer tão cedo, aparentemente.

Numa jogada espetacularmente bem orquestrada (Abertura: Loretta Lynch, procuradora-geral americana, encontra Bill Clinton na pista do aeroporto em Phoenix, Arizona; Adágio: Hillary Clinton é interrogada pelo FBI num sábado de feriadão, 3 de julho; Minueto: James Comey, do FBI, lê seu depoimento ao vivo na TV; e Alegro, con Brio: Obama e Hillary fazem campanha juntos na Carolina do Norte), Obama embarcou numa jornada patriótica para eleger Hillary e assim proteger seu amado “legado”. Afinal de contas, ela tampouco estava se dando tão bem assim por conta própria.

Testemunhar os dois luminares atuando juntos foi um espetáculo de primeira. A inegável sabedoria política de Hillary (sem a qual ela não teria chegado onde chegou), agora com o reforço do inacreditável, nunca antes visto carisma de Obama, nos proporcionou uma experiência exaltadora. O presidente, a princípio, parecia meio entediado, sentado no pódio um pouco atrás da candidata enquanto ela descrevia as incríveis aventuras por que ambos haviam passado, pilotando lado a lado o avião teleguiado da política americana (só fico pensando quantos de seus aparelhos digitais ela teria usado para atingir seus alvos remotos). Mas quando foi chamado à arena, Obama não decepcionou, entrando instantaneamente na pele do personagem que ele encarnou com rara perfeição, instigando a plateia sedenta: “Hi-lla-ry! Hi-lla-ry!”

Ela olhava para ele com franca adoração (nem estou exagerando, juro) enquanto ele a descrevia como a “pessoa mais preparada, homem ou mulher, que jamais concorreu à presidência dos Estados Unidos”. O presidente foi em frente, passando a contar para o público em delírio como ela estava sentada ao lado dele na sala reservada da Casa Branca, enquanto a equipe assistia aos soldados americanos finalmente eliminarem bin Laden do outro lado do mundo. Um momento inesquecível. Menos de duas horas antes esse mesmo comportamento admirável — o “jeito com que Hillary lidou com informações altamente secretas”, de acordo com o FBI — tinha sido descrito pelo investigador-chefe como “extremamente descuidado”. Qual versão deveríamos acatar? Como uma recém-chegada, que admira os EUA enquanto nação baseada na lei — em franco contraste com o Brasil, temos que admitir — me senti decepcionada, para dizer o mínimo. Isso, para nem mencionar a “busca da felicidade”, conforme determina a constituição americana. Foi quando as minhas esperanças começaram a se esvair.

Só fui entender cem por cento a seriedade e as consequências dessa situação, digo, desse descuido de Hillary, quando escutei na Fox News (tudo bem, “mídia direitista”) que ela agora estava vulnerável a todo tipo de chantagem e outros violentos ataques de hackers — gente que, infelizmente, não admira os Estados Unidos do jeito que a gente gostaria. Fico cá comigo imaginando se o povo realmente entende tais implicações.

Nesse meio tempo, não muito longe dali, Donald Trump capitaneava seu próprio comício em resposta ao tão ansiosamente aguardado depoimento do FBI. Que, por sinal, todo mundo, incluindo o meu amado marido, esperava que terminasse de outra maneira, isto é, recomendando o indiciamento de Hillary. Mas, aparentemente, a “magia” de Trump tinha desaparecido, eclipsada pelo charme cintilante de seus competidores, que crítica nenhuma, por mais ferina, conseguiria dirimir. Embora desse para perceber alguma verdade no que ele estava falando, tudo aquilo soava mais como um blábláblá meio sem sentido. Duvido muito que o público presente estivesse prestando atenção.

Devo admitir que meu principal motivo para apoiar Trump é seu estilo direto, seu vocabulário franco que até mesmo gente de segunda classe como eu consegue entender. Isso mesmo: como imigrante, me sinto como uma pessoa de segunda categoria quase o tempo inteiro, independentemente de estar satisfeita ou não com o rumo dos acontecimentos. Embora, é claro, pudesse ser muito pior: se eu fosse ilegal, seria uma pessoa de terceira, quarta, quinta categoria, o tempo todo assombrada pela ameaça da deportação. Coisa que, aliás, é bem menos frequente do que eu tinha imaginado.

Na verdade, esses meus pensamentos de segunda categoria — agora, ainda por cima, com um viés de direita — têm aumentado consideravelmente esse meu mal-estar do qual um dia espero me livrar. Contanto que prove estar certa em alguma medida, de preferência com referência a algo bem crucial, como, por exemplo, acertar com antecedência o resultado das eleições americanas. A pressão da oposição é tão forte que mesmo quando “a gente” ganha, a gente perde, e fica o tempo todo se reexaminando, como no caso do Brexit, por exemplo. Tem que ter muito peito para ir contra esse bem aparente tão convincente exibido pela esquerda. E ainda por cima com esse charme todo.

Francamente, Donald Trump pode no final não ser a oportunidade ideal para a gente se fazer ouvir, mesmo que as ideias contidas no tal “legado de Obama” sejam tão assustadoras e seus resultados concretos tão perigosos para o mundo.

Andam dizendo que existe um “movimento mundial” contra os políticos tradicionais, o que, em tese, favoreceria a escolha de não-políticos para cargos importantes. Mas, comparada às altamente sofisticadas técnicas da política partidária, a verdade nua e crua parece difícil demais de aceitar. Isso, sem nem mencionar o fato de que a verdade sempre nos escapa, não tem nada de “evidente”, ao contrário do que afirma a Constituição dos Estados Unidos, mais ainda num mundo como o nosso, que se tornou tão complexo. Lidar com essa verdade custa tempo e esforço, e a nossa tendência em geral é de deixar pra lá, e deixar a vida rolar.

E imaginem que ainda nem mencionei uma outra tendência mundial apontada esta semana pela BBC, desta vez com relação a mulheres no poder — mulheres como Angela Merkel, a provável nova primeira-ministra inglesa Theresa May, Hillary Clinton… mas também a arrepiante Marine Le Pen da direita francesa e a nossa incomparável, inesquecível Dilma Roussef, que entrará para a História como aquela que derrubou o Brasil de uma penada só. Cuidado!

Caramba, que traidorazinha desprezível, hein… descrevendo meu próprio (e estável) gênero desse jeito degradante! Que vergonha!

Pois é. Tudo como d’antes no quartel de Abrantes. Vamos ver aonde esse sofrimento sem fim vai acabar nos levando. Para me consolar, fico o tempo todo lembrando a mim mesma que, não importa o resultado das próximas eleições, teremos de qualquer maneira alguns netos judeus brincando na Casa Branca no ano que vem. Muito bom.

A grande farsa da paz

brexitNuma terrível manhã de setembro no Rio, em 2001, eu estava assistindo à TV no vestiário da academia quando houve um vago alerta de que algum acidente havia ocorrido.

— O que aconteceu? Caiu um avião? — perguntou a Odete, muito preocupada. Seu marido estava nos EUA em viagem de negócios.

Entramos em pânico na mesma hora. Corri para casa, larguei as compras no chão da sala e disse à minha mãe:

— Tem algo acontecendo, liga a TV!

Ainda conseguimos ver ao vivo quando o segundo avião bateu.

— Ai, meu Deus. Ai, meu Deus — era tudo o que eu conseguia dizer, antes de cair no choro. O mundo como o conhecíamos tinha acabado.

Nas horas que se seguiram, o desastre nos afetou pessoalmente. O pecúlio da minha mãe, herdado do meu pai, estava em boa parte investido em ações do Bradesco, que simplesmente desabaram em questão de minutos. Nossos bens tinham desaparecido. Não sabíamos o que fazer. Não havia mais um claro futuro à frente, e não estou me referindo à economia. Estúpido.

Hoje, terrorismo e economia se juntaram novamente na mesma semana de notícia aterrorizantes, tudo bem, o terrorismo não estava em pauta até terça-feira. Só que estava, sim. A onda imigratória que trouxe consigo o medo de terrorismo e da competição por empregos e salários foi a verdadeira motivação por trás do Brexit, pelo menos é o que estão dizendo.

— O ataque terrorista na Turquia foi ontem ou anteontem? — perguntei para o Alan, enquanto começava a escrever a crônica.

Vocês hão de concordar comigo: tem sido um desafio para uma pessoa comum seguir as notícias atualmente, quando o mundo parece de repente ter virado de ponta-cabeça.

Fui a favor da saída da Inglaterra, devo confessar, nem sei bem por quê. Apenas senti que algo precisava mudar. E apesar do choque inicial da “vitória” — exatamente como outros “separatistas” nunca esperei que a opção vencesse —, agora posso ver a mim mesma e às minhas dúvidas sob um viés mais positivo, mais coerente.

No Brasil, eu já vinha presenciando um fenômeno interessante, uma espécie de cisão mental demonstrada por membros da nossa intelligentsia que, como esquerdistas tradicionais, não conseguiram suportar a corrupção e os descalabros que tomaram conta do país: apesar de terem ousado se opor ao governo hoje afastado por absoluta falta de opções, continuavam insistindo num programa esquerdista falido quando o assunto era a situação global.

Não era o que eu estava experimentando. Desde que me mudei para os Estados Unidos, acabei enrolada numa onda conservadora à qual não consegui resistir, correndo o risco de me afogar num mar de impossibilidades futuras. No que se refere ao meu próprio futuro e também, ouso afirmar, ao futuro da humanidade.

Mas como é que é?

Claro que nada sei sobre o futuro da humanidade! Que coisa mais absurda!

Meu marido Alan, admito, tem andado obcecado com o passado criminoso de Hillary Clinton, e tenho sido obrigada a conviver com isso.

— Alan, para de me mandar tantos artigos. Não tenho tempo de ler tudo, preciso trabalhar e já passa de meio-dia!

Por outro lado, já passei dessa fase de me submeter à pressão, já consigo tirar minhas próprias conclusões, pesquisar por minha própria conta e agir quase como uma adulta neste vasto e malvado mundo. Embora, é claro, não tenha me tornado uma “especialista”. Continuo sendo uma pessoa normal, mediana, que consegue perceber, “sentir o astral” e se identificar com os últimos acontecimentos — em geral, na base da percepção, não da informação.

Será o bastante? É claro que não.  Por outro lado, analistas e especialistas me parecem bem perdidos na atual situação, fala sério, apegados às suas próprias ilusões sobre (onde está) o (verdadeiro) poder. Acho engraçado que, num mundo onde reina a “diversidade” no que se refere ao gênero e às políticas imigratórias, a necessidade que as pessoas têm de preservar suas peculiaridades — coisas que as tornam originais, únicas, habitantes típicos de seus países também únicos — tem sido largamente ignorada. Sinto saudade daqueles velhos tempos em que, viajando de férias pela Europa, atravessávamos em poucos dias uma incrível variedade de culturas, uma diversidade impressionante que o suposto conceito de “um mundo unificado” está tentando diminuir, ou, pelo menos, controlar. Estamos ficando pasteurizados, padronizados. Que chatice.

Então me pergunto: por que dois pesos e duas medidas? Por que cargas d’água, neste mundo que valoriza tanto a liberdade, algumas pessoas têm maior liberdade de escolha que as demais? Menos poder de decidir sobre suas próprias vidas, sendo forçadas a engolir mais obrigações do que podem entender, ou digerir?

Parece que andamos criando o nosso próprio inferno. É coisa demais da conta para esta simples estrangeira (ui, preconceito), demais da conta até mesmo para uma escritora que pratica seu ofício à margem da “norma progressiva” — uma posição difícil de qualquer lado que se olhe, mais a eterna cobrança interna de “acertar” o tempo todo.

Enfim, não importa o que digam os especialistas, o mundo entrou num período de mudança, e o melhor a fazer é manter a calma, dar uma chance aos fatos, porque, vamos combinar, nossa ansiedade não vai facilitar nada. Pior ainda, num mundo onde todo mundo tem direito à própria opinião, esse “todo mundo” não deveria se limitar a uma percentagem do todo: os que conseguem fazer mais barulho. A “maioria silenciosa” vai acabar se manifestando, na verdade isso já está rolando, é isso mesmo, aquela gente horrorosa que estava sendo discriminada por conta de seu “racismo”, “isolacionismo”, “preservacionismo sexual”. Quem inventou tantos conceitos, afinal, e em seguida os transformou em regra geral?

Toda vez que os padrões de um pequeno grupo são impostos à maioria, pode-se esperar confusão. Precisamos proteger as minorias. Precisamos aceitar os refugiados. No entanto, os que essas categorias “móveis” estão buscando é justamente uma qualidade de vida privilegiada que vai acabar desaparecendo, caso o lugar e a cultura almejados não consigam integrá-los satisfatoriamente. No final das contas eles não vão conseguir o que estão querendo, e também por isso se deveria buscar a moderação. Por falar nisso, é o que espero como resultado final do Brexit: mais moderação e menos obrigação.

Devo confessar que, na verdade, o que chamou minha atenção nesse caso do plebiscito inglês foi um alerta que li no Twitter, escrito por uma mulher e denunciando um movimento para a implantação da Lei de Sharia na Europa. Foi o que me apavorou, pensem bem:  menos de 140 caracteres decisivos motivaram minha escolha de que lado “apoiar”.

Quanto ao pânico dos mercados, já começou a se acalmar, exatamente como ocorreu em 2001. Depois que a poeira baixou, seguiu-se um período de crescimento, e as ações da minha mãe não apenas se recuperaram, mas excederam seu valor original. Apesar disso, a ideia de que vivemos num mundo perigoso só tem feito crescer desde os ataques de 11 de setembro, e algo precisa ser feito quanto a isso.

Não acredito num mundo sem fronteiras. Não gosto da ideia de ser invadida em minha própria casa, e não acho que isso seja um crime: trata-se apenas de uma vontade, baseada no bom senso, simples assim. Não acredito numa Europa fortemente centralizada, num poder central superior ao nacional como condição para a paz e a prosperidade, simplesmente porque se trata de uma falsa premissa. Como se viu recentemente, tendo a opção de escolher pela preservação de seu espaço individual, as pessoas optarão por isso. Quando se fala de limites pessoais e bem-estar geral, o ditado “pense globalmente e aja localmente” deveria ser interpretado como “mantenha a sua integridade física ao se relacionar online com o mundo inteiro”. O mundo sem fronteiras deveria se limitar ao “inconsciente coletivo” materializado, simbolizado pela internet — uma troca de conhecimento e informações benéfica para todos e para o progresso geral —, mas sempre preservando um senso de privacidade real e bastante crucial.

Essa ideia de oferecer um plebiscito ao povo inglês foi analisada como um “passo em falso” do primeiro-ministro Cameron, tendo em vista que o resultado final acabou prejudicando suas ambições políticas. Apesar das manobras, dele e de seu partido, a história tinha outros planos, bastante surpreendentes. Na minha opinião, essa ideia de paz vinculada a um mundo sem fronteiras é na verdade uma “paz em falso”, ops, desculpem. A paz precisa vir de dentro. Numa perspectiva de longo prazo, jamais poderá ser imposta, muito menos se tal imposição vier de cabeças pensantes desvinculadas das realidades de cada um, ideias cheias de “boas intenções teóricas” que tenham pouco a ver com o cotidiano de gente simples e desprezada, que insiste em seguir vivendo suas vidinhas descomplicadas.

As pessoas não querem isso, e ponto final. Pode ser que a ideia de ouvi-las não seja tão má, afinal, Depois do choque inicial, “cuide da sua própria vida”, “pense no bem-estar da sua família” e “o desejo da maioria” talvez não sejam noções tão bobas e equivocadas como querem os “líderes do mundo moderno”. No final das contas, pode até ser melhor para todo mundo, quem sabe.

Parafraseando a Rainha Elizabeth, esta semana, em visita à Irlanda do Norte: Podemos até nos manter calados, mas “ainda estamos vivos”.

Política de proveito próprio

hillaryConforme revelado na semana passada, uma antiga rival de Hillary na busca pelo amor de Bill está saindo do armário de forma bombástica: “Hillary Clinton certa vez chamou crianças deficientes numa festa de páscoa de ‘retardados desgraçados’, referiu-se aos judeus como ‘judas idiotas’ (desculpem, mas não consegui encontrar em português um termo tão pejorativo para descrever os judeus como o que Hillary usou: ‘kikes’),  enquanto Bill chamou Jesse Jackson de ‘crioulo filho da mãe’” são alguns dos “temas” que ela apontou em seu livro recentemente publicado.

No início desta semana, por conta de uma reunião, fui correr mais cedo que o de costume, e em vez dos costumeiros restos humanos da série “Bones” fui forçada a assistir outra série que hoje em dia acho sem sentido, “Supernatural”. O episódio estava na metade, e como não assisto nunca, não dava para entender, só pela aparência, quem era mocinho e quem era bandido na eterna batalha entre o bem e o mal. A certa altura, um dos personagens disse o seguinte: “Bem que eu te avisei que ela era do mal. Você devia ter me escutado. Agora é tarde, estamos lascados. Vai ser um inferno!” Literalmente.

Quando eu era jovem, chegada à espiritualidade — me considerava uma “xamã” e criava “joias de poder”, podem acreditar — e inclinada para o lado da esquerda — que para mim era obviamente o “lado certo” — fiz um juramento para mim mesma de nunca mentir. Funcionou por um tempo, mas tive que cortar um dobrado para me desvincular da minha educação: minha mãe sempre me ensinou que uma “mentirinha carioca” não faz mal a ninguém; e uma tia que sempre considerei minha segunda mãe fez o que podia para destruir minhas “iluminadas” ilusões, afirmando que “neste mundo, só o dinheiro importa”.

Minha tia finalmente venceu. Esta semana, imaginem, fiquei com preguiça de sair lá fora para “comungar” com a Lua Cheia do Solstício. No final das contas, é só mais uma lua cheia.

Tudo bem. Como já insinuei mais acima, meu “juramento” não durou muito. Em certo momento tive uma experiência definitiva, enquanto trabalhava como diretora de arte numa agência de publicidade, numa reunião do tipo “comunitária” que estava na moda naquela época — capitaneada, aliás, pela hoje famosa Regina Navarro Lins, aquela do “poliamor”. Regina nos encorajou a dizer qualquer coisa relativa aos colegas de trabalho que estivesse nos incomodando. Fui a única ingênua o bastante para dizer o que estava sentindo.

Foi um desastre. Embora popularidade nunca tenha sido o meu forte, depois das minhas desajeitadas confissões fiquei mais impopular ainda. Minha presença se tornou insustentável, e acabei saindo da agência.

Hoje em dia, sem nenhum juramento para perturbar, fico à vontade para dizer o que quiser do jeito que eu quiser. Mas ainda luto para desviar o olhar daquilo que considero verdadeiro. Em geral prefiro ser honesta, mas, vamos combinar, isso não tem me ajudado muito. Principalmente se considerarmos que preciso ganhar dinheiro.

No Brasil, país que deixei para trás numa imensa crise política e econômica — eu deveria acrescentar “moral e ética”, mas acho que não daria para suportar —, seria bem fácil entender quem estava do “lado certo”, apesar do barulho feito pela esquerda, “esquerda retrógrada”, como se diz em inglês. Seria impossível para uma pessoa bem-intencionada ter dúvidas sobre se os que são culpados de uma monstruosa corrupção, lavagem de dinheiro (não é de espantar que a ação da Polícia Federal que os está desbaratando seja chamada de “Lava-Jato”) e, pior, de levar o país à bancarrota, são ou não os “caras certos”. Mesmo que a tendência de muitos, particularmente os intelectuais e especialistas, seja para a esquerda, e apesar de a “receita” deles estar claramente falhando. No mundo inteiro.

Entretanto, agora que estou fora de casa, sozinha no imenso e malvado mundo — honestamente, eu não esperava que fosse tão malvado — as coisas já não parecem tão claras. E apesar de me sentir compelida a observar, analisar e emitir minha desinformada opinião terceiro-mundista, estou bem consciente do meu conhecimento insuficiente, do choque que sinto ao ser todos os dias confrontada com a hipocrisia, de minhas surpreendentes reações automáticas que sinto vergonha de compartilhar no Twitter. O que, é claro, faz de mim uma hipócrita a mais.

E aqui estamos. Esta é uma semana crucial para o destino do mundo, com a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia. O resultado parecia duvidoso, principalmente depois do indubitavelmente horroroso assassinato da parlamentar inglesa Jo Cox, que tornou todas as opiniões contrárias ao que ela advogava monstruosamente erradas. E mesmo que eu tenha poupado os meus leitores da minha opinião politicamente incorreta, por conta da qual eu mesma me odeio até esquecer que existo, ainda assim a saída da Europa venceu o plebiscito.

Como uma eterna estrangeira neste imenso e malvado mundo, me sinto como um morcego, voando no escuro e contando apenas como a minha bússola interna para me orientar. E pior, prestes a me transformar em vampiro. Infelizmente, essa tétrica escolha não é exclusividade minha. O famoso Airbnb, por exemplo, considerado a “joia da coroa da nova economia”, está sendo asperamente criticado porque alguns de seus associados se recusam a alugar suas casas para certos pretendentes; mas, vamos combinar, ninguém pode ser forçado a receber em sua própria casa alguém de quem não goste. No campo do social, pega mal denunciar alguém com base em suspeita de “raça”, mas, por outro lado, se o FBI não tivesse dispensado a ficha de Omar Mateen, o ataque de Orlando talvez não tivesse ocorrido. Morcegos. Vampiros. Sabem como é.

Voltando a Hillary: no final das contas, você votaria numa pessoa que oculta seu racismo para conquistar o voto dos “moralmente superiores”? Ou seria melhor votar em alguém que usa em seu discurso um racismo que não sente, só para conquistar o voto da escória americana? Escolha difícil.

Enquanto isso, correndo na esteira (a uma velocidade bem superior do que na verdade aguento, devo admitir), escrevendo este texto na cabeça e assistindo a “Supernatural”, tudo ao mesmo tempo, não admira que acabei me distraindo e nem percebi quem venceu a honorável batalha do bem contra o mal. Super natural, não é? Acontece o tempo todo no nosso multitarefa, palpiteiro e excessivamente conectado mundo sem fronteiras, e muito menos limites.

***

Uma nota: embora a crônica já estivesse pronta com o título “Todo mundo mente”, acabei inspirada pelo slogan de Donald Trump num de seus discursos esta semana, no qual ele acusou Hillary de praticar a “política do proveito próprio” enquanto estava a serviço do país como secretária de Estado do governo Obama. Francamente, nós, brasileiros, podemos ensinar aos americanos uma coisa ou duas a respeito dessa tal política, que de um jeito ou de outro sempre termina mal.

De volta para o futuro

twitterDe volta aos dias tenebrosos nos quais mamãe estava apenas começando sua longa luta contra o alzheimer (com minúscula, por favor) contando histórias delirantes, versões recentes de seu passado, me lembro de ter me espantado quando descobri que tudo que ela dizia tinha um forte aspecto negativo. Tentei entender. Se ela estava de fato reinventando sua vida, por que não fazê-la melhor do que tinha sido? Ao contrário, fazia questão de afirmar que eu a odiava, que eu e meu irmão nos odiávamos mutuamente; tenho até uma vaga lembrança de ela ter deplorado seu casamento com meu pai, que eu sempre acreditara ter sido perfeito. (Prefiro deixar quieta a memória de meu pai como um homem maravilhoso. Que ele descanse em paz. E ela também.)

Lembrei-me dessas histórias tristes enquanto refletia sobre o estado deplorável em que se encontra a nossa sociedade contemporânea. Por que, quando e como nos tornamos tão negativos? Tão violentos? Parece que uma nuvem negra de pensamentos flutua permanentemente sobre as nossas cabeças; de vez em quando, alguém pega um deles e o materializa. Na falta de motivo melhor, pelo menos para justificar nosso extremo mal-estar com a civilização, algo que Freud detectou já em 1929, ano em que nasceu minha mãe — a coincidência chamou minha atenção.

Comecei a escrever esta crônica pensando em criticar os celulares e a cultura da internet como as armas que na verdade nos ameaçam, possíveis responsáveis pelo problema da violência e da radicalização, mas com que objetivo, eu não saberia dizer. Nossas vidas, a minha incluída, são tão completamente dependentes desses avanços tecnológicos que não vejo um jeito de escapar, ou passar a evitá-los. E por que faríamos isso, afinal? É a natureza humana que se mostra intrinsecamente má. Olhe em volta e você verá como sempre damos um jeito de avacalhar nossas melhores conquistas e criações. A mente doente de mamãe nada mais é do que um bom exemplo dessa tendência. Tudo bem, admito, devo estar com um humor de cão.

Vocês acreditam que a culpa é do islamismo? Acreditam que o islamismo (radical) deve ser tachado de ultrapassado, atrasado, uma cultura medieval que nunca deveria ter saído da gruta da Idade Média onde foi criada?

Eu sim. No entanto, para minha surpresa, estava com Alan no carro quando ouvimos uma entrevista sobre como a lei islâmica, a Sharia, foi na verdade imposta aos países muçulmanos há bem pouco tempo. “Nos anos 1950”, escutamos, “as grandes cidades do Oriente Médio eram cosmopolitas, animadas, suas mulheres vestidas do mesmo jeito que todas as demais mulheres do mundo, uma liberdade total”. Incluindo uma comunidade gay em Alexandria, por exemplo, um fato que o entrevistado corroborou citando a “Série Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell (acrescentei “Série” para soar mais moderna, embora, aparentemente, o Médio Oriente, com a óbvia exceção de Israel, fosse bem mais moderno naquela época). Durrell entendia do assunto, já que foi adido de imprensa da Embaixada Britânica no Cairo e em Alexandria durante a Segunda Guerra.

Então, o que aconteceu, e como? Se eu pesquisasse a fundo certamente descobriria, mas não é esse o meu objetivo. Só quero saber por que, no final das contas, estamos sempre prontos a desistir da esperança e da felicidade. Como é possível que estejamos tão comprometidos com a desgraça e nos deixando contaminar por ela?

Outra coisa interessante é que temos a tendência a acreditar na primeira “versão da verdade” com que nos deparamos, coisa que entendi bem melhor quando comecei a usar o Twitter… na semana passada. Além de nos sentirmos sufocados pela quantidade de tuítes (não acredito que com vocês seja diferente), somos também afogados por um tsunami de mensagens equivocadas que entram direto na nossa psique, de onde dificilmente serão erradicadas. Et voilà, lá vamos nós levados a acreditar em falsas afirmações que nunca deveriam ter visto a luz da tela.

Entendam, não estou insinuando que as pessoas mintam no Twitter, não é isso (a não ser algumas poucas, é claro). São apenas mal informadas, porque acho impossível que qualquer pessoa possa ter uma noção clara de um acontecimento que envolve múltiplos fatores uns cinco segundos depois de ter ocorrido. Parece haver um tipo de concorrência para ver quem tuíta ou retuíta primeiro, e ninguém se incomoda com a exatidão da informação (um exemplo simplista e irrelevante é o fato de terem anunciado a princípio que 50 tinham morrido no ataque em Orlando, quando o real número de mortos foi de apenas 49). “Apressado come cru”, tentei explicar sem sucesso no meu texto em inglês; a tradução mais adequada seria “Só os idiotas se apressam”.

Quem são então esses idiotas?

Um exemplo mais irrelevante ainda, mas crucial para mim, é que nos recusamos (você, por exemplo, que nunca lê o que eu escrevo) a ouvir a verdade quando é dita por alguém que não seja considerado um especialista, com milhões de seguidores nas redes sociais. Foi mais fácil espalhar a ideia de que atletas e visitantes seriam com certeza contaminados pela zika durante as Olimpíadas — por um tempo foi esta a “versão oficial” — do que dar um crédito quando escrevi que não tem mosquito no inverno do Rio, a atual “versão oficial” divulgada pela OMS. OMG!

Tarde demais para muita gente. Infelizmente, os Jogos do Rio estão prejudicados, assim como as aspirações de tantos atletas que treinaram intensamente por quatro anos, para os quais o Rio é a última oportunidade de uma medalha. Azar deles.

Precisamos mudar nosso jeito de reagir, essa é que é a verdade, nossa disposição para aceitar tudo o que lemos na internet. Vamos combinar, só os idiotas aceitam as primeiras versões superficiais dos fatos, e só quem não pensa passa adiante esse tipo de desinformação que nos deixa em estado de alerta.

Não sou exceção. Também passo tudo adiante. Também passo os dias em estado de alerta constante. Mas ando tão cansada de estar sendo o tempo todo provocada que já estou prevendo como isso tudo vai terminar: mais cedo ou mais tarde vou decidir parar.

E aí? Vou fazer o quê? Não faço a menor ideia, meus amigos. Passo a vida na internet como todo mundo, e custo a imaginar uma solução para essa dura realidade, que, por sinal, só tende a piorar. Talvez o único jeito seja tentar controlar o que compartilhamos.

Não devemos acreditar em qualquer coisa que se propaga. Devemos aguardar até que o eco barulhento de tantos compartilhamentos se acalme, de preferência desapareça de nossas telas. Pode ser que depois disso estejamos aptos a debater os verdadeiros problemas, como a bandeira do ISIS nos celulares, possíveis deflagradores de ataques terroristas, como “revelou” Donald Trump — uma excelente metáfora, pensem bem.

Sei muito bem que comparei nesta crônica dois elementos que não têm nada, ou talvez tenham tudo a ver: nossa tendência a piorar as coisas e nossa disposição de compartilhar tudo, mesmo que seja apenas um palpite. Se pudéssemos mudar isso, pode ser que veríamos mais arte, mais beleza, mais amor nas redes sociais, em vez de tiroteios e ataques terroristas. Os autores desses horrores passariam então a ser exceção, limitados à sua insignificância e engasgados com sua própria obscuridade, jamais retuítados e solenemente ignorados. Mas, infelizmente, já fomos longe demais. E agora eles estão entre nós, usando as mesmas ferramentas de comunicação.

Por isso mesmo, é online que devemos declarar nossa guerra, lutar nossas batalhas de retorno ao nosso lado humano, já que o inimigo vive online como a gente. Através do dinâmico espaço das redes sociais, conseguimos finalmente driblar aquele filtro mental que Aldous Huxley descreve tão bem em As portas da percepção, um efetivo instrumento de proteção cerebral que deveríamos valorizar, em vez de desejar que ele desapareça de uma vez.

Saber demais, francamente não tem nos beneficiado em nada. Na verdade, andamos cegos e surdos, sobrecarregados de informação que nada significa e que mal conseguimos processar. No entanto, com a exceção de um Oriente Médio “irremediavelmente” rendido à lei islâmica, não se pode retroceder no tempo, e precisamos seguir em frente. Como? Diga aí quem souber.

E já que ninguém aguenta tanto sofrimento o tempo todo, vou contar uma história engraçada. Lembram que eu escrevi lá em cima sobre a entrevista no rádio? Pois é. Alan e eu estávamos indo visitar uma obra para conferir o trabalho de um empreiteiro que queremos contratar. O mapa estava no carro, e fui guiando o Alan passo por passo, prestando o máximo de atenção, eficiente como sempre, sabem como é. Depois de uns 50 minutos dirigindo, chegamos ao local, só que… não era lá. Havia dois mapas diferentes no carro, e eu tinha escolhido exatamente o mapa errado, dá para acreditar?

Só nos restava respirar fundo, dar meia volta, voltar a Greenville, e depois de atravessar a cidade prosseguir mais outro tanto na direção oposta até chegar ao lugar correto, depois de mais outra hora e meia dirigindo.

Conclusão: é preciso atentar o máximo possível para o mapa que estamos seguindo. Espero sinceramente que encontremos o nosso caminho. Tenho certeza de que vai nos levar para bem longe deste cada vez mais insensato mundo conectado.

Desafios

gorilla_and_baby“É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”, afirmou Hillary Clinton esta semana, em seu “discurso de vitória” como candidata oficial do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Um “passo histórico”, diriam alguns, sendo Hillary a primeira mulher nomeada por um dos (dois) grandes partidos americanos.

Pode até ser um grande passo para nós — imaginem: como imigrante, já me vejo integrada ao “povo americano” —, mas, vamos combinar: do ponto de vista global, fomos deixados muito para trás. Até mesmo o Brasil, terra onde cresci, já teve uma mulher na presidência, e todos sabemos como isso terminou. O que não muda o fato de que Angela Merkel, por exemplo, seja uma grande líder, com seus altos e baixos na briga europeia por um “mundo mais civilizado”. O que, por sinal, não está dando muito certo, para nem mencionar que no mês que vem a Comunidade Europeia estará enfrentando uma séria ameaça à sua existência, com a ideia da saída da Inglaterra e tudo o mais.

O que nos leva a concluir… coisa nenhuma. Apesar de ser muito incrível que as mulheres hoje em dia se sintam livres para se candidatar e até conquistar os postos mais elevados do Planeta, isso não quer dizer que serão mais eficientes, ou iguais, ou piores do que um homem na mesma posição. Há mal e bem, gente boa e gente má em todos os segmentos da raça humana, é isso aí.

Pois é, fiz de tudo para evitar o termo “minoria”, porque, afinal de contas, não faz nenhum sentido chamar de minoria o que constitui por volta de 50% da humanidade, não é mesmo? Isso também precisa mudar.

Voltando ao discurso de Hillary, eu nunca tinha escutado o ditado que ela mencionou (lembrem-se, agora sou estrangeira, sempre meio por fora, algo que Alan não cessa de me cobrar e de por isso me criticar), então fui rapidinho ao Google para me informar, e encontrei uma coisa ou duas.

Embora essa origem seja controversa, descobri que se trata de um provérbio africano, do qual Hillary, que na época era a primeira-dama americana, parece ter se apoderado para usá-lo como título de seu livro publicado em 1996, It Takes a Village (É preciso toda uma aldeia, não encontrei tradução para o português). Mais interessante foi ter encontrado uma “falsa citação”, muito popular, segundo a qual Hillary afirmou certa vez que “a função mais importante do Estado é ensinar, treinar e educar as crianças. Os pais têm papel secundário”.

Será que ela disse isso mesmo? Parece que não. Será que escreveu isso no livro que citei? Parece que não. Mas é fato que ela mencionou o ditado africano em seu discurso de vitória. Por que será? Fiquei intrigada.

Por que cargas d’água nós, mulheres, deveríamos defender qualquer tipo de ação governamental que no fim das contas nos seria prejudicial? Prejudicial para a nossa função de cuidadoras, um papel indispensável para a família humana?

É fato também que a ideia de deixar a tarefa de educar crianças entregue ao “Estado” é parte integrante do ideário socialista, uma ideia que resulta num maior controle dos nossos hábitos e comportamentos. Nos velhos tempos da criação do kibutz, em 1949/ 50, esse “uso da aldeia como cuidadora principal” era uma prática amplamente disseminada, à qual eu mesma fui submetida quando era bebê, já que nasci em Israel logo depois da Declaração da Independência, num kibutz da Galileia. Como se esperava que as mulheres estivessem tão disponíveis para o trabalho quanto os homens (não me lembro de jamais ter escutado nada parecido com “licença-maternidade” naquela época), o cuidado das crianças era confiado (não voluntariamente) a uma mulher específica, numa casa específica, onde todas as crianças viviam juntas. As mães compareciam algumas vezes por dia para amamentar seus filhos. Mas é importante ressaltar que, pelo que sei, tal prática não é mais generalizada hoje em dia.

Devo confessar que tentei atribuir minhas dificuldades nesta vida a esse começo atribulado. Afinal de contas, é de conhecimento geral que os primeiros três anos de uma criança são os mais importantes para o seu desenvolvimento. Apesar de que, no meu caso, “recriei” minha vida tantas vezes e tão completamente que não dá para garantir que esses três anos tenham realmente me moldado. Acabei indo a Israel e tentando entrar em contato com a tal mulher “encarregada”, que alguém descreveu como muito severa, mas também amorosa. Quando perguntei a ela que tipo de criança eu era, eis o que ela me respondeu:

— Você era uma criança normal, como todas as outras. Quando você chorava, eu simplesmente mandava você calar a boca.

Tá certo. Como estou com 64 anos, e a tal “viagem investigativa” foi há mais de 20, pode ser que eu esteja reinterpretando a resposta dela e a misturando aos meus controvertidos sentimentos a respeito da minha criação e de tudo o que vivi esses anos todos.

A verdade é que cresci com uma entranhada sensação de medo e insegurança à qual logo me acostumei, sempre lutando contra a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, acabaria perdendo alguma coisa ou alguma pessoa importante para mim. E sempre reagi tentando ir longe demais, me colocando desafios demais, me enfiando em situações complicadas que, para o meu próprio bem, seria melhor evitar. Simplesmente não consigo fazer de outro jeito.

Minha mãe me contou que quando cheguei ao Brasil, com 15 meses de idade, me recusei a andar por um bom tempo. Mais tarde, já adulta, toda vez que eu olhava para as minhas fotos de bebê eu enxergava um rostinho triste, uma postura corporal que parecia sempre estar rejeitando a proximidade do outro. Isso me perturbava tanto que, como diria um amigo das antigas, acabei “ritualizando” as fotos. Em outras palavras: queimei todas.

Mas por que lembrar agora todas essas sensações?

Não sei exatamente. Como diz o Alan, “as coisas me vêm” quando estou escrevendo ou algo assim, embora eu, na verdade, me recuse a acreditar nisso.

De um jeito ou de outro, foi o que me veio à mente no momento em que escutei Hillary mencionar o tal ditado, então eis a minha resposta: Não é preciso uma aldeia inteira, nem um Estado, e muito menos nenhuma ideologia para se criar uma criança. Descontando a educação formal, que é muito importante, só é preciso um bom par de pais amorosos e bem estruturados — pais biológicos, sempre que for possível — muitos abraços e “eu-te-amos”, palavras carinhosas apoiadas em gestos amorosos, não importando a “teoria de comportamento” em voga.

Não é impossível que uma criança educada num ambiente hostil venha a se tornar um adulto equilibrado, equipado para a felicidade. Já vi crianças diagnosticadas com ADD, ou ADHD ou coisa que o valha (diagnósticos de déficit de atenção) e medicadas de acordo, que mesmo assim se viraram muito bem. Tudo bem.

Por outro lado, fico pensando por que os jovens hoje em dia parecem tão perdidos, tão dispostos a aceitar a violência e crenças duvidosas, tão negativamente inclinados a rejeitar a reflexão e o pensamento profundo, meios criativos para se transcender a dureza da vida — fiquei surpresa e chocada no outro dia quando vi um leitor acusando o autor de um ensaio filosófico de “viver numa bolha”. Como isso irá se refletir quando tiverem seus próprios filhos? Ou, afinal, qual será o resultado de nossa disposição de nos destacar da natureza? Não tem como saber; o jeito é esperar para ver.

Enfim, achei que deveria escrever sobre isso e pronto. E enquanto estava imaginando o que escreveria, topei com um vídeo que se tornou viral mostrando um garoto de seis anos chorando, desesperado, por conta de um outro vídeo que tinha visto na escola e que mostrava como a humanidade está “destruindo as florestas e matando todos os animais”. Ele deu sorte (ou não) de não terem mostrado a mais séria ameaça ao nosso futuro enquanto humanos; e já que mencionamos o assunto, não é esquisito que estejamos tão preocupados em preservar a natureza e os animais enquanto fazemos o possível para excluir a nós mesmos desse ambiente? Enquanto, literalmente, lutamos contra a dádiva da natureza para cada um de nós? Experiências com animais e testes de drogas em cobaias de laboratório são tidos unanimemente como crueldade. Ao mesmo tempo, não temos nenhuma objeção a seres humanos que se sujeitam a todo tipo de tentativa maluca no sentido de alterar seus corpos.

Não dá para entender. Nesse meio tempo, acredito que seja importante, inclusive como posicionamento político, lutar pelo nosso direito de crescer do jeito que nascemos, para preservar o direito de uma criança a uma família amorosa, a salvo de “experimentos sociais”.  Falando nisso, é assim que vejo a atual “loucura de gêneros”, sim, um “experimento”. Apesar de saber, certamente, que essas mesmas ideias acabarão sendo usadas contra mim. Afinal de contas, ninguém tem o direito de nos dizer de que jeito e para o que nascemos, ou de definir o que exatamente constitui uma “família amorosa”.

Para começar, acho importante deixar a “aldeia” de fora quando se trata de nossa vida privada, da nossa individualidade. Liberdade é isso!

E para terminar, acho importante lembrar que a atual “revolução dos costumes” começou há 50 anos com atos de desobediência civil. É espantoso constatar que, neste momento, estejamos implorando, apelando ao Estado para interferir em nossos  mais íntimos dilemas.

Sou retrógrada sim, e daí?

pra-esquerda-pra-direitaHá muitos anos, eu estava almoçando no Shopping Leblon com uma amiga escritora, hoje bem mais famosa e merecidamente apreciada, quando ela me surpreendeu com a declaração de que adorava o funk e tudo que ele significava. O funk era um instrumento importante, minha amiga afirmou, para que as mulheres (especialmente nos bairros mais pobres do Rio, onde o gênero é muito popular) pudessem reafirmar sua independência e energia, e por que não dizer, perseguir a igualdade social.

Fiquei espantada. Para mim, o funk é associado a um estilo musical que enfatiza letra por letra, quer dizer, em cada letra de seus versos, o que as pessoas esta semana estão chamando de “cultura do estupro”, um slogan que se espalhou nas redes sociais com a rapidez de um rastilho de pólvora, adquirindo em seu caminho novas e surpreendentes associações com as ideias de esquerda que ainda lutam para prevalecer no país, apesar da indiscutível legalidade do processo de impeachment.

— Mas as letras são tão violentas — argumentei na época. — Tão prejudiciais para os valores femininos.

Não consegui convencê-la, e honestamente duvido de que conseguirei convencer muitos de vocês de tantas coisas que hoje em dia me espantam, talvez porque eu mesma me espante com frequência com o meu novo, recém adotado “arsenal” de ideias e conceitos morais conservadores.

Antes de prosseguir, deixem-me concluir com alguns pensamentos sobre a cultura do fun… ops, do estupro. Semana passada, uma garota de 16 anos apareceu num vídeo divulgado em algum lugar na internet (eu mesma não assisti). Estava nua, deitada inconsciente numa cama suja, enquanto uma voz masculina em off dizia algo como “Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu?” — a quantidade dos que “amassaram a mina” variando no noticiário de cinco a 33.

Não resta nenhuma dúvida de que um evento desses constitui um pesadelo moral, embora não seja uma raridade nesse tipo de ambiente, onde consumo de drogas, sexo grupal e um tipo específico de rap violento são coisas normais. Mas nesse caso em especial, quero ressaltar a rapidez com que dele se apropriaram os defensores da afastada, que sem demora o associaram a “um governo retrógrado que excluiu as mulheres e está planejando cancelar os programas sociais”, entre outras coisas.

Cheguei a ler o seguinte comentário, se referindo ao presidente interino e à nova Secretária da Mulher que inicialmente se declarou contra o aborto legal: “que desgraça se abateu sobre nós… puta merda… e o canalha ainda manda tirar o “presidenta” (sic) de todas as comunicações oficiais… que machista escroto… caraca!”

Caramba. Contrariando a “cultura da mandioca”, o “canalha” que nos governa tem na verdade demonstrado que ama o português, com mesóclise e tudo. Que atraso! E assim temos vivido, acredito, nestes tempos que poderiam ser definidos como “governados pelas redes sociais”. O que era antes domínio de análises bem-informadas e bem fundamentadas hoje foi tomado pelas opiniões ignorantes e apressadas que podem “colar” ou não, dependendo, não da validade de seu conteúdo, mas do número de seguidores de seu autor. O que termina resultando numa mixórdia descontrolada de fatos e numa forma deturpada de conhecimento amplamente aceita como verdade, numa velocidade correspondente à de sua “viralização”.

Agora voltemos a algo bem mais básico, mais estabelecido e muito mais perigoso que tive que enfrentar nas últimas duas semanas, enquanto editava um livro cujas ideias reiteram enfáticamente tudo o que venho criticando nos últimos tempos e que tanto vem me incomodando, como a ênfase que vem sendo dada a “novas configurações familiares” e vários “tipos de pai”. Sofri mais ainda porque não posso deixar um livro de lado simplesmente devido ao fato de que seu conteúdo me incomoda, muito pelo contrário. Sou pela absoluta liberdade de expressão, o que, por outro lado, inclui a minha própria. E tendo dedicado todo o cuidado à edição do material, me sinto agora no direito de exercer a minha crítica.

Feita essa ressalva, lembro que os textos acadêmicos de que o livro se compõe são, como todos os textos acadêmicos, baseados em outros textos já publicados faz tempo, o que nos leva a concluir que a atual revolução dos gêneros já vem de longa data e está muito mais enraizada na nossa psique “moderna” do que poderíamos supor, coincidindo talvez com a revolução feminista que ocorreu há quase 50 anos. Isso mesmo.

Eu até poderia, em princípio, aceitar arranjos familiares “não-tradicionais”, mas fiquei revoltada com o fato de que, para tornar esse “novo” tipo de liberdade aceitável, a principal estratégia dos referidos autores é destruir o vínculo natural que existe entre uma mãe e o cuidado de seu filho durante o período de lactação. Me desculpem se estou me repetindo, mas nesse contexto específico o instinto maternal é descrito como um “biologismo” prejudicial, uma linha de raciocínio muito perigosa, na minha opinião. Se permitirmos que ela floresça, pode ser que num futuro próximo ela acabe resultando no abandono do velho (e ultrapassado) hábito de gerar crianças através do coito heterossexual, um fato da natureza que, se assim eu puder insinuar, deve deixar muitos revolucionários de gênero bastante irritados. Como assim, deixar que a natureza aja assim, tão despoticamente?

Um detalhe que deixa muito claro um certo tipo de “desvio feminista” é o uso insistente do formato “os(as)” que resulta, simplesmente, num péssimo português. As autoras mulheres, que constituem maioria no campo da Psicologia, parecem tão preocupadas com detalhes gramaticais insignificantes (como, por exemplo, o fato de que em português todas as formas no plural são masculinas, o que qualificam como uma “injustiça”) que através de seus conceitos e afirmações acabam por ignorar o fato de que não apenas estão permitindo, mas estão na verdade incentivando a formação de um contexto social no qual os pontos fortes e o poder natural das mulheres estão sendo simplesmente negados em favor de “outras minorias”. Em outras palavras, certos grupos minoritários estão tentando se apossar das nossas exclusivas características biológicas, tão antigas quanto a própria humanidade, em nome de não sei bem o quê. Isto é, daquilo que nomeiam como “liberdade de gênero”, um conceito de gênero completamente desvinculado das limitações de nossas características sexuais.

Num dos ensaios que editei, a autora cita determinado pesquisador, bem famoso na área, por sinal, que em tese estudou a família humana através dos tempos por meio de imagens, e chegou à conclusão de que essa configuração de família hoje dominante (mas não por muito tempo, esperam ardentemente os “ativistas sociais”) não é determinada pela natureza, referindo-se ao fato de que apenas “recentemente” essa ideia de um núcleo familiar heterossexual e monogâmico nos foi “imposta”. Substituindo, por exemplo, o hábito medieval de “vender crianças para as guildas feudais”; isso, para não mencionar várias formas de poligamia que raramente beneficiavam as mulheres, para não dizer nunca.

Mas claro! É o que se chama “evolução dos costumes”!

O mais triste de tudo isso é que tais teóricos(as) são bastante eficazes em “tomar parte pelo todo”, isto é, em usar o argumento de que se “alguma coisa é verdade para uma parte de determinada situação, então é verdade também para a situação toda”, uma técnica de redação denominada “falácia da composição”. Em outras palavras, são fatos tomados fora de seu contexto original, prática também bastante comum na política.

No caso dessas admiráveis novas feministas, elas estão na verdade correndo o risco de cair em suas próprias armadilhas, e se ainda não caíram, cairão em breve. E a gente cairá junto, se não fizermos algo rapidamente. A humanidade está correndo perigo, meus amigos, e não consigo imaginar de jeito nenhum como alguns humanos felizardos poderão se beneficiar disso. A não ser, é claro, se dermos rédea solta para teorias de conspiração que incluem “um governo global”, a eliminação do dinheiro vivo e coisas do gênero, tudo cuidadosamente planejado para nos libertar do peso de nossa força individual, do nosso poder de escolha.

— Agora é tarde — Alan lamenta. Enquanto eu escrevia esta crônica ele estava assistindo a documentário assustador sobre a DARPA, uma “agência militar americana de pesquisas de segurança máxima”, assunto de um livro que será publicado semana que vem nos Estados Unidos. Alan segue me explicando como a ciência e a pesquisa comportamental já foram longe demais para voltar atrás em experimentos que tentam alterar o cérebro humano, incluindo o uso de “chips cerebrais” em recém-nascidos e outras coisas igualmente assustadoras.

Juntar farinhas tão diferentes todas no mesmo saco pode ser um verdadeiro perigo, um alarmismo totalmente injustificado de minha parte, admito. Mas não é tão diferente dessas técnicas psicológicas que estão sendo empregadas para nos engabelar, com o apoio não disfarçado, mas nem por isso identificado, do poder de doutrinação recentemente acumulado pelas redes sociais.

Do ponto de vista pessoal, tenho me sentido cada vez mais à vontade com meu novo conjunto de crenças retrógradas. E daí? E apesar de não estar incluída entre os 400 escritores famosos, donos do pensamento contemporâneo — isto é, do pensamento da esquerda —, que esta semana assinaram nos Estados Unidos um “manifesto em favor da preservação da ética e da liberdade” e outras palavras de ordem semelhantes, posso garantir que existem outras mentes brilhantes por aí que pensam como eu. Apesar de que, se pensar bem, talvez não sejam tão inclinadas a “assinar manifestos” como os luminares mencionados.

Vou terminar me limitando a citar os significados de “funk” número 2 e número 3 listados no dicionário em inglês, já que a palavra “funk” é um anglicismo: (2) um cheiro forte, normalmente desagradável; e (3) um estado depressivo, mau humor, fossa; encolher-se de medo.

É isso aí, amigos queridos. Com tudo isso que temos enfrentado, estou numa fossa de fazer gosto, e fazendo o máximo para não me encolher de medo. O que significa, simplesmente, seguir vivendo.

Como, aliás, estamos todos fazendo. O que não tem remédio, remediado está, não é mesmo?

 

***

 

Uma nota: depois que a crônica estava pronta, José Eduardo Agualusa avisou no Facebook que eu estava errada, que “presidenta” existe e consta do dicionário. Ele está certo.  De acordo com outro escritor, o especialista em língua portuguesa Sérgio Rodrigues, em artigo publicado na Veja em 2001, “não está errado usar ‘presidenta’ como feminino de presidente, assim como não está errado tomar presidente como palavra de dois gêneros, invariável. Esta é a forma dominante, aquela uma variação emergente”.

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Enquadramentos

ruin-1211350_1920Era uma tranquila manhã de quarta em Greenville e eu mal podia acreditar nas coisas que meu cérebro estava lendo naquele artigo sobre a “miséria na América” — “uma América crivada de ansiedades”, para ser exata.

— Alan, por que cargas d’água os americanos estão tão revoltados? Acho difícil de entender.

Ele demora um pouco para responder. Está no meio de escrever um email, tentando contemporizar com mais um de nossos promissores empreiteiros, com quem vínhamos trabalhando há mais de um mês em horário quase integral, numa animação só, trocando ideias excitantes sobre o projeto da nossa casa. Que, por sinal, depois de quase dois anos ralando, por alguma razão que me escapa, ainda estamos alterando. No começo fiquei tão empolgada que até pensei que o sujeito era meu amigo, quando, por exemplo, ele nos levou para um passeio de dia inteiro visitando casas que tinha construído já faz um bom tempo — todas lindas, charmosas, do telhado ao banheiro, a típica “arquitetura de revista” que andávamos procurando. Isto é, se tivéssemos dinheiro suficiente.

Faz tempo também que o Alan vem insistindo naquilo que ele chama de “preço correto” para o estilo de casa que estamos planejando — bom design, sem firulas nem frescuras como já devo ter comentado, muito vidro, acabamento bem simples, mas de boa qualidade, enfim, tudo de um jeito Bauhaus de ser, se é que vocês me entendem. Alan repete o tempo todo que as pessoas estão se iludindo, presas a uma noção de custo que vem despencando desde a explosão da “bolha” imobiliária em 2008, ou coisa parecida (peço desculpas por não saber explicar melhor, mas como na época eu não morava nos Estados Unidos, não dá pra saber como tudo realmente se passou).

Daí que, depois desse longo “namoro”, o empreiteiro bonitão — pois é, evitei até aqui revelar esse pequeno detalhe — enfim entregou o tão temido orçamento… praticamente o dobro por metro quadrado do que a gente estava esperando.

Como um “enquadrador” experiente — aqui nos Estados Unidos as construções começam por levantar toda uma estrutura ou moldura de madeira semelhante a um cenário de teatro, e tínhamos decidido fazer assim mesmo, em vez de insistir no concreto e tijolo — o cara tentou nos “enquadrar” direitinho, isto é, pensou que a gente entraria na dele. O caso é que, depois de tanta pesquisa, aprendemos uma coisa ou duas com relação ao negócio da construção, e já não somos tão inocentes quanto no começo: não levamos nem um minuto para perceber que ele na verdade tinha duplicado os orçamentos recebidos de terceiros, et voilà, sobrou pouco para extrapolar e concluir, sem meias palavras, que ele estava tentando nos explorar, para meu profundo desapontamento. Fiquei deprimida por uma semana.

É bem verdade que desde a obra da nossa casa no Brasil a gente tinha se convencido de que todo empreiteiro é um pouco ladrão, me desculpem aí a generalização. Outro generoso profissional que consultamos, imaginem, ofereceu que passássemos para ele a posse do lote e da casa para que ele tomasse um empréstimo em nosso lugar, e assim que tivéssemos crédito poderíamos comprá-la de volta, rsrs. O problema é que eu nunca disse a ele que não tínhamos crédito… Ousado, o rapaz: me lembrou um filme que assisti há algum tempo no qual a protagonista contrata um matador de aluguel para assassiná-la e assim livrá-la e à sua família de uma dívida impagável… o que, felizmente, não é o nosso caso.

Como tenho escrito demais sobre política ultimamente — pior, política americana, um assunto que pouco interessa aos meus leitores brasileiros — algumas amigas andaram me pedindo que eu escrevesse sobre a minha rotina nos Estados Unidos. O que, por sinal, não iria agradá-las nem um pouco, já que desde que me mudei para cá mudei também tão radicalmente de opinião a ponto de estar apoiando a candidatura a presidente de vocês-sabem-quem.

— Trinta e dois por cento dos jovens adultos neste país ainda moram com seus pais — diz o Alan, que está vendo TV no outro canto da sala.

Ele prossegue me explicando que o desemprego na verdade está em torno de 10, 15%, que as estatísticas só contam gente que ainda está procurando emprego, deixando de lado quem já desistiu ou encontrou algum outro jeito temporário de se virar; e lamenta que o atual governo esteja investindo demais em instituições e gastos sociais, em vez de estimular a economia e fazer o país crescer, um estilo de governar mais para o “socialista”.

— E é por isso que tem tanta gente apoiando o Donald Trump.

Tomando os outros por mim, acho meio difícil para os brasileiros entenderem realmente o que se passa nos Estados Unidos. No Brasil só se tem acesso à interpretação meio tendenciosa de alguns jornalistas locais, que, por sua vez, se baseiam numa opinião também tendenciosa de algum colega estrangeiro, muitas vezes através de traduções malfeitas. Telefone sem fio, sabem como é. Estamos sendo “enquadrados” a cada dia que passa, meus amigos.

Em Psicologia, o termo “enquadrar” é definido como o “processo de definir um contexto ou questões em torno de um problema ou acontecimento de maneira a influenciar como esse contexto ou questão é visto e avaliado”. Então, enquanto eu estava me aborrecendo com a questão do “enquadramento” da casa estava ao mesmo tempo me defrontando, no livro que estou editando, com algumas descrições bastante claras de como a “questão de gênero” vem sendo engendrada na nossa sociedade por muito mais tempo do que ousaríamos imaginar.

Confesso que fiquei muito desanimada. Uma crença bastante tendenciosa envolvendo a “injustiça” de uma divisão “super simplificada” da raça humana em homens e mulheres vinha sendo ensinada nas universidades como verdade comprovada, estabelecida há mais de uma geração por livros didáticos aceitos e aprovados. Portanto, não se trata, absolutamente, de uma ideia meio estapafúrdia relacionada ao uso dos banheiros que apareceu nos Estados Unidos na semana passada, como a princípio pode ter parecido, pelo menos para a “massa ignara”, na qual eu mesma me incluo.

Tendo como base a óbvia injustiça de uma sociedade paternalista, que “enquadrou” as mulheres por boa parte da nossa história civilizada, e também o indubitável sucesso do movimento feminista dos anos 1960, a maioria dos acadêmicos está tentando (e conseguindo) impor a todo mundo uma estrutura de pensamento segundo a qual a família tradicional é não apenas preconceituosa, como também prejudicial à sociedade. Seu vocabulário, usando algumas palavras-chave especialmente inventadas e proibindo outras, resulta em pérolas como “a maternidade não é inata, mas construída pela sociedade”. Isto, baseando-se no fato de que “nem todas as mulheres desejam ter filhos”.

Pô, peraí. Que raio de lógica seria essa? Um bom exemplo é essa campanha de “direitos civis” a favor da legalização do “poliamor” no Brasil. Tudo bem. Para mim, trata-se nada mais, nada menos de “poligamia” com um nome repaginado, entenderam?

Como um exemplar típico da minha geração orgulhosamente revolucionária, na qual as mulheres lutaram com tanta dedicação pelo direito de serem iguais aos homens, tudo o que tenho a declarar é o seguinte: tendo optado por não ter filhos e focar minha atenção em outro tipo de assunto, vejo a maternidade, na verdade, como algo que vem sendo “destruído pela sociedade”, e tenho certeza de que em algum momento vamos nos arrepender dessa coisa toda. Para mim, no entanto, será tarde demais.

No meio de toda essa doideira de diversidade que tenta hoje em dia nos confundir e sufocar, torna-se quase inevitável concluir que mulheres e homens, no final das contas, não poderiam ser mais diferentes. E por favor, não se apressem a concluir que tal diferença inclui “todas as possíveis variações entre um extremo e outro”, ok?

Taí. Quer me parecer que temos optado por basear nossos ideais numa tendência atual enganosa e frágil, que fica martelando o tempo todo os seus pontos de vista. Como eu disse, estamos sendo enquadrados, meus amigos. Caiam fora enquanto é tempo.

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Jogando com as Olimpíadas

2016_Summer_Olympics_logo.svgMeu sobrinho de 27 anos, um brilhante engenheiro que estudou na França e mora há alguns anos na Alemanha, vai voltar para casa em agosto, durante as Olimpíadas, já que se registrou como voluntário e foi aceito para trabalhar como motorista: um profissional de alto nível, com experiência internacional, estará à disposição de alguns atletas sortudos para levá-los a circular por uma das mais belas cidades do mundo.

Assim como ele, milhares de jovens brasileiros se registraram como voluntários, um sonho que começaram a alimentar quando, em 2009, o Brasil foi escolhido para abrigar os Jogos Olímpicos.

Era uma época de muito otimismo no Brasil. O PT estava no governo desde 2002, navegando numa onda (herdada) de estabilidade. Lula era assim, digamos, um tipo de ícone: um homem simples, vindo da classe trabalhadora, que, depois de uma vida de lutas, atingira o mais alto posto público no Brasil — um indiscutível herói da esquerda, reconhecido mundialmente. Obama o adorava, dizia que ele era “o cara”. Uma vitória das boas para um país de terceiro mundo que há pouco tempo estava sendo esmagado pelo peso de uma inflação descontrolada.

Parêntese: este texto foi escrito para a “galera internacional”. Se assim não fosse, estaria cheio de aspas irônicas, mas, como vocês sabem, se a gente quiser ser levada a sério no mundo precisa se comportar. Fim do parêntese.

Tínhamos levado também a Copa do Mundo de 2014, que deu até bem certo, por sinal, apesar dos muitos rumores e da crise política que na época já cobrava seu preço.

Desde então, essa crise piorou substancialmente, e atingiu seu ápice com a aprovação pelo Senado, na semana passada, do processo de impeachment contra Dilma Roussef, atualmente em seu segundo mandato depois de ter sido apontada por Lula para sucedê-lo em 2010, uma escolha desastrosa. Incapaz de governar após sua reeleição em 2014, com sérias suspeitas de contribuições ilegais para sua campanha, Dilma estava há meses praticamente ausente da cena pública, com exceção de seus discursos patéticos e sem sentido, que acabaram por transformá-la em objeto de piadas, algo que a imprensa internacional talvez ignore. Lula, por sua vez, está enfrentando sérias acusações de tráfico de influência, ocultação de patrimônio e falsidade ideológica.

É interessante lembrar que a solução para a nossa galopante inflação veio justamente depois que outro presidente foi impedido, em 1992, pela primeira vez na história brasileira. O impeachment, dizem os especialistas, é um instrumento para garantir a democracia num regime presidencialista, onde não há um primeiro-ministro para ser substituído. Sem isso, afirmam, a democracia poderia facilmente descambar para uma ditadura.

Pessoalmente, já enfrentei inúmeras crises econômicas no Brasil, e penei de verdade. Nos anos 1980, eu era uma empresária e designer bem conhecida, lutando contra uma inflação de 10 por cento. Por semana. Em 1990, logo depois da posse de Collor — o presidente que mais tarde foi impedido —, eu estava trabalhando como curadora de artes na Fundição Progresso, para quem não conhece um importante centro cultural no Rio de Janeiro que, na época, era totalmente dependente de verbas oficiais. E todos os programas culturais foram cancelados, literalmente, da noite para o dia.

Também “naveguei” na onda de estabilidade e progresso que se seguiu ao bem-sucedido “Plano Real”, quando uma moeda estável resolveu finalmente os nossos problemas. Mas apenas temporariamente, já que hoje em dia o Brasil está enfrentando uma forte recessão. Desta vez, devido à corrupção e má administração, pois é, o Brasil não facilita. Então, nesse novo momento, eu tinha decidido me dedicar a escrever e trabalhar como editora. Para quem ainda não sabe, fui a pioneira do livro digital no Brasil, a primeira editora brasileira a publicar um ebook em português na Amazon, muito antes de outras editoras ou outras livrarias online decidirem se arriscar no novo mercado, muito antes de a Amazon decidir abrir sua própria loja no país. Com uma ajudinha da minha parte, gosto de acreditar.

Foi nesse ponto que essa nova crise me apanhou. Eu tinha uma empresa que ia de vento em popa, totalmente operada através da internet; um catálogo com mais de 200 títulos publicados; e a linda casa que Alan e eu projetamos e construímos num paraíso no meio da Mata Atlântica, em Petrópolis. Estava muito preocupada. Nem a Copa do Mundo conseguiu me animar em nada. Tudo que eu queria era vender a nossa casa com algum lucro e me mudar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Não conseguia me imaginar tendo que começar tudo de novo mais uma vez, mais uma vez por conta da incompetência e desonestidade do governo.

Agora que a presidente Dilma já foi impedida, a mídia internacional decidiu comprar a versão dela para os últimos acontecimentos, dando força ao argumento de que foi vítima de um “golpe”. Pois é. Pode até não haver uma acusação direta de corrupção contra ela, ou uma prova indiscutível de que cometeu algum crime. Mas, curiosamente, ao longo dos últimos anos Dona Dilma esteve em posições de poder que coincidiram em tempo e lugar com crimes sendo cometidos, como, por exemplo, em 2007, quando o escândalo de Pasadena transformou a escala de corrupção dentro da Petrobras. Dona Dilma, embora insistindo na teoria de que nada há para manchar sua “impoluta reputação”, era na época a chefe do Conselho da Petrobras, e como tal deveria aprovar qualquer investimento de monta da companhia estatal.

Enfim, não tenho a intenção nesta crônica de fazer uma lista das inúmeras razões pelas quais o Brasil estava certo ao impedi-la, ou enfatizar que todo o processo ocorreu 100% de acordo com as regras e respeitando não só a democracia, como as nossas instituições e a separação de poderes. Para nem mencionar que refletiu a vontade da grande maioria do povo brasileiro, aí incluídos muitos daqueles que votaram nela em 2014.

Devo confessar que não foi surpresa nenhuma para mim ler esta semana no New York Times uma discussão sugerindo que o Brasil deveria no mínimo adiar, provavelmente cancelar os iminentes Jogos Olímpicos. Por razões que não consigo entender, uma campanha contra nossos interesses foi lançada há alguns meses pelo próprio governo, durante a crise de Zika. Uma crise que, por falar nisso, foi em boa parte provocada pela incompetência desse mesmo governo no sentido de eliminar os focos do mosquito com medidas simples, mas efetivas, coisa que já fazemos há anos, desde que surgiram as sazonais epidemias de dengue, que, como todos sabemos, é transmitida pelo mesmo Aedes. A reação foi ruidosa e imediata. Todo  mundo começou a cogitar cancelar os Jogos, sem prestar atenção ao fato de que, no inverno do Rio, os mosquitos diminuem consideravelmente. Dificultando, portanto, a contaminação pelo vírus.

Na série de artigos do NYT o Brasil foi acusado, entre outras coisas, de ser bom em “ocultar os danos e mostrar sua face artificial”, o que, vamos combinar, é no mínimo injusto. Embora a nossa proposta para as Olimpíadas tenha sido ambiciosa, as obras estão sendo executadas, mesmo com toda a dificuldade e agitação política. A crise ainda persiste, mas estamos otimistas. Já estamos do “outro lado” de um dos maiores desafios que o país enfrentou durante a minha vida, e há uma firme disposição de fazer o melhor e dar tudo de nós. Restam ainda incontáveis problemas a serem resolvidos, mas pelo menos não temos mais a sensação de ter uma “gangue” no poder fazendo o que pode para manter seus privilégios, custe o que custar, com o dedicado apoio de um forte esquema de corrupção. Que, por sinal, está sendo desbaratado pela Polícia Federal (não se preocupem: na versão em inglês não chamei o PT de “gangue”, mas sim de “pity party”, um “partido que dá pena”).

Hoje, o Brasil e os brasileiros deveriam, isso sim, ter a seu dispor um amplo e generoso apoio internacional no sentido de fazer tudo o que estiver ao alcance de todos para fazer dessa Olimpíada um sucesso total. Muitos de nossos jovens, como o meu sobrinho, estão a postos. O Rio de Janeiro, que apesar dos pesares continua lindo, está se aprontando para o evento, que, no momento, é nossa melhor e mais imediata aposta para elevar um pouco a nossa moral, tão combalida nos últimos tempos, coitada. E uma campanha da mídia no sentido de prejudicar um projeto tão importante nos faria muito mal.

O fato é que nós, brasileiros, estamos orgulhosos demais da conta da maneira civilizada com que recuperamos o controle do nosso país, deixando intacta sua estrutura democrática. Esperamos que em agosto vocês venham compartilhar com a gente essa satisfação.